O fim do silêncio da multidão

O fim do silêncio da multidão

Por Igor Felippe Santos

A idéia de fazer esta crônica nasceu da leitura de um capítulo do excelente livro Charles Baudelaire, Um Lírico No Auge Do Capitalismo, de Walter Benjamin (1892-1940). No capítulo intitulado “O Flâneur”, o pensador alemão conta um pouco sobre Baudelaire e o período em que o poeta francês viveu, entre 1821-1867.

Em meio às mudanças na sociedade parisiense com a Revolução Industrial, as pessoas passam a se aglomerar nas cidades e surge a multidão. Com isso, todos os escritores à época se viram em um novo contexto e, além disso, tiveram que incluir essa nova referência às suas obras.

Neste trecho do livro, Benjamin escreve sobre a multidão e descreve como agiam os fisiólogos e o flâneur (sujeito que era, na literatura de Baudelaire, o dono de um olhar inevitavelmente estrangeiro e conscientemente superficial), figuras inerentes à população densamente massificada no século 19. Em todo o período, são citados Balzac, Dumas, Cooper, Poe, Hoffmann, Dickens, entre outros literatos.

Hugo recebe tratamento especial, no final do capítulo, quando suas idéias sobre a multidão são comparadas às de Baudelaire; enquanto o primeiro se inclui na massa de pessoas, o segundo se afasta.

Terrivelmente, a multidão e as sobras humanas que rastejam pelas sarjetas de cidades como São Paulo são, nos malditos dias neoliberais de hoje, equivalentes desumanizados e vilipendiados do dândi e o “flâneur” baudelaireano.

O flâneur que caminhava a esmo na Paris de Baulelaire. Aquele cidadão representado pela figura criada pelo poeta francês para denominar o sujeito que vagueava ociosamente pela cidade, na velocidade da contemplação, não existe mais. Hoje o sujeito mais próximo ao flâneur baudelaireano é o consumista débil mental dos shoppings centers

O equivalente do flâneur que caminhava pelo espaço público, hoje, em São Paulo, são os vagabundos e miseráveis.

O fim do silêncio da Multidão

Eu sou a Multidão. Antes que paire qualquer dúvida sobre mim, quero deixar claro que não sou apenas um ajuntamento de pessoas, animais ou coisas ou grande quantidade de alguma coisa ou conjunto de indivíduos anônimos e semelhantes ou o populacho**, como dizem as más línguas. Tenho sentimento e sou muito mais complexa do que muitos imaginam.

Desde os tempos primórdios, sou discutida e citada por escritores, poetas, pensadores, entre outros. Cada um sempre tem uma visão muito particular sobre mim. Nunca me deram a palavra para me apresentar e falar realmente aquilo que sou, penso e sinto.

Meus ascendentes surgiram faz um bom tempo, na organização dos antigos burgos, ainda na Idade Média. No século 19, com a Revolução Industrial, eu nasci e tomei a forma como sou conhecida hoje. Isso porque a partir desse período muitas pessoas começaram a se concentrar de forma impressionante nos centros industriais. Dois países marcam fundamentalmente o meu surgimento: a França e a Inglaterra, berços da cultura ocidental.

Quando era novinha, me sentia invadida por uma figura conhecida como fisiologista e flâneur. Em um período anterior ao século 19, esses camaradas começaram a retratar alguns dos meus componentes, pessoas que eram parte intrínseca do meu ser. Tal coisa me incomodava, pois sou tímida e isso me tirava o caráter de abstração que eu possuo e pelo fato das pessoas retratadas, de certa forma, deixaram de fazer parte de mim, na medida em que passavam a ser “especiais”.

Um fator importante para o meu crescimento foi as galerias. Aquelas calçadas revestidas de mármore e cobertas de vidro, no meio do bloco das casas que os donos se organizaram para tal construção. Era nesses espaços que eu passeava quando era jovenzinha. E o flâneur aproveitava para se esconder e ficar me espionando e vigiando os meus passos.

A perspicácia desses fisionomistas era tão grande que tinham a capacidade de adivinhar o caráter, profissão e a origem e modo de vida dos meus componentes.

