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PABLO NERUDA (1904-1973)
Por Danilo Corci
08/06/2004

A América Latina é realmente um lugar raro. Com sua situação econômica debilitada, cheia de contradições, regimes autoritários e bravatas sem sentido, ainda consegue desenvolver um raro talento para literatura. De Machado de Assis a Borges, de Fuentes a Garcia Márquez. É só escolher e perceber que ninguém, absolutamente ninguém, passa incólume a estes nomes.

No costa do Pacífico da América do Sul, um nome tem um vulto impressionante. Pablo Neruda. Nascido em 12 de Julho de 1904, na pequena cidade de Parral, no Chile, Neruda talvez seja o maior poeta que o Hemisfério Sul já teve conhecimento. Cem anos após seu nascimento, suas estrofes ainda ecoam mundo a fora. Seu verdadeiro nome era Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, filho de don José del Carmen Reyes Morales,um empregado ferroviário, e de Rosa Basoalto de Reyes, uma professora. Sua mãe morreu de tuberculose pouco após seu nascimento. Em 1906, ele rumou para Temuco com sua família. Ainda criança conheceu a poeta Gabriela Mistral, que o incentivou a escrever.

Aos treze anos escrevia artigos para o jornal La Mañana. Neste jornal também publicou seus primeiros poemas. Em 1920 passou a ser colaborador do jornal literário Selva Austral, já com o nome de Pablo Neruda, cuja alcunha emprestou do poeta tchecoeslovaco Jan Neruda (1834-1891). Enquanto estudava Francês e pedagogia na Universidade do Chile, Neruda publicou, em 1924, "Veinte Poemas de Amor Y Una Cancion Desesperada", talvez um de seus mais conhecidos trabalhos.

Entre 1927 e 1935, Neruda se tornou membro consultor de assuntos estrangeiros do governo chileno. Isto o levou para a Birmânia, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri. A influência dessas viagens criaram poemas surrealistas esotéricos, que marcou a compilação "Residencia en la Tierra", de 1933.

Sua vida amorosa foi tumultuada nesse período. Largou Josie Bliss e em 1930 casou-se com Maria Antonieta Hagennar, uma holandesa que não falava espanhol. O divórcio veio em 1936. Nesse período trabalhou com Nancy Cunard, no jornal Los Poetas del Mundo Defiende al Pueblo Español. Neruda acabou por conhecer a pintora argentina Delia del Carril, com quem passou a viver. Ela foi a primeira a incentivá-lo a investir na política com mais ardor. Seu envolvimento amoroso com ela durou até 1955. Cinco anos depois, se casou com Matilde Urrutia, uma cantora chilena, e maior inspiração para o seu "Cem Sonetos de Amor".

Seu envolvimento político aumentou com a Guerra Civil Espanhola e o assassinato de García Lorca, seu amigo. Neruda se aproximou muito do movimento republicano, primeiro na Espanha e depois na França, onde começou sua compilação "España en El Corazón". Em 1937, retornou ao Chile e sua poesia rumou para os assuntos sociais. "España en El Corazón" se tornou um marco em sua carreira.

Em 1939, Neruda foi indicado como cônsul para refugiados da Espanha. Mais tarde, cônsul geral no México, onde reescreveu "Canto General de Chile", um arrepiante épico sobre a América do Sul, sua gente, sua história e seu destino. Publicado primeiramente na terra dos mariachis, o poema chegou ao underground chileno no mesmo ano. Com aproximadamente 250 poemas juntos em quinze ciclos literários, a obra é um marco no trabalho de Neruda. Inclusive, o colocou em situação desconfortável diante do governo do Chile. Em 1942, visitou Cuba e escreveu "Canto de Amor Para Stalingrado", onde saudava o Exército Vermelho e sua luta na Segunda Grande Guerra. Nesse mesmo ano, sua filha, Malva Marina, morreu na Europa.

Neruda retornou ao Chile em 1943. Em 45 foi eleito senador e se juntou ao Partido Comunista do Chile. Seus protestos contra a repressão do presidente González Videla aos mineiros em greve o levaram ao submundo. Por dois anos se manteve escondido no Chile, de onde fugiu em 1949. Viveu na Europa, em especial na União Soviética e nos países do Leste Europeu até 1952, quanto retornou a Santiago. Em 1953 ganhou o Prêmio Stalin. Neruda se manteve fiel as convicções comunistas mesmo quando intelectuais abandonavam Moscou. Suas obras refletiam suas convicções políticas. "Las Uvas y el Viento", de 1954, eram seus diários de exílio. Em "Odas Elementales", sua análise e descrição do mundo. Em 1956, descobriu as atrocidades de Stalin. "Extravagario" (1958) reflete suas decepções.

"Poesia é um profundo chamado interior". Era assim que Neruda via sua função. Isto explica sua produção impressionante. Em 1951, suas Obras Completas tinham 459 páginas. Reimpressa em 62 com 1925 páginas. Em 68, 3237, em dois volumes. Neruda estabeleceu como lar a Isla Negra, de onde sai para viajar para Cuba e Estados Unidos ocasionalmente. Quando Salvador Allende foi eleito presidente do Chile, o poeta foi nomeado embaixador para a França (1970-1972), período onde ainda ganhou o Prêmio Nobel de Literatura (1971). Retornou à sua pátria em 1973, onde faleceu em 23 de Setembro, por conta da leucemia. Rezam lendas que o motivo de sua morte tem muito mais a ver com o golpe militar do tirânico Augusto Pinochet do que com as mazelas do corpo. Em se tratando de Neruda, a imaginação sempre é mais forte do que a realidade.



Colaborou Amanda França

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