Por Danilo Corci
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Se a história da literatura francesa guarda um nome que poderia beirar o infame, este nome atende por Donatien Alphonse François, o Marquês de Sade. Intitulado como “o mais livre espírito que já existiu”, ele alterou o rumo do comportamento social e também desta arte intitulada literatura.
Tudo porque foi um mestre na literatura erótica. Sua importância virou até substantivo: sadismo. Seus trabalhos versam sobre a exploração sexual e liberdade política. Sua vida pessoal tem histórias escabrosas de estupro, torturas e até mesmo assassinatos. Em “Idées sur les Romans”, de 1800, Sade escreveu que a essência da representação novelística está na relação incestuosa do autor com a natureza. E para ser verdadeiro com está relação, o escritor tem que atingir todos os limites, exceder as fronteiras da convenção e do conhecimento.
Donatien Alphonse François de Sade nasceu em Paris, no ano de 1740, no seio de uma família aristocrática. Ele foi o único filho sobrevivente de Jean-Baptiste de Sade e de sua esposa, Marie-Eléonore de Maillé. Seus antepassados foram entitulados nobres no século 12 e ainda eram muito influentes quando ele nasceu. Com quatro anos, Sade foi enviado aos cuidados de seu tio em Avignon, cuja a vida sexual era peculiar. Depois deste parco período, ele ingressou em uma escola jesuítica de Louis le Grand.
Dos 14 aos 26, ele entrou para o serviço militar e esteve na Guerra dos Sete Anos. Em 1763, casou-se com Renée-Pélagie de Montreuil, filha de uma família burguesa. No mesmo ano, teve um caso com uma atriz e era comum a presença de prostitutas em sua casa. Em 1768, ele manteve como refém Rose Keller, uma prostituta, passando meses a abusar da garota. O chefe de polícia de Paris soltou um comunicado a todos os bordéis de Paris, avisando que Sade era um elemento de alta peculiosidade. Nos anos advindos, ele foi condenado por diversos crimes sexuais e arrumou uma briga com Madame de Montreuil, sua sogra, ao seduzir Anne-Prospre, irmã mais nova de sua esposa. Pior. Não foi uma mera sedução. Sade tirou a virgindade da menina em uma orgia na fortaleza medieval de La Coste, em Provence.
O ano de 1772 foi duro para ele. Em Aix, Sade foi condenado a morte pelo crime de envenenamento. Fugiu espetacularmante para a Itália. Foi preso e deportado para Paris, de onde foi enviado para a casa da família de sua mulher na Normandia. Em La Coste, ele continuou a organizar orgias, coisa que o consumiu de 1773 a 1777, chegando, inclusive, a contratar um harém de jovens beldades como escravas sexuais. Após escândalos contínuos e acusações, Sade foi preso em 13 de fevereiro de 1777. Seu futuro foi o cárcere. Passou 27 anos rodando por prisões na França. Segundo lendas, quem arquitetou sua prisão foi a sogra, em vingança pelo ocorrido com sua filha mais nova. Sade imortalizou isto: “Oh, poderes do inferno, me garanta o desejo de Nero, em que todas as mulheres tenham apenas uma cabeça e esta pertença à víbora que me tiraniza, depois me garanta o prazer de cortá-la fora”. Em Vicennes, sua primeira prisão, ele, algumas vezes, era alimentado através das grades de sua cela. Mas Sade queria manter alguma dignidade e escreveu em uma carta: “Envie-me algumas vestimentas e calças, alguma coisa limpa, leve mas não feita de linho”. E, claro, para espantar o tédio, começou a escrever graphic novels e peças com forte conteúdo sexual.
Sade conseguiu escapar mas foi recapturado e transferido para a Bastilha, em Paris, no ano de 1784. Sua cela tinha meros 16 pés de diâmetro. Naquele local, ele escreveu “Les Journées de Sodome”, um clássico da literatura underground. Em 2 de Abril de 1790, ele foi libertado. Sua esposa conseguiu o divórcio. Em 1791, aos 51 anos, ele publicou Justine. A turbulência estava controlada. Sade havia conseguido sobreviver à Revolução Francesa, onde vários nobres foram executados. Provavelmente a revolta popular não caiu sobre o escritor por conta de suas idéias ousadas.
Porém em 1801, ele foi preso novamente e enviado a Charenton, onde começou a escrever o romance “Crimes de Paixão”. Neste período ele também organizava peças no asilo onde estava. Seus últimos dias de vidas foram passados sob tortura, organizada por um ex-abade do local. No dia 2 de dezembro de 1814, Marquês de Sade morreu. Seu filho mais velho queimou manuscritos inéditos. Anos mais tarde, seu túmulo foi violado e seus restos mortais levados para estudos.
Sua obra é duradoura e revolucionária. Justine, por exemplo, versa sobre os encontros sexuais de uma jovem garota. Em sua filosofia, Deus é o mal e todo o sofrimento da protagonista é resultado de sua negação desta verdade. Sade, inclusive, declarou que este livro era capaz de corromper o próprio diabo e negou a autoria. Na sequência do livro, Juliette (1798), a heroína é a irmã de Justine, que se deliciava com os prazeres da maldade. Sade, inclusive, chegou a enviar uma cópia deste livro para Napoleão. Seus escritos influenciaram ninguém menos do que Charles Baudelaire.
Porém, somente em 1904 foi descoberta sua obra-prima, o seu maior legado: “Os 120 Dias de Sodoma”. O movimento surrealista delirou com os escritos. E Guillarme de Apollinaire definiu: os escritos de Sade irão dominar o século 20… Doce profecia.