João Cabral de Melo Neto

Por Renato Roschel
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Em 1952, acusado de subversão, João Cabral, ao ser interrogado se em uma guerra serviria ao Brasil ou à União Soviética, deu a seguinte resposta: “Numa guerra entre Brasil e União Sovética, eu luto pelo Brasil; numa guerra entre o Brasil e Pernambuco, eu luto por Pernambuco; numa guerra entre Recife e Pernambuco, eu luto por Recife; numa guerra entre Recife e a rua da Jaqueira, eu luto pela rua da Jaqueira!”

Seus interrogadores, talvez não preparados para compreender o que significava tal resposta, o liberaram. Eram os negros tempos do governo Vargas e João Cabral pagava o preço por ser um homem de idéias.

Nascido a 9 de janeiro de 1920, na rua da Jaqueira, no Recife, João Cabral passaria por muitas coisas antes desse terrível interrogatório.

Filho e neto de produtores de açúcar, João Cabral viveu os primeiros dez anos de sua vida ouvindo o barulho dos engenhos de São Lourenço da Mata e Moreno, duas cidades do interior do Pernambuco.

Em 1930, sua família retornou ao Recife e João Cabral passou a frequentar o colégio Ponte d`Uchoa, dos Irmãos Maristas, no qual estudou até concluir o curso secundário.

Nessa época, João Cabral já era uma grande promessa do futebol Pernambucano, tanto que, em 1935, foi campeão juvenil pelo Santa Cruz Futebol Clube, na posição de center half, ou, como conheçemos atualmente, na posição de volante. Dessa passagem pelo futebol João Cabral nos daria não gols ou jogadas espetaculares, mas um dos mais lindos poemas sobre um dos maiores personagens dos gramados brasileiros: o Divino, Ademir da Guia.

Ademir impõe com seu jogo o ritmo do chumbo (e o peso), da lesma, da câmara lenta, do homem dentro do pesadelo.

Ritmo líquido se infiltrando no adversário, grosso, de dentro, impondo-lhe o que ele deseja, mandando nele, apodecendro-o.

Ritmo morno, de andar na areia, de água doente de alagados, entopecendo e então atando, o mais irriquieto adversário.

Em 1937, João Cabral começou a trabalhar como consultor jurídico na Associação Comercial de Pernambuco, depois assumiu o cargo de encarregado de apuração industrial no Departamento de Estatística do Estado.

Nessa época, João Cabral era um assíduo frequentador do Café Lafayette, no Recife. Lá, ocorriam os encontros dos artistas e intelectuais recifenses, entre eles, Willy Lewin, Ledo Ivo, Gastão de Holanda e Vicente Rego Monteiro.

Em 1940, João Cabral e sua familia viajam para o Rio de Janeiro, então capital do Brasil. No Rio, ele conheceu os poetas Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade e mais alguns outros intelectuais, durante as reuniões que aconteciam no consultório do médico e poeta Jorge de Lima. No ano seguinte, João Cabral apresentou, durante o Congresso de Poesia do Refice, a tese Considerações Sobre o Poeta Dormindo e, em 1942, lança Pedra do Sono, seu primeiro livro de poesias, o qual teve a edição custeada por ele mesmo e tiragem de 340 exemplares apenas. 300 doados para amigos e 40 edições de luxo vendidas para os primos ricos a fim de pagar as outras 300 edições.

Em 1943, prestou concurso público e foi nomeado para o cargo de assistente de seleção do Departamento Administrativo de Serviço Público. Nesse mesmo ano, ele publicou na Revista do Brasil um exercício poético baseado no poema Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade. O exercício chama-se Os Três Mal-Amados.

Em 1945, com edição paga por Augusto Frederico Schmidt, João Cabral lançou o livro O Engenheiro. Nesse ano, ele foi admitido, após concurso, para a carreira diplomática.

