CINEMA: SANGUE NOS LÁBIOS - O CINEMA LÉSBICO-VAMPÍRICO DOS ANOS 70
Por Carlos Thomaz Albornoz
11/10/2008
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Carmilla - A Vampira de Karnstein |
Quando Fome de Viver estreou nos cinemas, em 1983, houve uma comoção geral entre os críticos e o povo fashion. O Messias havia chegado. Inspirado em um obscuro livro de Withley Strieber (autor mais conhecido por seus livros sobre abduções alienígenas), o filme relata os amores de Mirian Blacklock (Catherine Deneuve), vampira de ascendência egípcia que tenta manter vivo seu amado (David Bowie) e engata um romance com a doutora que vai tratá-lo (Susan Sarandon). Trata-se de uma das raras vezes que um filme é melhor que o livro: foram filtradas as coisas bacanas (os climas eróticos, sofisticação – realçada pelas ultra classudas Deneuve e Sarandon) e deixados de lado os "papos cabeça" e teorias malucas do autor (que mistura alienígenas com vampiros, e fala que os humanos são "gado para os vampiros").
Havia a estréia de Tony Scott, irmão mais esperto de Ridley, em um tema "novo" (que logo foi apelidado de lesbian chic). Não dava para prever que o "estilo" de Tony estaria datado logo logo (aquele visual clipístico, assim como as roupas e os cortes de cabelo, estariam ligados aos anos oitenta assim como as calças boca de sino são símbolos vivos dos anos 70), e que o tema não era tão novidade assim, tinha sido inventado mais de um século atrás... e que havia sido objeto de um ciclo de filmes europeus, de grande sucesso, pouco mais de uma década antes.
Vampiras amantes em prosa e verso
Há duas fontes literárias básicas para a vampira lésbica: uma é a lenda da Condessa Bathory, que se banharia em sangue para manter a eterna juventude. A outra é a novela Carmilla, do irlandês Sheridan Le Fanu, escrito em 1871.
Erzsébet Báthory, Condessa Nádasdy, é uma personagem histórica. Ela morou entre a Eslováquia e a Romênia, tendo sido uma notória assassina serial. Segundo a lenda, tomaria banho no sangue de jovens virgens para preservar a eterna juventude. Há historiadores que hoje acreditam que estas histórias foram inventadas ou fantasiadas, afinal, os registros históricos, por mais que lhe acusem de vários crimes, são inconclusivos. Entretanto, a máxima de O homem que matou o fascínora ("entre a verdade e a lenda, publique-se a lenda") acabou prevalecendo, tornando-a protagonista de vários livros e filmes de horror, e fazendo-a servir de inspiração para várias personagens.
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Já Carmilla, de 1871, retoma a balada gótica Christabel (1797). Mas ao contrário deste poema de Samuel Taylor Coleridge, que trata dum tema semelhante (sedução de uma adolescente por uma vampira) de uma maneira um tanto quanto metafórica demais, aqui o autor parte direto para os "finalmentes", descrevendo de forma inédita a fascinação que a personagem central, Carmilla Karnstein, causa aos homens e às mulheres de uma família. Sem rodeios, descreve longos beijos apaixonados e fascinações mil. O autor, o irlandês Sheridan Le Fanu, exerceria uma grande influência sobre o legendário Drácula, de Bram Stoker, algo que pode ser comprovado em O Convidado de Drácula, um esboço do início do romance preservado e publicado postumamente.
Da página à tela
A primeira vampira lésbica do cinema apareceu no mais improvável dos locais: nos Estados Unidos dos anos 30, em meio ao violentíssimo e medieval Código Hayes de auto-censura. A Filha de Drácula, dirigido pelo alemão Karl Freund, seqüência informal para o clássico com Béla Lugosi, mostra a andrógina Gloria Holden seduzindo e hipnotizando homens e mulheres que passam pela sua frente. Claro, com o dito código de censura, tudo precisou ser feito de maneira implícita, com mais sugestões que cenas homossexuais propriamente ditas.
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Já Vampyr, de Carl Theodor Dreyer, se diz baseado em Carmilla (na verdade pelo livro de contos In a Glass Darkly, que contém tal obra), mas não há nada lá que suporte essa suposição. Logo, o primeiro filme "oficialmente" inspirado pela obra de Le Fanu acabou sendo Rosas de Sangue, de Roger Vadim. Não se trata de uma filmagem literal do conto, e sim uma espécie de continuação/atualização, com uma descendente de Carmilla (a lindíssima Anette Vadim) invocando o espírito da antepassada para roubar o noivo da prima (Elsa Martinelli). O lesbianismo fica mais ou menos em segundo plano (menos na seqüência em que ela tira uma gota de sangue dos lábios de uma serva), assim como o vampirismo, até pelo diretor ter embolado um pouco a história para deixá-la mais onírica e viajante (algo em que os cineastas europeus ligados ao gênero fantástico são insuperáveis). Mas trata-se de um dos grandes filmes sobre o tema da época, vindo de um país sem nenhuma tradição no gênero.
