Por Bruno Falabella, de Londres / Fotos: Katie Marcus
Passam das nove da noite de uma fria quarta-feira em Londres. Em poucos minutos os Pixies subirão ao palco para um show em comemoração às duas décadas do lançamento de Doolittle, terceiro disco da banda. A Brixton Academy está completamente tomada, todos os ingressos para os quatro shows em Londres se esgotaram rapidamente há meses. No telão ao fundo do palco um olho é cortado por uma navalha e formigas saem de um buraco em uma mão. É exibido na íntegra Um Cão Andaluz, curta-metragem surrealista de Luis Buñuel e Salvador Dali, feito em 1929, que inspirou a letra de “Debaser”. As luzes se apagam. Os Pixies entram calmamente no palco e são ovacionados enquanto preparam seus instrumentos. David Lovering pega então suas baquetas e faz a contagem: 1,2,3,4…
Em Boston, 23 anos antes, uma mulher lia um pequeno anúncio no jornal Boston Phoenix: “Banda procura baixista com influências de Hüsker Dü e Peter, Paul & Mary. Por favor – sem virtuosismo”. Ela acabara de se mudar, vinda da pequena Dayton, em Ohio, e conseguira um emprego como secretária em um consultório médico. Não muito longe dali, dois colegas de quarto, um deles filipino, haviam deixado a Universidade de Massachusetts para formarem uma banda e aguardavam resposta para o anúncio que publicaram. A moça não sabia, mas seria a única a responder, e pouco tempo depois encontrava os garotos no pequeno apartamento que eles agora dividiam. Eles tinham 20 anos, ela 24. Um resto de comida porto-riquenha encontrava-se sobre a mesa. Ela disse que não tinha um baixo mas poderia pegar um com sua irmã, e pediu para eles tocarem alguma coisa. Acharam o pedido estranho, pois quem estava sendo testada ali era ela. No entanto, Joey Santiago e Charles Thompson, que mais tarde ficaria conhecido como Black Francis, tocam “Holiday Song” para Kim Deal, e o resto é história.
Os anos finais dos Pixies foram marcados pela relação conturbada entre Deal e Thompson, algo comum tratando-se de integrantes que se destacam em grandes bandas. Lennon e McCartney, por exemplo, já vinham há algum tempo tomando caminhos opostos, e a aparição nada discreta de Yoko – que chegou a colocar uma cama no estúdio – apenas piorou as coisas. Entraram em uma desavença que culminou na troca de agressões através de músicas em suas carreiras solo: “Too Many People” e a réplica de John, “How Do You Sleep?”. Mais tarde, quando questionado sobre o assunto, Lennon definiu a história em uma frase: “Se não posso brigar com meu melhor amigo, então com quem eu posso brigar?” Arnaldo Baptista e Rita Lee eram um casal dentro da maior banda de rock do país. Após algumas idas e vindas, Arnaldo, tomado pela fase progressiva dos Mutantes, expulsou Rita Lee da banda por ela não ser virtuosa em nenhum instrumento e, reza a lenda, por não cantar como o vocalista do Yes. Ele também deixaria os Mutantes pouco tempo depois.
Kim e Charles começaram seus atritos em uma situação simples: ela era mais adorada do que ele. A isso, choca-se outro fato: a banda era de Charles. Ele tivera a idéia de formar os Pixies e compunha todas as músicas. Charles começava a se incomodar com o excesso de atenção dispensada a Kim Deal. Ele se matava para compor 15 músicas por disco, escrevia todas as letras, e Kim, dona de um carisma impressionante, naturalmente se destacava nos shows ou nas entrevistas e parecia sempre levar todos os créditos. A britânica 4AD, gravadora dos Pixies, designou um orçamento para o primeiro disco dos Breeders – banda que Kim Deal tem até hoje com sua irmã gêmea Kelley – maior do que o orçamento destinado a Surfer Rosa, disco mais recente dos Pixies à época. Kim, por sua vez, inconformava-se por não ter o espaço que julgava merecer dentro dos Pixies. Ela também compunha, mas como George nos Beatles, o disco já estava cheio quando pensava em colocar suas músicas. Começaram então a se afastar. Kim se dedicava cada vez mais aos Breeders e, seus backing vocals, marca registrada dos Pixies, praticamente sumiram nos dois últimos discos. Em 1993, Thompson enfim acabou com o clima já insustentável dentro da banda através do famoso fax enviado aos integrantes, onde comunicou o fim sem maiores explicações. Deal e Thompson ficaram sem se falar por mais de dez anos após o fim dos Pixies.