No ano seguinte ele se casou com Stella Maria Barbosa de Oliveira e, em dezembro, nasceu o primeiro filho do casal, Rodrigo. Em 1947, João Cabral foi transferido como vice-cônsul, para o Consulado Geral de Barcelona. Em Barcelona, João Cabral adquiriu um pequena impressora manual e nela começou a editar obras de poetas brasileiros e espanhóis. Foi nesta impressora manual que ele imprimiu o seu livro Psicologia da Composição. Nesse ano, ele conheceu o poeta catalão Joan Brossa e o artista plástico, também catalão, Antoni Tapies, com o qual João Cabral manteve um forte relacionamento intelectual.

Em 1948, nasceu a sua filha Inês, e, no ano seguinte, seu terceiro filho, Luiz. No mesmo ano que que nasceu Luiz, João Cabral passou a ter como amigo o artista plástico Joan Miró, sobre quem o poeta escreveu um ensaio que foi publicado com gravuras inéditas do próprio Miró.

Em 50, João Cabral publicou Cão Sem Plumas, livro que foi inspirado na descorberta de que, na Índia, a média de tempo de vida era de 29 anos, enquanto que na cidade natal do poeta, Recife, a mesma média não atingia os 28 anos de idade. Nesse mesmo ano, ele foi transferido para o consulado em Londres, dois anos mais tarde, teve voltar ao Brasil para responder a um inquérito que o acusava de subversão e do qual nós já tratamos no começo deste texto. O incidente, ocorrido em 1952, foi fruto de obtusas elocubrações cerebrais do político direitista Carlos Lacerda, o qual acusou João Cabral de atividades subversivas, pois o autor mantivera contato com algumas figuras da esquerda espanhola. Em 1953, Cabral foi colocado em regime de disponibilidade pelo Itamaraty e passou então a trabalhar como secretário de redação do jornal A Vanguarda, dirigido por Joel Silveira.

Nesse ano, João Cabral escreveu o poema O Rio e teve o seu inquérito arquivado. Mudou-se então com a família para o Pernambuco. Seu poema O Rio recebeu, em 1954, o rêmio instituído pela Comissão do IV Centenário de São Paulo, sendo publicado em edição comemoratica à data. Também em 54, a Editora Orfeu, do Rio de Janeiro, publicou o seus Poemas Reunidos. Nesse mesmo ano, João Cabral foi reintegrado à carreirta diplomática.

Em 1955, nasceu sua filha Isabel e João Cabral recebeu o prêmio Olavo Bilac concedido pela Academia Brasileira de Letras. No ano seguinte, o poeta tem toda a sua obra editada pela José Olympio, juntamente com os inéditos: Morte e Vida Severina, Paisagens com Figuras e Uma Faca só Lâmina. Nesse mesmo ano, João Cabral foi nomeado vice-cônsul adjunto, seguindo para Barcelona com a missão de fazer pesquisas históricas no Arquivo das Índias de Sevilha, cidade na qual ele passou a morar.

Dois anos mais tarde, foi transferido para o Consulado-Geral de Marselha. Em 1959, foi pulicado em Lisboa o livro Quaderna. Nesse mesmo ano, após ser nomeado primeiro-secretário da Embaixada, João Cabral mudou-se para Madrid. Na capital espanhola, João Cabral publica, por conta própria, em 1961, o livro Dois Parlamentos. Nesse mesmo ano, ele retornou ao Brasil para assumir o cargo de chefe de gabinete do ministro da Agricultura Romero Cabral da Costa, porém, com a renúncia de Jânio Quadros foi obrigado a voltar para Madrid. Também nesse ano, a Editora do Autor de Rubem Braga e Fernando Sabino, lançou Terceira feira, livro que reunia Quaderna, Dois Parlamentos, os quais ainda eram inéditos no Brasil, e uma nova reunião de poemas Serial.

Em 1962, João Cabral foi transferido para Sevilha e, dois anos mais tarde, passou a ser o conselheiro para a Delegação do Brasil junto à Organização das Nações Unidas, mudando-se para Genebra. Nesse ano nasce o seu filho João.