Ao mesmo tempo que Vadim filmava Rosas de Sangue na França, na vizinha Itália acontecia a "Era Dourada" do horor. O início informal do ciclo foi com Os Vampiros (1956), da dupla formada por Riccardo Fredda e Mario Bava, primeiro filme italiano com temática de horror desde o distante Maciste no Inferno, de 1927. O auge desta grande fase foi A Máscara do Demônio (1959), do já citado Bava, e ela se encerra no meio dos anos 60, com Um Anjo para Satã. As características comuns destes filmes são a fotografia em preto e branco (que entrou em moda para o gênero com o já citado A Máscara...), visuais meio termo entre o expressionismo alemão e as produção britânicas da Hammer, (pretensa) inspiração literária e temática pesada, bem mais franca que as ingênuas produções que estavam vindo do outro lado do Atlântico. Abordavam-se temas como vampirismo (o excepcional O Vampiro e a Bailarina, de Renato Polselli), necrofilia (O Terrível dr. Hitchcock, de Riccardo Fredda), lesbianismo (o genial Castle of Blood, de Antonio Margheritti) e afins, mas ninguém se tocou de misturar vampiras com lésbicas, ao menos não abertamente (há uma personagem em Playgirls and the Vampire, de Renato Polselli, que pretensamente é uma predadora que atacava homens e mulheres, mas no filme ela só ataca pescoços masculinos).
É claro que, num ciclo com essas características, acabaria se filmando Carmilla de novo (assim como A Máscara do Demônio, que supostamente é inspirado por Viy, de Gogol, e o já citado Castle of Blood cita um certo conto Dance Macabre, de Edgar Allan Poe). La Cripta dell'incubo, rodado na Espanha em 1962 (também conhecido como Crypt of Terror e The Curse of the Karnstein), de Camilo Mastrocinque (rebatizado Thomas Morgan nas cópias distribuídas na América), até utiliza mais elementos do romance de Sheridan Le Fanu que haviam sido aproveitados até então. Mas quando se repara que o protagonista da história é um pretenso biógrafo, chamado pelo patriarca da família (o sempre imponente Christopher Lee) para investigar uma pretensa maldição na família, e que a personagem equivalente a Carmilla na romance só vai dar as caras depois de 70 minutos de produção, nota-se que algo não está lá tão certo. Mais uma vez, o destaque do filme são as ultra elaboradas cenas de pesadelo, absolutamente alucinógenas e agressivas.
Foi preciso a Hammer entrar em decadência para que Carmilla fosse filmado a sério. Não que o nível dos filmes da produtora estivesse decaindo (várias de suas melhores produções, como The Devil Rides Out e Epidemia de Zumbis, datam da segunda metade dos anos 60), mas a empresa estava sendo batida em ser próprio jogo pelas companhias independentes americanas. Se, no final dos anos 50, a Hammer era sinônimo de filmes sangrentos, com o advento dos anos 60 a primazia dos banhos de sangue mudou de lado do Atlântico, com o advento de Blood Feast, de Herschell Gordon Lewis, e A Noite dos Mortos Vivos, de Romero, que deixaram as produções hammerísticas mais inocentes e inofensivas na comparação.
Carmilla - A Vampira de Karnstein (1970), de Roy Ward Baker, foi uma tentativa de retomar a hegemonia da produtora. Escrito por Tudor Gates, é uma adaptação bastante fiel do clássico livro de Sheridan Le Fanu. Aqui pelo menos, Carmilla Karnstein é uma predadora que seduz homens e mulheres (principalmente mulheres nesse filme específico) e utiliza-se de acrônimos para atacar em vilas vizinhas (Mircalla, Marcilla). Vários personagens descritos no conto aparecem, também. Em resumo, ao invés de ser simplesmente "inspirada" pelo livro, aqui segue-se a história do conto, de maneira mais ou menos fiel (até uma minissérie da BBC filmar o livro palavra por palavra, já no final dos anos 80, essa continuaria sendo a mais autêntica adaptação desta história).
Alguns preciosistas chatos reclamariam que Ingrid Pitt é um pouco velha para viver uma menina inocente, mas ela convence no papel, seja pela sua beleza, seja pela sua bem dosada mistura de candura e ferocidade. O erro de casting do filme é colocar Peter Cushing como pai de uma das vítimas, numa posição em que lhe explicam como deve se matar um vampiro... ora, o eterno Van Helsing do cinema deveria saber isso muito bem...
