
Por Henrique Marques-Samyn
Autor de uma obra elogiada por eminentes figuras do mundo literário brasileiro, como Carlos Drummond de Andrade e Mário Faustino, Walmir Ayala é, contudo, um nome pouco lembrado na contemporaneidade. Se, de um lado, é possível situar esse esquecimento num contexto mais amplo – a carência de uma visão histórica mais ampla da poesia brasileira produzida na segunda metade do século XX, como observou André Seffrin – , de outro lado cabe indagar se, na raiz desse olvido, não estão as dificuldades suscitadas pela própria trajetória poética de Walmir. Organizado por Marco Lucchesi, o livro Melhores poemas de Walmir Ayala, publicado pela editora Global, oferece uma excelente oportunidade para que se avalie o desenvolvimento de uma das vozes poéticas mais originais na história da literatura brasileira.
Lucchesi optou por realizar uma ampla coletânea que, ao lado do excelente ensaio que abre o volume, constitui uma valiosa introdução à poesia de Ayala. Como observa o organizador no referido ensaio, a obra de Walmir é “protéica e multiforme”, composta por um “conjunto vasto, plural e descontínuo” que realiza “como que um compêndio da moderna poesia brasileira, a partir de uma demanda rítmica, que parece realizar a forma desse diálogo com o próprio tempo, além de seu futuro espólio”. Essa ênfase na singularidade rítmica nunca é suficiente: na verdade, eu ousaria propor uma aproximação entre a sensibilidade formal de Ayala e a de Mário de Andrade, poeta igualmente difícil, mas de grande apuro formal, cuja obra caracteriza-se por uma riqueza rítmica que simultaneamente enforma e informa o conteúdo poético; no mais, em ambos os casos deparamo-nos com uma poesia especialmente afeita à leitura em voz alta.
Analisemos, a esse propósito, sucintamente alguns versos de “Frutal”, um dos mais belos poemas de Ayala, presente na ótima seleção de Lucchesi:
Partimos as laranjas: sumo súplice
banhando a azul manhã. Dos gomos salta
o rio da morte, e o manancial que brota
vaticina em deserto a minha sorte;
porque sou sempre a fome e nunca o sumo
macio da laranja que, partida,
tem coração de usura e de limalha:
que outra não fora a carnação da vida.
Mas partimos em quatro esta inteiriça
Aldebarã – branda rosácea úmida
que prende a alma inocente da manhã.
E de sorvê-la os lábios se acrescentam
de doçuras tão fundas que, servidas,
inocentam no gosto a nossa vida.
Se os dois versos iniciais são decassílabos heróicos, no terceiro verso Ayala lança mão de um verso de doze sílabas acentuado na quinta e na décima, que distende ritmicamente o poema e se coaduna perfeitamente com o que o próprio verso expressa: o correr do rio da morte e o surgimento do manancial (perceba-se que as duas palavras finais, “que brota”, surge após as cesuras, o que enfatiza a idéia de algo que irrompe subitamente). Os quatro versos seguintes são decassílabos heróicos, com uma notável variação rítmica: nos dois primeiros, há acentos, respectivamente, na terceira e na quarta sílaba, além da oitava e da sexta obrigatória; no terceiro, há acento apenas na segunda, além da sexta; no quarto, há acentos na quarta e na sexta sílaba. Ora, essa acentuação na quarta sílaba abre o caminho para o decassílabo que se segue (o oitavo verso do poema), que é um sáfico acentuado apenas na quarta e na oitava sílabas; vale ressaltar ademais que, no caso desses dois últimos versos, a acentuação ressalta os vocábulos “coração” e “carnação”, o que lhes confere um singular valor estético, sobretudo pelas estruturas rítmicas subjacentes.
Os versos seguintes são todos decassílabos heróicos – à exceção do décimo verso da composição, um belíssimo sáfico com acentos na quarta, sexta e oitava sílabas; não obstante, a oscilante acentuação dos versos finais merece ser enfatizada. Os quatro últimos versos são acentuados, os dois primeiros, na segunda e na quarta sílaba, além da sexta; e os dois últimos, na terceira e na sexta sílabas. Dessa forma, no antepenúltimo verso o ritmo enfatiza o verbo conjugado “sorvê-la” e o vocábulo “lábios”; no penúltimo verso, o acento recai sobre “doçuras” e “fundas”, num arranjo rítmico que se repete no verso final, o que aplaca a variação presente em toda a composição e se coaduna com o sentido deste último verso: “inocentam no gosto a nossa vida”.
Em sua “Arte poética”, Walmir Ayala estabelece uma contraposição entre o seu lirismo de juventude (“Na adolescência eu queria escrever poemas eternos. / Poemas que não envelhecessem.”) e de maturidade (“Hoje eu pouso o coração da poesia na bandeja das coisas que passam”). Acompanhando seu percurso pela poesia, no entanto, o que percebemos é que o poeta nunca habitou de todo nem um lado, nem outro; de fato, naqueles poemas em que mergulhou mais intensamente nos temas mais triviais, Walmir sempre deixou transparecer uma ânsia de transcendência – veja-se, em particular, o belíssimo “Morcego morto”: “Junto às rosas, assistido / pelo agudo sonho / dos gatos, sob o afiado sol, / apodrece. // Ontem vôo maldito. Agora / espectro varrido. / Habitante / da morte inconsútil.” – , assim como em seus poemas de cunho mais explicitamente metafísico fazem-se presentes, não raro, referências concretas. O que está por trás disso, na verdade, é a sensibilidade mística em sua dimensão mais legítima, ou seja: a capacidade de se perceber a dimensão metafísica por trás de toda a fenomenalidade, algo claramente formulado nas últimas estrofes do poema que abre “Os reinos e as vestes”: “A Criação no entanto / paira ideal nesta rede / de signos. // Os pássaros / ensinam sobre a chuva, / e as altas arquiteturas celestes / sobrevivem ao sonho.” Por seu tom contemplativo e seu acento místico, a obra poética de Walmir Ayala opera como uma espécie de escada: por meio dela, é possível desvelar o sentido maior perceptível através de todas as coisas.