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ITALO CALVINO (1923 - 1985)
Por Renato Roschel
25/06/2004

"Ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos" Italo Calvino

O escritor italiano Italo Calvino não nasceu na Itália, mas em Santiago de Las Vegas, Cuba, a 15 de outubro 1923, onde seus pais estavam de passagem.

Passou sua infância em San Remo. Em 1941, matriculou-se na faculdade de agronomia de Turim, mas o desenrolar da II Guerra Mundial acabou levando Calvino a participar da resistência ao fascismo.

Em 1947, lançou sua primeira obra, Il Sentiero dei Nidi di Ragno, uma novela neo-realista inspirada em sua participação na Resistência Italiana e na luta dos partigiani. Na mesma linha é seu segundo livro, Ultimo Viene il Corvo.

São livros nos quais o pensamento da Resistência Italiana aparece em quase todas as páginas, com a narração de histórias que Calvino colheu durante sua participação nos conflitos. A forte influência do neo-realismo nos primeiros textos de Calvino se deve à predominância do movimento na Itália e à grande presença de autores como Cesare Pavese e Elio Vittotini, sem dúvida alguma os escritores mais significativos dos anos que vão de 1930 a 1950 (esta última data do suicídio de Pavese).

Ao final da II Guerra, Calvino foi morar em Turim, onde se doutorou em Letras com uma tese sobre Joseph Conrad. Em seguida, passou a trabalhar para o jornal comunista L'Unità, depois, trabalhou como editor da Eunadi.

É só a partir dos anos 50 que Calvino passa a escrever as obras que o tornariam famoso internacionalmente. Seus primeiros grandes sucessos são Visconde Partido ao Meio, Cavaleiro Inexistente e O Barão nas Árvores.

Estes livros podem ser compreendidos dentro de uma tendência que podemos chamar de reformística e fantástico-iluminista. Em Visconde Partido ao Meio, conta-se a história de um homem que acaba dividindo-se em dois: um totalmente bom, outro totalmente mau; em Cavaleiro Inexistente, narra-se a história de uma cavaleiro que não existe, em seu lugar há apenas uma armadura que se diz cavaleiro; em O Barão nas Árvores, o protagonista Cosimo de Rondò, depois de se revoltar com a obrigação de tomar uma sopa de escargots, passa a viver suspenso nos ramos das árvores, "no meio do caminho entre o céu e a terra, em ótima posição de ver e julgar", segundo nos diz Luperini, no Tomo II do seu Il Novecento.

Calvino cria nestes livros, segundo o professor Carmelo Distante, "um mundo fantástico onde os personagens vivem longe da realidade e da história, exatamente para subtraí-los aos condicionamentos deformantes que estas exercem".

Carmelo Distante afirma que Calvino inventa "um mundo onde não é possível realizar os sonhos e as esperanças, não restando outro caminho à razão eà fantasia que o contemplá-lo e observá-lo do alto se estas mesmas querem tomar consciência do como é feito e do porquê é feito desse modo".

Em 1956, Calvino se desliga do Partido Comunista e publica seu primeiro trabalho de literatura infantil, Quem Ficar Zangado Primeiro Perde. Neste livro o escritor também transforma a realidade em fábula. O (bom) humor é o objeto mágico central, que substitui as soluções tradicionais dos contos de fada, como árvores ou animais encantados.

O duplo sentido do título sugere a ironia maior de Calvino, que usa a estrutura dos contos maravilhosos para entreter as crianças. Em entrevista, Calvino declarou, certa vez, que escrever um texto "é um ato que deve obedecer a certas regras ou transgredi-las deliberadamente". Para ele, o aspecto lúdico e o humor são "metodologicamente necessários, pois colocam tudo em discussão, até o que se acabou de dizer".

De 1959 a 1966 ele editou, junto a Elio Vittorini, a revista de esquerda Il Menabò di Letteratura, que produziu uma seqüência de importantes debates sobre o papel dos intelectuais frente à crise das ideologias e sobre o problema específico da profissão de escritor.

Em 1972, publica o livro Cidades Invisíveis, no qual o veneziano Marco Pólo conta ao conquistador Kublai Khan todas as viagens que já havia feito. O livro é um desdobrar de territórios e uma viagem pelo reino da linguagem. Mostra a qualidade de um trabalho extremamente depurado que forma, ao final, uma metrópole atemporal e superpovoada de sentidos.

Calvino mostra em Cidades Invisíveis um império sem fim e sem forma, um domínio que se destrói e se reconstrói. São lugares que abrem, se bifurcam e nunca são iguais. Anastirma, Diomira, Dorotéia, Isaura, Maurília, Zaíra, Zenóbia e outras tantas.

Suas praças, ruas, vielas, pessoas gostos e cheiros que não podem ser representados totalmente no papel, ou na voz de Marco Pólo, o eterno estrangeiro."Se um viajante numa noite de inverno", publicado em 1979, é um dos mais elogiados romances de Calvino. Uma obra de ficção que empreende uma reflexão sobre a linguagem do romance, rastreando e ironizando as múltiplas direções da narrativa contemporânea. Em seu livro seguinte Palomar, publicado em 1983, Calvino afirma que "tudo aquilo que os modelos procuram modelar é sempre um sistema de poder; mas, se a eficácia do sistema se mede pela sua invulnerabilidade e capacidade de durar, o modelo se torna uma espécie de fortaleza cujas muralhas espessas ocultam aquilo que está fora".