Em 1966, passa a ocupar o cargo de ministro-conselheiro. Nesse mesmo ano, o Tuca, em São Paulo, monta o espetáculo Morte e Vida Severina, com músicas de Chico Buarque de Holanda. Nela, o personagem principal é um retirante que foge da seca de Pernambuco em busca de sobrevivência na cidade de Recife. Severino é uma alegoria de todos os sertanejos fugitivos da seca do sertão, que passam, de tempos em tempos, pela terrível privação de chuva, de água e de esperança. Assim, dotados de todo o desespero que a seca pode fornecer, fogem a pé, por caminhos onde o Sol é escaldante, o chão é de pedra, os rios secos, os animais cadavéricos ou mortos. A peça é um Auto de Natal, pois, para João Cabral, todos os retirantes são como o Cristo, penando pela terra e pela aridez do mundo que se mostra monstruoso para as pessoas simples e desamparadas. Auto é um tipo de peça de teatro que existe desde a Idade Média. O espetáculo, depois de ser apresentado com sucesso em várias cidades brasileiras, foi para o exterior, onde recebeu inúmeros prêmios, inclusive o do Festival de Nancy, onde João Cabral ganhou a premiação de Melhor Autor Vivo. Nesse ano, João Cabral lança o livro A Educação pela Pedra , pelo qual recebeu os prêmios Jabuti, Luíza Cláudio Souza, e o prêmio do Instituto Nacional do Livro.

Em 1967, João Cabral foi nomeado cônsul-geral em Barcelona e, no ano seguinte, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Alguns anos mais tarde, mais precisamente em 1972, João Cabral foi nomeado embaixador do Brasil para o Senegal, Mauritânia, Mali e Guiné. Depois, três anos mais tarde, lançou, pela Editora José Olympio, o livro Museu de Tudo, o qual recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte.

Em 1979, João Cabral foi nomeado embaixador em Quito, Equador e publicou, também pela Editora José Olympio, o livro A Escola de Facas. Em 1980, fez, em Recife, o discurso inaugural da Ordem do Mérito de Guararapes, sendo condecorado com a Gran Cruz da Ordem. Nesse ano, Zila Mamede, sua mais importate bibliógrafa, faz uma exposição da obra poética de João Cabral no Palácio do Governo de Pernambuco.

No ano seguinte, ele foi nomeado embaixador em Honduras. Nesse ano, lançou a antologia: Poesia Crítica. Em 1982, foi transferido para o Porto, em Portugal, para ocupar o cargo cônsul-geral. Nesse ano publicou O Auto do Frade pela Editora Nova Fronteira. Três anos depois a mesma editora lançou Agrestes. Em 1986, morreu sua mulher Stella no Rio de Janeiro. No mesmo ano, João Cabral casou-se com a poeta Marly de Oliveira. No ano seguinte, ele publicou, também pela Nova Fronteira, Crime na Calle Relator e recebeu o prêmio Juca Pato, da União Brasileira dos Escritores. Em 1988, publicou o livro Museu de Tudo e Depois.

Aposentou-se, em 1990, dos seus trabalhos como embaixador. Nesse ano, ele lançou, pela Editora Nova Fronteira, o livro Sevilha Andando e foi eleito para Academia Pernambucana de Letras. Também em 90, João Cabral passa a receber o primeiro de uma série de prêmios, este prêmio foi o Luís de Camões, concedido pelos governos de Portugal e do Brasil. Dois anos depois, ele recebeu o prêmio O Estado de São Paulo, do governo paulista, e o prêmio Neustadt, da Universidadde de Oklahoma, o qual dá ao seu vencedor um cheque no valor de 100 mil dólares. Em 93, recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.

Em 1994, a editora carioca Nova Aguilar publicou suas obras completas. João Cabral de Melo Neto, morreu, aos 79 anos, no dia 9 de outubro de 1999, por volta das 11h30, em seu apartamento no bairro do Flamengo (zona sul do Rio). Cabral estava praticamente cego e vinha sofrendo de depressão nos últimos anos.

