É LEGAL LER NICK HORNBY
Por Danilo Corci
24/06/2003
É isto. Ícone da literatura pop, dos textos surgidos na Inglaterra na década de 90, o escritor Nick Hornby tem seu novo livro lançado no Brasil pela editora Rocco. Trata-se de "Como Ser Legal" e desta vez, nada de um trintão em crise mas sim a voz de uma mulher em destaque. Uma mudança radical para quem sempre foi identificado como mentor de muitos marmanjos.
Repleto de ironia e de humor, Hornby mostra que não perdeu o jeito. Aliás, que vem melhorando cada vez mais. Sim, porque suas personagens femininas ganham volume e jeitos mais interessantes. No romance, Katie Carr, médica, tem dois filhos e um marido idiota. Angustiada, ela quer dar um novo rumo em sua vida. Mas como qualquer pessoa normal, isto não é tão fácil. Dúvidas, medos, a dificuldade de largar da rotina, tudo isto conspira contra a heroína do livro.
Heroína, sim. Por que? Por conta das indagações intrínsicas da obra: o que significa ser uma pessoa legal, como podemos ser bons? Ou seja, o sentido da bondade. Katie sempre se sentiu uma mulher legal. É médica, ajuda os outros. Mas na vida pessoal, isto não se reflete. Eis o dualismo.
Em sua casa nada de bondade existe. Ela não agüentava mais chegar em casa todos os dias e encontrar o marido: o mal-humorado David, que escrevia a coluna O homem mais irritado de Holloway no jornal local. O pior é que esse sentimento estava se estendendo aos filhos, Molly e Tom. A rotina das dez horas de trabalho, as contas a pagar, a falta de convicção nas suas atitudes e, para piorar, o amante sem graça, o primeiro em 24 anos de casamento, passam a se tornar cada vez mais incômodos. Eis, então, que pede o divórcio de um estacionamento, pelo celular.
Mas quando este suposto clímax chega, as coisas mudam de figura. O marido muda de postura. Com sensações de orgulho ferido e vingança, ele resolve tratar seu crônico problema de coluna com o curandeiro milagroso D. J. BoasNovas. Imediatamente deixa de ser rabugento e amargo. Influenciado pelo guru, torna-se politicamente correto, defensor das minorias e dos menos favorecidos. Desapega-se dos valores materiais, abandona o emprego, abriga indigentes na sua casa e na dos vizinhos, doa bens e brinquedos, recolhe donativos para crianças pobres e convida BoasNovas para morar com sua família.
Os filhos ficam confusos e divididos. Tom, mais parecido com a mãe, não concorda com as atitudes do pai. Molly simpatiza com as idéias altruístas. Ao saber que Katie resolveu manter um caso amoroso, ele vai além e se torna o protótipo do marido ideal. Mas a médica ainda está confusa. Questiona o realismo de David e os elementos deste perfil de pessoa legal. Ou seja, será que ser legal é mesmo legal?