Por Fernando Cocchiarale e Viviane Matesco
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“Distinguir entre nudez e o nu é essencial para compreender como o corpo constitui-se num dos principais motivos da obra de arte ocidental. Enquanto a nudez sugere o estado de quem está despido e o correspondente embaraço causado por essa situação, o nu projeta no nosso espírito a imagem, não de um corpo tolhido e indefeso, mas de um corpo equilibrado, desabrochado e seguro de si mesmo: o corpo re-modelado”, escreveu Kenneth Clark.
Gênero artístico criado na Grécia, o nu corresponde a esse corpo remodelado, pois possibilita a visualização de valores espirituais. O corpo humano representava a medida, o equilíbrio, a modéstia, a proporção. A beleza decorreria, pois, dessa qualidade rítmica das coisas, da proporção harmoniosa das partes, mais ou menos presente no mundo e exemplar no corpo humano: não seria o que se vê, mas um ideal supra-sensível, uma realidade transcendente.
Sintoma da moralidade, a beleza plástica não era isolável da virtude interior. Base de toda representação antropomórfica ocidental, essa concepção do corpo humano apresenta uma singularidade: ainda que identificável do ponto de vista sensível (tal como ocorre quando da projeção da imagem do corpo no espelho), sua imagem supera o sensível, o material e o corpóreo tomados em strictu sensu, pois a beleza transcende as aparências.
Subversão
No início do século 20 a arte moderna subverte, através da fragmentação e deformação, a representação antropomórfica que dominava tradição ocidental. A ruptura da imagem especular do corpo humano insere-se no processo de questionamento da representação tradicional: agora o corpo passa a ser compreendido como linguagem que produz um sentido através do próprio processo de transfiguração. A decomposição e a deformação do corpo humano marca a estética modernista através de uma recusa permanente em fixá-lo.
A segunda metade do século 20 acentuará a crise da visão antropocêntrica e da tradicional sublimação do corpo: a matéria, a animalidade e a crueza passam a ser explorados. O corpo passa a ser olhado doravante de maneira diferente. Sua importância na busca de novas formas de liberdade e no questionamento de convenções artísticas e sociais passa a ser capital para os novos artistas.
Utilizado inicialmente como uma ferramenta para aplicar a tinta, o corpo passa a ter o papel principal de suporte em happenings, body art e performances como uma subversão dos tabus e interditos. Na arte contemporânea o corpo abandona não só o espelho – como qualquer enquadramento –, passando a atuar literalmente seja através de uma ação ou pela ênfase de dimensões antes reprimidas, como a sexualidade, os fluídos e odores. É exatamente o reconhecimento da corporalidade do sujeito na arte que profana a imagem do corpo idealizado.
Contracultura
Dos happenings dos anos 60 e ações dos anos 70 às performances mais recentes observa-se a consolidação de novos meios, a institucionalização de novas categorias. O posicionamento dos artistas no final da década de 60 tem como pano de fundo os movimentos de protesto e as críticas aos valores da classe média.
Essas idéias tornam-se parte essencial dos trabalhos de arte que exaltam a contracultura da transgressão e têm o sentido de rebater a carga repressiva do ambiente social. As transgressões dos artistas irrompem além das fronteiras da arte, uma vez que não pretendem refletir passivamente a sociedade em que vivem, tentam mudá-la produzindo uma nova cultura. Produzem intervenções na paisagem urbana, passam a utilizar o próprio corpo como suporte artístico e convertem suas obras em performances no espaço público.
Anos 80
Aqueles que começam a trabalhar com performance na década de 80 já não operam na conjuntura de repressão política e da contracultura. No caso brasileiro, com a redemocratização do país, a questão política torna-se difusa, não mais atrelada a uma ideologia ou foco de reação à ditadura. A própria designação performance consolida-se como um meio específico. Ao contrário das ações da década de 70, a performance dos 80 e 90 apresenta uma maior complexidade não só na preparação, que inclui várias etapas, mas também porque comumente se relacionam a uma instalação.
Os artistas ao longo da década de 80 posicionam-se frente aos processos da arte de maneira diferente daquela dos artistas do experimentalismo brasileiro dos anos 70. O retorno à representação e às possibilidades narrativas, sem qualquer preocupação com os códigos de desmaterialização da obra de arte vigentes na década de 70, é inicialmente indissociável do retorno à pintura, isto é, ao seu suporte e aos seus meios convencionais.
Essa recaída, no entanto, só nos autoriza a compreender porque grande parte dessa pintura trate o corpo como o passado modernista o fizera – um campo no qual a operação expressiva tendia-o à deformação. Essa razão leva-nos a uma conseqüência curatorial: a exposição não apresentará obras desse teor, salvo naqueles casos em que suas características transbordem esses limites.
Hibridismo e perversão
Superado esse momento inicial, a arte dos anos 90 mescla a narrativa e o tema da hegemonia pictórica da década anterior com os meios não artesanais da desmaterialização da década de 70. Seja em objeto ou imagem, criam formas híbridas (não se referem claramente aos objetos, mas não são tampouco abstrações, devido à sua potência evocativa) que freqüentemente quebram categorias, fragmentam conjuntos, literal ou virtualmente.
Para artistas da década de 60 como Antonio Dias, Anna Bella Geiger e Anna Maria Maiolino, o visceral significava uma autenticidade simbolizada no corpo e nos processos orgânicos. Apenas como um exemplo oposto, nos trabalhos com dejetos de Barrio, o visceral e a putrefação supõem uma experiência de repulsa pelo seu caráter escatológico, do mesmo modo as carnes e vísceras irrompem como narrativa nas camadas densas de tela de Adriana Varejão etc.
Já Victor Arruda encontra na relação com o desenho de Carlos Zéfiro uma via para explorar imagens obscenas e toscas de nosso imaginário numa completa perversão dos valores estéticos convencionais. Se e o humor agressivo caracteriza a atuação de Arruda, assim como a de Nelson Leirner, em Márcia X a ironia revela interdições correntes no campo icônico. Outros artistas também trabalham essas interdições em campos específicos como o do homoerotismo trabalhado por Alair Gomes, Hudnilson jr. e Caetano Dias.
Identidade
Nas gerações recentes a problemática da identidade, ou melhor, de sua crise, tornou-se mais aguda. Pode ser observada em vários artistas que dela tratam por meio da fragmentação da imagem corporal fragmentada. Agora a fotografia não é mais um mero registro de uma ação empreendida para o público presente, mas faz parte da concepção da própria obra, já que esta só existirá plenamente no registro fotográfico, como a imagem de uma ação como qualquer fotografia. Mesmo o fato do artista delegar o clic a um terceiro não implica que não seja autor da obra.