Os últimos anos da vida de João Cabral de Melo Neto foram difíceis, pois o poeta ficou mais cego a partir de 1993. Para quem, certa vez, declarara que tinha o vício da leitura, com a seguinte explicação: “Eu confesso a você que tenho o vício da linguagem, quer dizer, o vício da leitura. Desde que me entendo por gente, não me lembro de mim, desde menino, senão com um livro na mão. Eu tenho a doença de ler, é um vício”, a cegueira realmente deve ter sido muito triste. Para João Cabral, o ato de ler era parte fundamental de sua rotina, como ele mesmo a descreveu tantas vezes. Apesar do casamento com Marly de Oliveira, Cabral se dizia mais melancólico do que o habitual, sujeito a frequentes crises de depressão, como a que o abateu logo depois de sua volta ao país, devido à irritação que a reforma de seu apartamento no Rio lhe causou. Sua saúde ficava cada vez mais frágil. Pouco antes de se aposentar, passou por duas cirurgias sérias de úlcera, uma no estômago e outra no duodeno. Sua vida foi se apagando nos últimos dez anos assim como a sua visão e a capacidade de ler e escrever, tão importantes para ele.

Dono de uma obra maior, Cabral, segundo uma declaração de Ferreira Gullar, era um poeta que queria organizar a criação poética de uma maneira matemática. Ferreira afirma que, em uma conversa que teve com João Cabral, esse havia lhe dito, “olha, já tenho confusão demais dentro da minha cabeça. Preciso ter ordem em algum lugar”.

Para Gullar, a matematização da poesia é algo impossível e afirma ter dito isso a Cabral, o qual lhe respondeu: “mas poesia matemática pode ser feita sim, acho que você não tem razão”. Segundo Gullar, essa afirmação de Cabral esclarece todo o comportamento do poeta pernambucano “com relação à poesia, a atitude dele, o rigor formal, a necessidade de controlar o poema, de criar o poema racionalmente. Isso é exatamente a necessidade de alguém que tem uma inquietação muito grande, que precisa diminuir aquela efervescência, aquele tumulto. E é isso que determina a qualidade de sua poética, não só lhe dá autenticidade, como é expressão de uma necessidade efetiva. Não é uma mania formalista”.

Cabral tentava, de alguma forma, controlar o tumulto intrínseco a todo o ser humano. O fruto dessa luta é uma das melhores poesias já produzidas no mundo. João Cabral é considerado, ao lado de Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta brasileiro do século 20.

Obras: 1942 – ‘Pedra do Sono’ 1943 – ‘Os Três Mal-Amados’ 1945 – ‘O Engenheiro’ 1947 – ‘Psicologia da Composição’ 1950 – ‘O Cão sem Plumas’ 1954 – ‘O Rio’ e ‘Poemas Reunidos’ 1956 – ‘Duas Águas’, contendo ‘Morte e Vida Severina’, ‘Paisagens com Figuras’ e ‘Uma Faca Só Lâmina’ 1960 – ‘Quaderna’ 1961 – ‘Dois Parlamentos’ e ‘Terceira Feira’ , contendo ‘Serial’ 1965 – ‘Poesias Completas’ 1966 – ‘A Educação pela Pedra’ 1975 – ‘Museu de Tudo’ 1980 – ‘A Escola das Facas’ 1984 – ‘Auto do Frade’ 1985 – ‘Agrestes’ 1986 – ‘Poesia Completa’ 1987 – ‘Crime na Calle Relator’ 1988 – ‘Museu de Tudo e Depois’ (‘Poesia Completa 2′) 1990 – ‘Primeiros Poemas’ e ‘Sevilha Andando’ 1994 – ‘Obra Completa de João Cabral’ 1997 – ‘Serial e Antes’, ‘A Educação pela Pedra e Depois’ (obras completas)

Fontes:
Cadernos de Literatura do Instituto Moreira Salles
Folha de S.Paulo

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