A SUBLIMAÇÃO DO HORROR
Por Danilo Corci
30/08/2008
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Joshua Hoffine, o mestre do Horror |
Kant em seu ensaio sobre o belo e o sublime considerava que, grosso modo, para se atingir o sublime era necessário a contemplação do belo, exemplificando com a sensação de beleza de se parar à beira de um penhasco, colocando a vida em risco, para conseguir a sublimação. De certa maneira, o trabalho do fotógrafo norte-americano de Kansas City, Joshua Hoffine, trabalha com sensação muito próxima, usando como ferramenta elementar o Horror. Não confuda com sensações baratas de terror, mas sim o Horror belo, universal, que angustia, força uma reflexão tanto estética quanto cultural.
Em sua primeira série de trabalhos autorais, "After dark, my sweet", Hoffine usa o Horror como um conto de fadas moderno, explora o medo infantil como forma de arte. O resultado é um misto de beleza e perturbação, em imagens de temas universais como o "monstro embaixo da cama" ou locais, como a dona de casa americana da década de 50 sendo atacada por monstros subterrâneos.
Sobre seu trabalho, sua maneira de encarar a fotografia, sobre planos futuros e essencialmente sobre o Horror, Joshua Hoffine conversou, via e-mail, com a revista Speculum. Confira abaixo a entrevista exclusiva.
Speculum: Seu trabalho ainda não é muito conhecido no Brasil. Você pode falar um pouco sobre sua carreira, sobre como ela começou, quando surgiu o interesse pela fotografia, se investe somente em trabalho autoral ou também faz algum outro tipo de fotografia, seja jornalística ou publicitária, e sobre quais são suas influências?
Joshua Hoffine: Comecei a fotografar logo depois de me graduar na faculdade. Meu principal interesse sempre foi fotografia de arte, mas já fiz vários outros tipos de trabalho. Trabalhei para o Hallmark Cards, que fica aqui na minha cidade natal, Kansas City. Depois disso, comecei um negócio de fotografia para documentos e casamentos. Fotografei mais de duzentos casamentos durante os quatro anos em que mantive o negócio. Atualmente, além do meu trabalho pessoal com o Horror, também fotografo para bandas e músicos.
Minhas duas maiores influências são Nick Vedros e Rich Grosko. Nick Vedros é o fotógrafo "comercial" mais famoso em Kansas City. Fui estagiário dele antes de ir pro Hallmark. Aprendi técnicas de iluminação com Nick, que é um gênio no assunto. Também tive a oportunidade de trabalhar em várias produções de fotos com Nick, que foi uma experiência única. Rich Grosko foi meu mais importante mentor. Ele foi fotojornalista e me ensinou como ganhar a vida como fotógrafo. Sempre me incentivou a seguir minhas idéias, não importa o quão grotescas elas possam ser. Sem o seu apoio, nunca seria o fotógrafo que sou hoje.
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S: De onde surgiu sua fascinação pelo horror? Fotografar o horror é mais estético do que, digamos, a felicidade?
JH: Meu trabalho se direcionou ao Horror há cinco anos, logo depois de ler um poema de Kenneth Patchen:
"Come now
my child
if we were planning
to harm you
would we be
lurking here
beside the path
in the very darkest part
of the forest?"*
Eu queria criar imagens que exalassem essa aura do poema. E, obviamente, isso tem muito mais força imagética do que fotografar algo alegre, pelo menos para mim.
S: Em seu site você cita o poder do clichê de Jung e sobre a reinvenção de arquétipos. Isso passa, obviamente, por pequenas histórias que você criou para fotografar. Como se dá a escolha do tema, da montagem, da história que você quer reinventar em suas imagens.
JH: Eu batalhei para criar imagens que tocassem medos universais. Quanto mais comum o medo, mais eu queria criar uma imagem dele. Com "After dark, my sweet", tendo a mostrar imagens com a gramática visual de uma criança, que incluem o imaginário de contos de fada. Eu acredito que os filmes de Horror são os contos de fadas modernos.
