2012: corra, branco, corra

2012: corra, branco, corra

Por Camila Kintzel

Todo mundo que conhece um pouco da religião “dos outros” deveria, ao menos um dia na vida, se perguntar: e se eles estiverem certos e eu, errado? Se eu morresse hoje e tivesse de lidar com um deus azul de quatro braços, como Vishnu? Ou, pior ainda, fosse parar no Valhala assim, do nada? Que porra eu faria no limite do surreal?

2012_1

Parece que Emmerich, com sua tradição de apocalipses bem ensaiados, já se fez essas perguntas. E ensaia diferentes roteiros-desfechos a cada “the final, the true, the true final, the end”. Em 2012, o diretor traz a mitologia maia – que tem brincado na internet como trend topic faz um ano, pelo menos – como referência surreal para um desastre sem precedentes.

Mas vamos ao que interessa: Tá, o mundo vai acabar, é inevitável, e você é um dos escolhidos, sabe das coisas. O que muda?

Em geral, nada. O roteiro do fim do mundo se desenvolve de modo bastante previsível, na cadência esperada e benquista por quem vai atrás do gênero filme-catástrofe. Exagerado, bonito de ver, cheio de explosões e com um acumulado de desastres hipercalórico, bem estilo fast-food. Vulcões ou Tsunami para acompanhar? É claro que nós temos. E, por meia hora a mais você ainda leva o combo super size com Cristo Redentor.

Mas, aproximando mais o olho, vemos detalhes. Pequenas quebras de paradigma. Na história do cinema quase-indie, sabemos que John Cusack é um ótimo escritor meio loser meio desajustado, bem carismático. Sabemos que um presidente negro é diferencial estiloso e atual. Sabemos que os russos são mafiosos e bastante truculentos – beirando a estupidez de bochechas rosadas desde 007. E que loira burra não pode perder a “virgindade”, senão dança.

O que muda um pouco a história de 2012, no olhar pelo avesso, é uma sutil questão racial. O casal mais intelectualizado do filme é negro. O cara que sabe das coisas é negro. O segundo cara que mais sabe das coisas é indiano (quase branco quase preto de tão pobre, diria Caetano, quando acertava). O presidente absolutamente razoável é negro.

E, enquanto isso, os brancos correm. Correm de desastres, voam, pulam, nadam, correm mais, fazem maravilhas. Os brancos ficam com o trabalho braçal, historicamente relegado aos negros, nessa história. Enquanto isso, torcemos pela melhor solução dos dilemas éticos de negros cultos e pouco suados.

No fundo, você pode ver o filme sem perceber nada disso, afinal, tem lava e pedregulhos em chamas por ali. E ninguém consegue prestar atenção em questão racial com lava presente.

Mas esta é a graça: as mudanças de paradigma começam sutis, mesmo que seja necessário o fim do mundo pra isso.

Um adendo: Woody Harrelson está impagável no papel de Larry Flint do Apocalipse.

Compartilhe:
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • email
  • LinkedIn
  • Live
  • MySpace
  • TwitThis

Artigos relacionados