O sucesso de Carmilla - A Vampira de Karnstein acabou resultando em duas continuações, ambas de 1971, escritas pelo mesmo Tudor Gates. Luxúria de Vampiros, assinado por Michael Carreras, conta a mesma história, só que ambientada num colégio feminino. Ou seja, o clima de sacanagem permeia toda a história, com abundante nudez de ninfetinhas na flor da idade. Aqui foi revelada a legendária sueca Yutte Stensgaard, que logo largou o cinema para aderir a uma seita cristã fundamentalista e renegar seu trabalho como atriz. O jovem Ralph Bates substitui John Forbes Robinson como vampirão mor.
Já Twins of Evil, de John Hough, conta a história de duas filhas de um caçador de bruxas, uma boazinha, outra má, enfeitiçadas pelos Karnstein. A história já força um pouco a barra, e parece querer emular O Caçador de Bruxas, mas ainda há muitos temas interessantes, a começar pela alucinada caracterização de Peter Cushing como inquisidor. E, claro, a visão das gêmeas holandesas Mary e Madelaine Collinson, vindas direto da capa da Playboy, alegra os olhos.
Em meio a esse ciclo, o cineasta catalão Jess Franco começa a aprontar das suas. Já havia filmado Drácula, na versão mais fiel ao livro até hoje, com Christopher Lee e Klaus Kinski. Em Vampyros Lesbos (lançado em 1971) há uma continuação da história, com a deslumbrante Soledad Miranda vivendo uma certa condessa Nadine Carody. Tudo bem, não fosse várias versões do filme a tratarem por Lucy Westenra (ou Lucy Harker), o mesmo papel que ela viveu no já citado Drácula. Nessa variante, a advogada Linda Westinghouse é atraída para o círculo de relações da já citada Lucy/ Nadine, esta sempre sedenta por pescoços femininos. Tudo isso filmado de maneira delirante por Franco, com uma belíssima trilha psicodélica.
Franco ainda teria fôlego para, bem à sua maneira, retomar o tema de maneira mais direta em Female Vampire / La Comtesse Noir (1973). Sem poder contar com Soledad, morta num acidente de carro em 1970, ele escalou a açoriana Lina Romay no papel da sedutora Condessa Irina. De novo, por mais que em sempre isso fique claro à primeira vista, há pistas o suficiente para justificar a hipótese de se tratar da mesma Lucy/Nadine dos filmes anteriores. As limitações de Romay como atriz (e o bom senso de Franco) acabaram por deixar sua personagem muda por grande parte do filme, dando destaque à sua expressão corporal e expressividade facial.
Já que os Karnstein fizeram sucesso, nada como a Hammer investir no "outro" mito que juntava vampiras e lesbianismo. Condessa Drácula, de 1970, dirigido pelo tcheco Peter Sasdy, investe na lenda da Condessa Bathory, com conhecimento de causa. Ela é vivida pela mesma polonesa Ingrid Pitt que havia sido Carmilla alguns meses antes em Carmilla - A Vampira de Karnstein, uma escolha acertada para o papel, que convence tanto em sua encarnação "jovenzinha" quanto envelhecida. Aqui filma-se a lenda direto, ou seja, não há nem tentativa de ir atrás da personagem histórica, apenas contar as aventuras da nobre envelhecida que, com a ajuda de seu amante, matava jovens virgens para se banhar em seu sangue e, com isso, ser jovem para sempre (e reaparecer triunfalmente, dando a entender que era sua própria filha). Com mais ou menos classe, é o mesmo ponto de vista tanto de Contos Imorais, de Walerian Borowczyc, e de Cerimônia Sangrenta / A Força do Diabo, de Jordi Grau.
O francês Jean Rollin nem poderia ter sido acusado de "pegar o trem andando" sobre o tema das vampiras lésbicas, pois desde sua estréia em longa metragens (em Le Viol du Vampire, de 1967, que teve a "honra" de ter um tumulto em sua pré-estréia, provocado por uma parte do público que se irritou com a ausência de lógica e sentido do mesmo) ele tratou incessantemente do tema. Já em La Vampire Nue, de 1968, ele impôs seu tema-padrão: duas heroínas, uma loira e uma ruiva, fugindo de uma seita de sugadores de sangue. Haveria um esquema semelhante, sem lá muitas variações, em Frisson des Vampires (1970), Requiem pour une Vampire (1971), provavelmente sua obra-prima, Les Demoniaques (1973), que inclui uma turma de piratas estupradores na jogada, Lèvres de Sang (1975), o filme de sexo explícito Phantasmes Sexualles (1975) (único XXX que assina com seu próprio nome, não com seu heteronômio Michel Gentil), Fascination (1979)... mais Les Deux Orphelines Vampires (1997) e o recentíssimo La Fiancé de Dracula, de 2002.