A partir disso, as coisas começaram a ficar conflituosas no meu interior. Apareceram diversos escritores, poetas e pensadores e começaram a me analisar. Cada vez de forma mais profunda. Entre eles Marx, Engels, Baudelaire, Allan Poe, Simmel, Hugo etc. Teve gente que quis me estudar até como um geólogo estuda as camadas de uma rocha. Que horror!!!

Começaram a discutir a minha relação com a Solidão. Mesmo sendo paradoxal, eu admito que tenho contatos fortes com ela. Acho que às vezes eu sou muito fria, tediosa, introspectiva e ajo de forma blasé. Só que posso ser quente, empolgada, acolhedora. Tudo depende do estado de espírito.

A literatura foi outro campo onde fui utilizada. Os romances policiais, principalmente. Entretanto, sou tratada de maneira diferente pelo gênero literário. A determinação específica dos tipos de componentes fica em segundo plano e o que vale significativamente é a função que eu tenho na cidade como um todo. Nesse contexto, o flâneur deixa de ser apenas um observador para se tornar em detetive que nunca perde do horizonte o malfeitor ou o bandido. Acontece, dessa forma, a supressão do meu interior dos vestígios do indivíduo da cidade grande.

Parece que desde a Revolução Francesa, em 1789, foi criada uma rede de controle para me dominar. Eu sempre acreditei piamente que o meu poder era inabalável e que tudo o que eu quisesse aconteceria. Sou forte e é duro de me abalar. Porém fui enganada mesmo. Muitas vezes, aqueles que tentaram me conter obtiveram êxito. Só em momentos extremos consigo força para me mexer.

Outra grande questão é a forma como está disposto o meu interior, que tem movimentação contínua e automática. Qualquer obstáculo já é motivo para uma atitude mais veemente, até que o desvio esteja completo. Se acontecem empurrões, há apenas cumprimentos básicos e segue-se o caminho.

Uma passagem determinante foi quando me ludibriaram, ao obrigarem todos a colocar números na porta de imóveis nas cidades, de forma a criar um padrão e uma referência. Santa ingenuidade!!! Criaram, na verdade, uma forma de controle. Outras idéias parecidas servem até hoje para me dominar. Na verdade, acho que estou quase que totalmente controlada. É como se tivesse perdido o resto de ser humano que tenho, ou já tive, dentro de mim.

Um exemplo é a inconseqüente uniformização dos meus componentes, tanto em relação aos costumes, como as suas roupas, penteados e atitudes. O homem passou a agir como se fosse uma mercadoria. Passaram a andar correndo uns pelos outros como se não tivessem nada em comum. Olhares profundos estão proibidos e a única regra é cada um se mantenha do lado direito da rua. Isso sempre aconteceu, mas hoje em dia… Dizem até que eu me tornei um supermercado, onde as mercadorias ficam lado a lado sem qualquer integração com sua companheira de prateleira.

De qualquer forma, apesar de verdade doer, acredito que essas reflexões fizeram bem para mim. Hoje me conheço melhor e me sinto mais forte, sólida e compacta, não obstante o momento ser de transição e eu estar em um período de instabilidade.

Estou presente nas ruas, mas minha atuação principal está ligada principalmente aos meios de comunicação de massa. Em virtude do primado do privado sobre o público, que me corroeu muito, agora estou mudada. Além de ser abstrata, hoje atuo no abstrato.

A Multidão aqui, como era de se esperar, não está apenas nos grandes cruzamentos, nas galerias ou em qualquer lugar concreto. Quando estou, não chego nem perto do que posso ser. A Multidão aqui se encontra todo dia, por exemplo, vendo na CNN as notícias do mundo inteiro ou às oito horas da noite, à frente da TV, para assistir o Jornal Nacional, da Rede Globo. Essa é minha nova forma de viver e persistir sem incomodar ninguém. Bom para os meus componentes, que não precisam nem mais se cruzar entre eles. Cruzes!!!

**Significados da palavra multidão no “Dicionário Larousse”, editora Nova Cultura.

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