O cangaço na poesia brasileira

O cangaço na poesia brasileira

Por Henrique Marques-Samyn

O cangaço na poesia brasileira (Escrituras, 2009), obra compilada por Carlos Newton Júnior, visa a reunir a produção dos poetas eruditos brasileiros sobre o referido tema – cabendo distinguir o poeta erudito do popular a partir da “formação diferenciada que inegavelmente determina a visão de mundo de um e de outro”, como esclarece o organizador na introdução ao volume: “o poeta popular colhendo a sua matéria no dia a dia e bebendo da fonte da tradição oral; o erudito investindo, até mesmo por conta própria, na formação livresca e na pesquisa de gabinete, que lhe abrem as janelas para outras tradições, inclusive aquelas de substrato clássico”.

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O grande mérito do volume é dar conta de uma produção pouco valorizada pelos estudiosos do assunto. Se a presença do cangaço na literatura popular, mais precisamente a de cordel, é tema contemplado desde Câmara Cascudo, o livro de Carlos Newton Júnior vem abordar um vasto e importante conjunto de obras que demanda olhares mais demorados; cabe notar, principalmente, o valioso tema que o próprio Carlos Newton sugere no (excelente) texto introdutório: “Por meio dos poemas da presente antologia (os mais antigos remontando ao ano de 1927, quando o mais famoso cangaceiro, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, se encontrava no auge de seu poder), os leitores irão perceber que o fascínio pelo ‘cangaço-gesta’ começa a se sobrepor, também desde cedo, em nossa poesia de substrato erudito, ao repúdio pelo ‘cangaço-crime’ – para nos valer de expressões usadas pelo poeta Alexei Bueno em lúcida e contundente análise do fenômeno de permanência e transformação do cangaço no imaginário nacional”.

Entretanto, para além do valor acadêmico, O cangaço na poesia brasileira representa, naturalmente, uma oportunidade para se revisitar ou conhecer as obras de notáveis autores de nossas letras. Destaquem-se o extraordinário “Rei do cangaço”, de Jayme Griz, obra de poderosa dicção e notável valor estético (“É Lamp é Lamp é Lamp / É Virgulino Lampião! // Batizou-se esse cabra, / No interior do sertão, / o rifle foi o Padre, / Punhal, o Sacristão!”); a notável “Conversa de cangaceiros a cavalo no dia em que atacaram Mossoró”, de Homero Homem (“Vambora, gente, o dia não foi bom. / Foi besteira esse ataque a Mossoró. / Não se ataca cidade com igreja / De mais de uma torre, Massilon”); o fortemente imagético “Capitão de cangaceiros”, de César Leal (“Duro olhar, como o diamante, / como o de um tigre no escuro / ou o olho de uma pistola / que fita por trás de um muro”); “Um capitão chamado Virgulino”, de Francisco Carvalho, poema de grande rigor formal (“Nessa vida de incertezas / para o escravo ou para o bardo / até o amor verdadeiro / pode ser um grande fardo. / Os valentes morrem cedo, / ao contrário dos covardes”); “A cantiga de Jesuíno”, de Ariano Suassuna, obra de matizes épicos dedicada a Jesuíno Brilhante, igualmente tematizado em bem urdidos poemas de Sânzio de Azevedo e de Márcio de Lima Dantas constantes do volume; e o belíssimo “Episódio sinistro de Virgulino Ferreira”, de Carlos Pena Filho. Igualmente dignas de nota são as contribuições de Dorian Gray Caldas, Audálio Alves, Janice Japiassu, Newton Navarro, Marcus Accioly, Sérgio de Castro Pinto, Marcos Tavares, Luciano Maia, Nertan Macêdo, Aleixo Leite Filho, Braulio Tavares, Virgílio Maia, Luiz Carlos Monteiro e Astier Basílio, além do inventivo soneto em que Alexei Bueno declina do convite para participar do volume – participando, pois, por negação – e do excelente “Os cangaceiros”, primorosa obra que justifica a transgressão, reconhecida pelo autor, da regra segundo a qual não deve o próprio antologista incluir-se na compilação: mais que valor documental, demonstra o poema grande valor estético.

Destinado a tornar-se obra de referência, O cangaço na poesia brasileira deve interessar não apenas aos estudiosos do assunto, mas a todos os leitores da melhor poesia que privilegia nossa cultura e nossa história. Oxalá Carlos Newton Júnior, que com esse volume reafirma sua já reconhecida competência como antologista, dê prosseguimento ao seu valioso trabalho.

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