S: Seu ensaio trabalha ao extremo com o imaginário infantil. O terror infantil é mais poderoso que o adulto? Só à menção do horror infantil, os adultos ficam, então, mais horrorizados?
JH: Minhas fotografias lembram aos adultos de coisas que eles costumavam temer e ainda não esqueceram. Ao recuperar essa memória, você redescobre o medo. Há uma capacidade metafórica no gênero de Horror que pode comportar idéias complexas de uma maneira direta e formatada. O monstro representa a feiúra do mundo, como a brutalidade e a depravação. A pequena menina representa nossa inocência perdida. Ver a depravação atacando a inocência, mesmo em termos metafóricos, é algo que atinge os nervos e afeta qualquer um, não importa a idade.
S: Ao mesmo tempo que você trabalha os temas universais do Horror infantil, seu trabalho também reflete o imaginário tipicamente norte-americano, com o porão, o palhaço, a estética da dona-de-casa da década de 1950. Seria correto afirmar que os norte-americanos têm certa forma familiar de Horror aprisionada o tempo todo no imaginário coletivo do país?
JH: Essa é uma pergunta interessante. Muito dos elementos em meus sets, como os padrões dos papéis de parede e o mobiliário vêm das décadas de 1940 e 1950. Nos Estados Unidos, há um sentimento de nostalgia por esse período. Para a nossa cultura, representa um período de relativa inocência. Enquanto o Horror explora questões fundamentais e universais sobre a existência humana, também lida com as ansiedades e tabus de uma cultura em tempos específicos. No Horror contemporâneo japonês, por exemplo, há uma preocupação com fantasmas, algo mais raro no Horror americano. Isso porque a cultura japonesa é preocupada com o espírito de seus ancestrais, e a América, não. Sem dúvida, o Horror americano se ocupa das inquietações americanas.
S: É impossível ver o seu trabalho e não pensar em literatura. Você tem fortes influências literárias?
JH: Sim. Eu não fiz artes, sou diplomado em Literatura Inglesa.
S: Trabalhar com fotos perturbadoras é sempre um desafio. Qual o limite entre bom gosto e apelação?
JH: Uma das maiores funções do Horror é definir os tabus culturais. A experiência do Horror reside nessa confrontação com o que é tabu. O que é ou não bom gosto nunca é considerado.
S: Indo além, para onde caminha o trabalho de Joshua?
JH: Por enquanto, mais Horror. Agora estou começando a trabalhar a segunda parte de "After dark, my sweet". Quando terminar, tenho dois projetos, um chamado "The grand Guignol" e o outro "The culture of fear". Esses três projetos foram criados para ser vistos juntos. "After dark, my sweet" lida com os medos universais das crianças. "The grand Guignol" lidará com as preocupações adolescentes com sexo e morte. E "The culture of fear" terá os medos reais adultos, como terrorismo e holocausto nuclear, como foco.
S: No Brasil, a fotografia narrativa, como as de Sebastião Salgado, atinge um nível mítico fora do comum. Como um trabalho autoral forte como o seu pode transgredir esse status quo, de que fotografia narrativa deve ser necessariamente de cunho social?
JH: Atualmente, nos Estados Unidos, estamos vivendo a Era do Terror. Estou interessado em explorar a natureza de nossos medos e o papel que eles desempenham em nossa cultura. Meu trabalho pode ser mais repugnante do que místico, mas espero que tenha algum mérito social. Um artista é um contador de histórias; acho que tudo é um jogo. Morte é um assunto tão importante quanto vida.
* "Venha
minha criança
se estamos planejando
feri-la
Estariamos aqui
observando
ao lado do caminho
na parte mais escura
da floresta?"
Para conhecer mais sobre o trabalho de Joshua Hoffine, visite www.joshuahoffine.com