JORGE DE LIMA (1895 - 1953)
Por Renato Roschel
28/08/2003
Poeta parnasianista e namorado de poucos beijos do modernismo, Jorge Mateus de Lima nasceu em União dos Palmares (AL), no dia 23 de abril de 1895 e morreu no Rio de Janeiro em 15 de novembro de 1953. Fez seus primeiros poemas com apenas 8 anos de idade. Publicou pela primeira vez em 1907, nos jornais alagoanos.
Estudou humanidades em Maceió e Medicina em Salvador e no Rio de Janeiro, onde se doutorou defendendo tese sobre Higiene Urbanística. Trabalhou como médico no Rio de Janeiro e Maceió.
Em 1914, publicou 14 Alexandrinos, seu primeiro livro de poemas.
Em 1925, casou-se com Adila Alves de Lima. Nesse mesmo ano, Lima publicou os seus primeiros poemas modernistas. No ano seguinte, foi eleito deputado federal pelo Partido Republicano de Alagoas.
Em 1927, publicou Poemas e o romance Salomão e as Mulheres. Dois anos depois, publicou Novos Poemas, com textos influenciados pelo regionalismo. Esse livro inclui o poema Essa Negra Fulô, o qual narra a história de uma negra que toma conta de sua Sinhá e que aos poucos, meio sem querer, vai tomando conta do coração de seu Sinhô. Por causa disso ela é vítima do cruel e despótico ciúme da Sinhá, que a acusa de roubo e a faz passar pelos mais terríveis suplícios e torturas.
Em 1930, após sofrer um atentado, do qual escapou milagrosamente, Jorge de Lima vai para o Rio onde exerceu a medicina, dedicando especialmente à população carente da cidade. Durante a gripe espanhola Lima sofreu esgotamento nervoso.
Em 1932, publicou Poemas Escolhidos; em 1934, publicou O Anjo, experimento de romance surrealista; e, em 1935, converteu-se ao catolicismo. Nesse mesmo ano, publicou junto com Murilo Mendes o livro de poemas Tempo e Eternidade, publicou o romance Calunga e foi homenageado no Carnaval carioca com um samba-enredo da Mangueira, porém, quem ganhou o título foi a Portela.
No ano de 1936, Jorge de Lima tentou ingressar na Academia Brasileira de Letras, mas é rejeitado.
Em 1938, publicou mais poemas católicos em A Túnica Inconsútil. Nessa época, Jorge de Lima circulava nos meios intelectuais com o chamado "grupo dos alagoanos": Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Graciliano Ramos e José Lins do Rego.
Em 1939, publicou o romance A Mulher Obscura.
Em 1940, foi trabalhar como professor de Literatura da Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil. Três anos mais tarde, publicou o álbum de fotomontagens A Pintura em Pânico. Nesse ano ele escreveu Mira Celi.
Em 1944, ele tentou novamente ingressar na ABL, mas foi rejeitado pela segunda vez.
No ano seguinte, Lima filiou-se à UDN (União Democrática Nacional), e, em 1947, elegeu-se vereador no Rio (Distrito Federal). Nesse mesmo ano ele publicou Poemas Negros. Em 1948 foi eleito presidente da Câmara dos Vereadores.
Em 1949, publicou o Livro de Sonetos e, em 1950, foi publicada a sua Obra Poética, organizada por Otto Maria Carpeaux. Nesse mesmo ano, Jorge de Lima publicou o romance Guerra Dentro do Beco.
Em 1952, publicou Invenção de Orfeu —para muitos sua melhor obra—, com ilustrações de Fayga Ostrower e estudos críticos de João Gaspar Simões e Murilo Mendes.
Invenção de Orfeu representa um ponto de chegada e culminância. Poema longo em dez cantos fragmentários ou, como disse Murilo Mendes, poema-rio, que, segundo Mario Faustino, se faz a partir da urgência de criar "um mundo de antes mesmo da criação da palavra" —mundo, aliás, que sempre obcecou Jorge de Lima.
Em 1953, último ano de sua vida, gravou seus poemas para a Biblioteca do Congresso dos EUA.
Entre suas obras mais importantes estão: XIV Alexandrinos (1914), Calunga (1935), A Túnica Inconsútil (1938), A Invenção de Orfeu (1952).
Em 1983, Edu Lobo e Chico Buarque fizeram o musical O Grande Circo Místico sob inspiração do poema homônimo de Jorge de Lima. O musical também foi transformado num disco coletivo, lançado pela Som Livre. O elenco incluía Chico e Edu, Gal Costa, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Tim Maia, Simone, Zizi Possi e Jane Duboc.
O Circo Místico conta a saga da família austríaca proprietária do Grande Circo Knie, que perambulava pelo mundo nas primeiras décadas do século.
A história está nos 47 versos de Jorge de Lima —publicados no livro A Túnica Inconsútil, em 1938.
Em uma entrevista concedida à Folha de S.Paulo, em 1995, Raduan Nassar disse que o título de seu livro Copo de Cólera fazia uma citação à poesia de Jorge de Lima. Segundo Raduan, o título deve ter “alguma ligação, uma associação” feita de maneira “inconsciente”, pois ele afirma que ficou impressionado com os seguintes versos da obra de Jorge de Lima:
“existe sempre um copo de mar
para um homem navegar”
E autor de Copo de Cólera completa o comentário aos versos e à obra do poeta afirmando: “É lindo. Você vê que dois versinhos simples. Como eu li Jorge de Lima...”
Fontes:
História Concisa da Literatura Brasileira; Editora Cultrix; autor, Alfredo Bosi, 1972.
Dicionário Literário Brasileiro Ilustrado; Editora Saraiva; autor, Raimundo Menezes; 1969.
Jornal Folha de S.Paulo