Italo Calvino e seu general na biblioteca

Italo Calvino e seu general na biblioteca

Por Renato Roschel

A prosa de Calvino é tida como exemplar: resume e antecipa a mudança de gosto literário antes mesmo do surgimento do pós-moderno como etiqueta sintetizadora de valores e julgamentos que sugerem a exaustão da modernidade.

Sua agilidade e velocidade são um contraponto ao duro e pesado trabalho do autor com a linguagem. Seu mais novo livro, a obra póstuma Um general na biblioteca (no original italiano: Prima que tu dica Pronto), publicado no Brasil pela Companhia das Letras, reúne 40 anos dessa prosa exemplar e é uma mostra do resultado de um trabalho pesado.

Essa obra mostra toda a destreza do escritor para fazer histórias neo-realistas e fantásticas. É uma viagem a idéias extremamente inquietantes, produzidas por um texto limpo, rápido e fácil.

São histórias como a de uma cidade onde só vivem ladrões e que têm sua vida tranqüila tumultuada pela chegada de um homem honesto, ou como a de um país onde os governantes são periodicamente decapitados em praça pública, ou então, a de um telespectador que ameaça matar chefes de Estado com o controle remoto.

É um verdadeiro exercício criativo do autor e, também, dos leitores, pois temos que acompanhá-lo, temos que segui-lo em seu ótimos diálogos imaginários com Montezuma, Henry Ford e o homem de Neandertal.

Calvino nos oferece, com esse texto muito rápido, idéias e questões profundas e difíceis como a de um homem que só entra na guerra para matar um desafeto que o fez passar uma grande vergonha frente a uma mulher.

Luta, mata, mas não acha seu inimigo mortal. Acaba por matar muitas outras pessoas com as quais não tinha o menor problema. Arrepende-se. Vai ao país do seu inimigo para desculpar-se com as famílias de suas vítimas, encontra seu inimigo mortal, mata-o e é preso.

São com contos assim, instigantes, de textos curtos, que a excelente prosa de Calvino nos coloca para pensar. São 32 contos agilíssimos, 32 raccontini (continhos), segundo o próprio autor, que nos levam às mais diversas especulações. Calvino é um dos melhores autores dos últimos tempos. Fez uma obra que transmite a agilidade ao leitor, mas que não deixa de nos mostrar também quanto trabalho pesado foi necessário para que ela fosse feita. Sempre utilizando um jogo de forças opostas, de contrastes. Rápido e lento ao mesmo tempo, claro e escuro, que Calvino produz e pelos quais não se passa incólume.

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