Agora eles já passaram dos 40, estão menos intransigentes e sabem que estavam juntos nos grandes momentos de suas carreiras. Kim sabe que será sempre lembrada como baixista dos Pixies e não como guitarrista dos Breeders, Charles sabe que os Pixies não seriam o que foram e nunca poderiam tocar novamente sem ela. No fim, simplesmente deixaram pra trás as desavenças e, quando os Pixies voltaram em 2004, num simples ato, Charles Thompson deu um fim às questões mal resolvidas do passado gravando uma música de Kim Deal – Bam Thwok, lançada via Itunes – que se tornou a primeira composição original dos Pixies desde a separação.
Apesar de populares na Inglaterra e tendo alcançado relativo sucesso nos Estados Unidos, seu país de origem, os Pixies, em seus quase oito anos de existência, não obtiveram o devido reconhecimento. Nos últimos meses antes do término fizeram uma turnê abrindo para o U2, tocando mais cedo, em locais com ainda metade da capacidade tomada e com uma audiência que não estava lá para vê-los. O último disco lançado, Trompe le Monde, parou na posição 92 da Billboard. No entanto, algo aconteceu. Ao longo dos anos que se seguiram, os Pixies foram perdendo gradativamente o status de uma cultuada banda underground para conquistarem um público cada vez maior.
A principal explicação para o que ocorreu nos anos que sucederam o fim é a forte influência exercida pelos Pixies sobre a música que dominou a cena nos anos 90, sobretudo o grunge. Um fator específico usado por praticamente todas as bandas que explodiram naquela década é a dinâmica que Charles Thompson desenvolveu e usou de todas as formas possíveis ao longo dos cinco discos da banda. O loud-quiet-loud (alto-quieto-alto ou algo como pesado-calmo-pesado) dos Pixies foi influência direta para músicas consagradas da década passada como “Creep”, “Song 2″, “Bullet with Butterfly Wings “ou “Lithium”. Kurt Cobain disse sobre “Smells Like Teen Spirit” em uma entrevista a Rolling Stone em 1994: “Eu estava tentando escrever a canção pop definitiva. Basicamente eu estava tentando plagiar os Pixies. Tenho que admitir (risos). Quando ouvi Pixies pela primeira vez, me conectei com eles tão intensamente que achava que deveria estar naquela banda – ou, ao menos, numa banda cover dos Pixies. Nós usamos seu senso de dinâmica, sendo leves e calmos e depois altos e pesados”.
A constante citação por nomes de peso também fez aumentar o mito em torno da banda. Thom York disse certa vez ao fim de uma música do Radiohead: “Essa foi para os Pixies. Quando eu estava na Universidade comecei a ouvir Pixies e eles mudaram minha vida”. David Bowie diz ter ficado frustrado ao ouvir sobre o fim da banda, pois queria vê-los alcançando o sucesso comercial merecido. Bono, Billy Corgan, Beck ou PJ Harvey nunca esconderam sua admiração. E em 2004, praticamente duas décadas após o término, a banda anunciou a improvável reunião, esgotou ingressos em minutos e encabeçou os principais festivais do mundo. Naquele ano eles tocaram no Brasil num histórico show em Curitiba. Enquanto ausentes, viraram mitos.
O show da última quarta-feira (7/10), na Brixton Academy, começou com quatro B sides recebidos com euforia pelo público, entre eles Bailey’s Walk e Manta Ray. Não é qualquer banda que pode começar um show com quatro obscuros B sides. Na sequência tocaram o Doolittle inteiro, na ordem e sem conversas com a platéia entre as músicas. A introdução de “Debaser” no baixo inconfundível de Kim Deal fez explodir o local e a partir daí o público cantou praticamente todas as letras: I am un Chien Andalusia! gritavam em uníssono as 5 mil pessoas no lugar. Os berros de Tame continuam os mesmos. Charles Thompson agora é Frank Black (nome adotado após se livrar de Black Francis quando a banda acabou em 1993), e ataca, com seu vocal impecável, clássicos como “Here Comes Your Man” e “Monkey Gone to Heaven”. “Hey” foi um dos pontos altos, e finalmente “Gouge Away” fechou a sequência do Doolittle.
Voltaram ao palco mais duas vezes com aplausos incessantes. Na primeira volta tocaram outros dois B Sides relacionados ao Doolittle, “Wave of Mutilation (UK Surf)” e “Into the White”, para terminarem o show no segundo bis com uma música do Come On Pilgrim, “Isla de Encanta”, e duas do Surfer Rosa, “Broken Face” e “Where Is My Mind”, com a combinação perfeita das vozes de Kim Deal e Charles Thompson. Nos agradecimentos a um público extasiado que aplaudiu por mais de dez minutos, Charles e Kim trocam um olhar de dever cumprido. Voltaram a ter a mesma cumplicidade do início da banda e colhem agora os louros merecidos. O mundo deu voltas e a justiça foi feita. Os quatro músicos de Boston, que foram sempre medianos em termos de público ou vendagem transformaram-se nos lendários Pixies, uma das bandas mais influentes da história.

