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EROTISMO SEM ORNAMENTOS
Em geral, os poetas que se dedicam a temas pornográficos optam por empregar todo o seu repertório virtuosístico nessas criações, como se a riqueza formal assim exibida fosse um meio de enobrecer um conteúdo tido como “inferior” ou “indigno”.

Reprodução

ACTION COMICS 01
A história "Revolution in San Monte" foi escrita por Jerry Siegel e desenhada por Joe Shuster. No Brasil, foi publicada nas revistas Almanaque Nostalgia e Origens dos Heróis número 1.

MEU NOME É ZÉ PEQUENO

27/02/2004

Apesar de achar a festa do Oscar um negócio um tanto quanto brega e chato, já separei meu pacotinho de pipoca pra assistir tudinho, do começo ao fim. Se bem que acho mais fácil o Sylvester Stallone decorar e pronunciar três frases consecutivas sem babar do que Cidade de Deus ganhar um Oscar.

Entre outras coisas, estou aqui contando os minutos porque Cidade de Deus é uma das provas (raras, bem dito) que damos ao mundo de que somos bons em alguma coisa. Aliás: é uma das (raras, de novo) vezes que podemos dizer, a nós mesmos, que somos bons em alguma coisa. Que vamos nos ver, por alguns efêmeros minutos (quem sabe, segundos) sentados jantando num banquete lado a lado com o patrão.

Outro dia, numa roda de amigos, eu disse que achava que um Oscar agora podia ser ruim para o cinema brasileiro, já que poderia fazer com que nosso renascido (ou em vias de renascer) cinema buscasse a partir de então não "o filme", mas "o Oscar", nos tornando vítimas de nosso próprio sucesso. Claro, reconheço, pura tolice. Usei a lógica torta de quem tem medo de realizar um sonho antigo, só por não saber o que vai acontecer depois que o sonho deixar de ser sonho. Fiquei com receio de, mais uma vez, nos destacarmos pelo exótico, pelo estranho, pelo freak. Por mostrar ao mundo, numa tela enorme, uma de nossas muitas faces. Uma das faces mais duras, aliás. Uma face cruel, real e incômoda. Uma face que usa bigode, é negra, dentuça e se chama Zé Pequeno. Porque Zé Pequeno é, sim, uma das caras do Brasil. Eu tenho cara de Zé Pequeno, você também. Nós temos cara, e sempre nos orgulhamos disso, de malandros, de sujeitos espertos, cheios de ginga.

Que gostamos de cachaça, samba, mulatas de bunda de fora, e de levar vantagem em tudo, certo? Se o Brasil tivesse carteira de identidade, poderia, tranqüilamente, colocar no lugar da foto um 3 x 4 de Zé Pequeno.

Acho, portanto, mesmo ainda não acreditando que isso vá acontecer por conta de tanta coisa que não vale a pena dizer aqui, que Cidade de Deus deveria ganhar pelo menos um Oscar. Porque é bom, porque é profissional, porque foi feito com talento, dedicação, competência, cuidado, paixão. Mas, principalmente, pelo bem da nossa imagem lá fora. Quem sabe, tendo um filme que expõe nossas vísceras ao mundo sendo badalado, comentado e literalmente vendido, se pudesse fazer alguma coisa para mudar essa imagem de uma vez por todas.

E lembrei de um artigo recente que li, do próprio Fernando Meirelles, onde ele diz que há cerca de um ano declarou à imprensa de todo o mundo que os Governos Federal, Estadual do Rio de Janeiro e a prefeitura da cidade maravilhosa estavam, por conta da repercussão do filme, lançando projetos para beneficiar a verdadeira Cidade de Deus. Iam construir uma fábrica de material esportivo, um espaço Criança Esperança (com ajuda da Globo) e realizar outros projetos em benefício da comunidade. Um ano depois, nada, absolutamente nada, foi feito. E Meirelles termina o artigo com a seguinte frase: "Cada vez mais torço para que o Peter Jackson (de Senhor dos Anéis) leve mesmo aquela estatueta. Acho que sentiria vergonha se eu ganhasse. Coloque-se no meu lugar e pense na população de Cidade de Deus assistindo à transmissão. Você há de se sentir envergonhado comigo".

Se me permite, caro Meirelles, discordo. Quero mesmo é que seu filme, aliás, o nosso filme, ganhe um Oscar. Vou chorar por dentro de tanto orgulho. Porque quem tem de sentir vergonha são eles, lá em cima das torres do poder. Não você, eu ou o povo da Cidade de Deus.

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  Comentários
 Carlos 19/01/2005 - 20:21:48 
Nunca vi exibição
tão constrangedora de ufanismo. Você deveria gostar de cinema, seja ele
brasileiro ou não.

 André Gonçalves 25/05/2005 - 14:47:31 
hahahaha
e eu nem tinha visto isso...

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