Adepto da escola Jess Franco de cinema, Rollin sempre mergulhou fundo em suas obcessões, rodando filmes de sexo explícito hardcore sob pseudônimo (Michel Gentil) para pagar as contas e financiar sua obra, digamos, mais autoral (por sinal, por uma questão de custos, normalmente seu elenco é composto basicamente por atores do gênero, começando por sua musa, Brigitte Lahaie). De outra maneira, não arranjaria produtores para suas produções mais pessoais, como Rose de Fer, em que um casal fica duas horas andando no cemitério, brigando, reconcilhando-se e transando... Há várias que se repetem em seus filmes, como o caixão que é "encomendado" ao mar com um discurso de "retorno à natureza". E, claro, sua irritante (para os críticos franceses, que o odeiam) mania de se recusar a contar histórias com começo, meio e fim, concentrando-se em climas oníricos e vampirinhas de top less sacudindo seus peitinhos e declamando poesia.
Como o tema continuava fazendo sucesso, nada como prosseguir gerando produções. Vampyres (lançado em vídeo no Brasil sob o genérico título As Filhas de Drácula), é um dos melhores. Rodado em 1974, na Inglaterra, pelo diretor espanhol José Ramón Larraz e uma equipe inglesa (incluindo o cinegrafista Harry Waxman, veterano de várias produções inglesas como O Homem de Palha e The Anniversary), aproveita-se do olhar de estrangeiro do diretor para conseguir um visual diferenciado do campo inglês. Conta a história de duas mulheres, assassinadas na cama por um amante ciumento, que ficam atacando homens e mulheres no countryside britânico. Bastante influenciado por Rollin, não perde tempo em explicações, motivações e outras bobagens (elas são vampiras? são fantasmas? zumbis? quem é o velhinho que conversa com elas, como se fosse seu mentor? afinal, quais são seus poderes? se são vampiras, como andam livremente pelo sol?), concentrando-se em longas cenas de sexo, violência e beijos apaixonados entre as protagonistas (as modelos Anulka e Marianne Morris, escolhidas menos pelo seu talento dramático que por não se importarem em ficar nuas quase meio filme).
O também espanhol Jacinto Molina (Paul Naschy para os íntimos) conhecia bem a mitologia vampírica, espalhando lobisomens e vampiras com os sobrenomes Karnstein e Bathory por vários de seus filmes (como La Marca Del Hombre Lobo, La Noche del Walpurgys e El Retorno Del Walpurgys). Mas, por alguma razão (que deve passar pelo machismo espanhol), elas sempre eram heterossexuais.
Os produtores não iam deixar Carmilla descansar mesmo, logo, foi providenciada uma adaptação contemporânea da obra na Espanha. The Blood Splattered Bride, de 1972, dirigida pelo hoje artístico Vicente Aranda, é um mergulho no sexploitation, com todos os temas recorrentes: nudez, sacanagem, violência... Mais uma vez, a tal Carmilla leva meio filme para aparecer (nua numa praia), e parece mais interessada em homens que em mulheres, mas a classe de Aranda, mais interessado em idéias e construções psicológicas que em sustos mais vulgares, faz toda a diferença.
Nessa linha, o ápice deste ciclo foi sem dúvida Escravas do Desejo, do suíço Harry Kümmel, rodado um ano antes de Blood.... Apesar da personagem de Delphine Seyrig se chamar Condessa Karnstein, trata-se de uma história contemporânea, sobre um complexo jogo de sedução entre ela, sua amante (Andrea Rau) e um casalzinho americano (John Karlen, de Sombras Tenebrosas, e a canadense Danielle Ouimet) passando as férias na Alemanha. O filme tem um estupendo trabalho de direção de fotografia, com uma paleta de cores pálidas e inspirados fade to red, ou seja, a imagem vai ficando vermelha, talvez para emular o título original (Rouge aux Lèvres). Como os dentes só vão aparecer na marca de 85 minutos de projeção, vai se criando um sofisticado jogo de pistas, verdadeiras e falsas, sendo espalhadas pela tela. Sem dúvida um dos mais complexos filmes de vampiro da história (junto com o genial – e mais complexo ainda – Ganja & Hess, do americano Bill Gunn).
Cada um dos filmes e livros citados neste artigo dão uma idéia de como o mito das vampiras lésbicas nasceu e se desenvolveu até culminar em Fome de Viver. Infelizmente pouca coisa interessante foi produzida depois neste tema, o que força aos interessados irem catar nas locadoras e lojas de DVDs importados os títulos mais importantes deste ciclo. É uma busca recompensadora, cheia de surpresas agradáveis.