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A BIOGRAFIA DE SATÃ
Quando falamos sobre Satã, de que exatamente estamos tratando? Seríamos capazes de precisar os traços da figura que se oculta sob esse nome – e, mais ainda: seríamos capazes de relacionar as fontes das quais extraímos aqueles traços?

Emerson Fialho

O ONTEM E O HOJE DO POETA
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A ENCICLOPÉDIA DO ROCK (SEGUNDO MATTOSO)
Por Henrique Marques-Samyn
16/11/2008

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A situação de Glauco Mattoso no mundo literário brasileiro é algo sintomática: trata-se de um poeta que, indiscutivelmente, está fadado a tornar-se um clássico de nossa literatura satírica e pornográfica – aliás, sua obra foi justamente elencada, na fundamental Antologia Pornográfica de Alexei Bueno, ao lado das de Gregório de Mattos, Bocage, Laurindo Rabelo e Antônio Botto, dentre outros; não obstante, Glauco está longe de receber o devido reconhecimento de seus contemporâneos, o que sem dúvida está relacionado às tendências moralistas (e não raro hipócritas) que permanecem vivas e ativas entre nós – as mesmas que, diga-se de passagem, tentaram impedir a comercialização da mencionada antologia de Alexei Bueno em nome dos “bons costumes”. Desse modo, a mesma suposta “decência” que condenou à clandestinidade obras de inquestionável valor literário vigora ainda nos tempos atuais; se nem tudo está perdido, isso se deve à tenaz resistência de uns e outros.

No caso da poesia de Glauco Mattoso, um valioso trabalho vem sendo realizado pela Dix editorial, divisão da editora Annablume que, através da “série Mattosiana”, vem trazendo à luz obras esgotadas, raras e inéditas da produção de Glauco Mattoso, organizadas segundo critérios temáticos. A coleção, que já conta com três volumes – “Faca cega”, “A aranha punk” e “As mil e uma línguas” –,  recentemente ganhou mais um título, “A letra da lei”, que inclui dois ciclos de sonetos elaborados com o característico rigor formal mattosiano. Aqui o que encontramos não é a faceta pornográfica do poeta, mas a parte de sua obra que aborda temas considerados, em geral, pouco afeitos a um tratamento poético, em que Glauco se revela um dos melhores produtos da marginália poética setentista.

Na primeira parte do livro, que leva por título “A lei de Murphy segundo Mattoso”, o poeta visita e reinterpreta a conhecida lei em poemas que vão do humor mais ingênuo ao mais sarcástico, sendo o último tipo aquele em que a áspera pena de Glauco penetra com mais força – sobretudo quando o poeta reinterpreta a lei a partir de seu (cego) ponto de vista, como no “Soneto para cada coisa fora do lugar”:

Da lei de Murphy o cego é bom refém:
é fácil contra o cara conspirar
se está sozinho em casa, sem ninguém
que enxergue ali por perto p’ra ajudar...

Depende ele do tato. As coisas têm,
contudo, que ficar no seu lugar,
na mesma posição, senão dá azar:
pensando ser tostão, cata o vintém...

Não é que a faxineira o sacaneia,
mas ele próprio esquece onde está a meia,
a pílula, o vermífugo, o veneno...

Do avesso ou com um pé de cada cor,
a meia lhe dá trote. Mas se for
veneno por remédio, o azar é pleno!

Contudo, é na segunda parte do livro que, a meu ver, a colossal empreitada sonetística de Glauco Mattoso atinge um de seus ápices: ali encontramos “A história o rock segundo Mattoso”, valiosa coletânea de mais de cem sonetos que acaba constituindo uma espécie de enciclopédia crítica e poética sobre o rock, com verbetes-sonetos que abordam desde Elvis, os Beatles e os Rolling Stones até o Cure, os Smiths e Led Zeppelin, passando por temas como os punks, “discoteca e cacofonia eletrônica” e os rappers. Glauco, como sempre, não se furta a apresentar sua opinião com toda a franqueza: desbanca Pink Floyd, exalta Lou Reed, reavalia Creedence Clearwater Revival. Apenas como aperitivo, seguem três sonetos da “enciclopédia do rock” mattosiana.

SONETO PARA O GRUPO QUEEN

Queria o Freddy Mercury ser tido
e havido, no cenário, como diva.
A banda foi possante e criativa:
do rockabilly à “disco”, é um som sortido.

Mas foi pela doença, enfim, vencido,
e, como é deles próprios a assertiva,
festeja o campeão sua festiva
vitória, e o perdedor será esquecido.

Pois é: “No time for losers!” Resta o clipe,
perfeito, magistral, que, sobre a bela
“Metrópolis”, da rádio forma a equipe...

No tempo em que ele é vivo, quando aquela
canção comece, quem não participe
do coro não há... Agora, só na tela...


SONETO PARA O GRUPO DO DAVID BOWIE

Depois de se igualar ao roquenrol
rasgado dos Estones e gravar
o disco vanguardista mais vulgar
da década, Aladim mordeu o anzol.

A lâmpada se acende, então, em prol
do punk e, em vez de cósmico e estelar,
formou a Tin Machine a fim de estar
bem vivo e não num frasco de formol.

A banda não consegue o mesmo efeito
da fase setentista, mas, inquieta
e fértil, produz obra de respeito.

A faixa “Under the God” é uma direta
aos nazis e skinheads, e ataca ao jeito
bombástico e inspirado do poeta.


SONETO PARA O GRUPO RAMONES

Ainda mais que os Pistols, têm papel
vital no movimento que resgata
no rock a dimensão correta e exata:
o punk, ao rockabilly o mais fiel.

Na banda foi o Joey o menestrel,
o líder, o vocal: a Morte ingrata,
que hospeda os Johns e encurta-lhes a data,
também o quis mais cedo em seu hotel.

Ficamos nós aqui, a ver navios,
sem quem o substitua, pois Ramone,
de fato, existem muitos, mas são frios...

Seu rock era “cretino”, mas um clone
da banda não surgiu: estão vazios
os palcos, se não há quem o destrone...



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