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HEDWIG - ROCK, AMOR E TRAIÇÃO
Por Danilo Corci
12/12/2003
Ufa, existem coisas desafiadoras no cinema independente norte-americano. Um grande roteiro, uma execução simples e perfeita, com atuações brilhantes - atores se entregando no papel - tudo sincronizado, fluindo com mestria. É um caso atípico mas que ao acontecer torna-se recompensadora a aposta no cinema como a arte do século 20.
O caso em questão é Hedwig - Rock, Amor e Traição (Hedwig and the Angry Inch, 2000), do diretor, roteirista e também ator principal John Cameron Mitchell. Na fita, ele vive Hedwig, um transexual alemão, que deixou a antiga Alemanha Oriental após fazer a cirurgia de mudança de sexo e se casar com um oficial norte-americano. Porém, a operação não foi um sucesso absoluto, e lhe sobraram apenas uma polegada raivosa (o tal Angry Inch).
Nos EUA, muda-se para o Kansas. Mas nada dá certo para ele/ela. Abandonada pelo marido, Hedwig vira prostituta, babá e finalmente cantora. Nesta situação que ela encontra o jovem Tommy, a qual vive uma tórrida paixão e, juntos, começam a compor músicas e almejar o sucesso.
Porém, Tommy dá um golpe e alça vôo sozinho, conquistando as paradas de sucesso. Hedwig, abandonada e furiosa, monta sua banda, The Angry Inch, e parte em uma turnê patética atrás do novo astro. É neste ponto que o filme começa - toda a história acima é narrada em flashback durante a trama. Quase como Dr. Jackyll e Mr. Hyde, Hedwig é um misto de heroína e demônio, ao escravizar sua banda. É uma insanidade genial, capaz de criar canções fantásticas sobre sua vida e ao mesmo tempo agir como uma verdadeira desalmada.
O final apoteótico e redentor que a película reserva é simplesmente uma das mais geniais sacadas do cinema contemporâneo. As transformações que Hedwig sofre durante o percurso irão lhe cobrar um preço caríssimo.
A força do filme, que além de drama e essencialmente musical, está nas brilhantes composições das canções - superior, inclusive, a muito do que se ouve atualmente. Misto de fúria e compaixão, Hedwig - Rock, Amor e Traição apresenta um sincero relato da dualidade humana em todos os sentidos, sexual, comportamental, de caráter. Tudo isso feito com uma narrativa leve e pontual. Coisa que muitos dos considerados mestres do cinema já esqueceram faz tempo.
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