Em seu livro Seis Propostas para o Próximo Milênio, onde há na verdade apenas cinco propostas, o escritor fala da leveza, da rapidez, da exatidão, da visibilidade e da multiplicidade."O mais das vezes, minha intervenção se traduziu por uma subtração do peso; esforcei-me por retirar peso, ora às figuras humanas, ora aos corpos celestes, ora às cidades; esforcei-me sobretudo por retirar peso à estrutura da narrativa e à linguagem."

O último livro de Calvino lançado no Brasil é Um General na Biblioteca, uma reunião de contos. Calvino morreu no dia 19 de setembro de 1985, na cidade de Siena, na Itália, aos 61 anos, de hemorragia cerebral. Italo Calvino é, talvez, o maior de todos os aprendizes de Borges. É, assim como seu mestre, um artesão das ilusões, incluindo a da originalidade. Deixou um legado que está além da delicadeza que marca suas obras.

Fez uma literatura que mostra ao leitor a maneira como foi feita, que mostra a sua natureza mágica, lúdica. A obra de Calvino não esconde os truques utilizados pelo autor. É uma literatura sincera, delicada e extremamente ágil. O que a aproxima de seu criador, pois Calvino foi, apesar das muitas mudanças na carreira e nas escolhas literárias, um humanista durante toda a sua vida, mantendo sempre uma postura ética e generosa.

OBRAS TRADUZIDAS PARA O PORTUGUÊS:

Fábulas Italianas

O Cavaleiro Inexistente

O Visconde Partido ao Meio

O Barão nas Árvores

Os Nossos Antepassados

As Cosmocômicas

Amores Difíceis Cidades Invisíveis

O Castelo dos Destinos Cruzados

Marcovaldo ou As Estações na Cidade

 Se Um Cavaleiro Numa Noite de Inverno

Palomar

Sob o Sol-Jaguar

O Caminho de San Giovanni

Perde Quem Fica Zangado Primeiro

Por que Ler os Clássicos

Seis Propostas Para o Próximo Milênio - Lições Americanas Um General na Biblioteca

Fontes: The New Encyclopaedia Britannica; Editora: Encyclopaedia Bitannica, Inc.; 1993.

Folha de São Paulo

O Estado de São Paulo



Sites a respeito de Calvino: http://www.facom.ufba.br/hipertexto/calvin.html http://www.themodernword.com/calvino/index.phpl http://www.emory.edu/EDUCATION/mfp/cal.html http://www.geocities.com/Athens/Forum/7504/calvino.html

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  Comentários
 flavio theodoro da silva 02/02/2005 - 15:17:40 
Vendo as propostas de italo calvino sobre tirar o peso de tudo ele se iguala a parmenides, na sua pergunta o que é positivo a leveza ou o peso ? Isto esta retratado no livro de milan kundera . Esta opção de calvino pela leveza é fraca assim como beethoveen prefiro o peso . atlas so tinha o desejo de viver fora de tudo porque não podia viver o peso faz nos viver .Viva o peso e todas as desgraças , calamidades, caos existentes neste mundo e no outros mundos.

 Sheila da Rocha 06/03/2005 - 16:49:39 
Acredito que a leveza seja um estágio do peso , pois o que está intríseco a vida é o peso, pois a existência possui um peso seja ele leve, pesado ou em alguma escala que seja.

 GLÓRIA 24/09/2005 - 20:10:09 
O QUE LI DO CALVINO ME INSPIROU UMA BUSCA DE TODAS AS VERDADES ESCONDIDAS. É COMO ESTAR ESCALPELADO. SENTINDO A´TE A MAIS LEVE BRISA DA VIDA.

 joana da silva 13/10/2005 - 17:11:09 
muito bom

 diana moura 03/11/2005 - 20:25:48 
suas obras jamais vao ser esquecidas

 Serraria 04/11/2005 - 20:27:33 
 http://bataclafc.com.br
O cara realmente tem a manha de olhar para a atemporalidade da literatura feita em nosso tempo, mais do que um dom, essa argúcia crítica é própria de poucos homens de nosso tempo!


 nilo 05/11/2005 - 17:40:07 
Admiro Calvino e pasei a conhecê- lo melhor através do culto professor Carmelo distante

 arlete B.D. Fernandes 15/11/2005 - 23:52:56 
Para mim, Calvino é extraordinário, é um mestre da literatura.

 Paulo Mota 06/12/2005 - 12:52:18 
Engraçado: li o primeiro livro de Calvino, o Visconde partido ao meio, quando de seu lançamento no Brasil. Depois, comprei quase todos os livros aqui lançados posteriormente, mas, por razões que nem mesmo eu sei explicar, não li nenhum! Ficaram anos lá, na estante, esquecidos. Dia destes, também não sei por que, peguei O cavaleiro inexistente. Conclusão: estou lendo a obra de Calvino. Ele é muitíssimo bom.

 Jorge 24/01/2006 - 04:37:23 
Leveza, sustentabilidade...são distintos, leve é uma noção relativa, sustentável não... a chave está aí...ágil e sustentável, assim é Calvino

 Alexandre Saramelli 02/02/2006 - 15:27:27 
Em Portugal, foi lançado uma revista do Mickey, "Sir Mickey e os Cavaleiros Fantásticos", baseada na obra "O Cavaleiro Inexistente", uma homenagem muito interessante a Italo Calvino

 Marcos 08/03/2006 - 09:52:12 
Esquece-se da maravilhosa militância de Calvino!Maravilhoso crítico da literatura conteporânea a ponto de em "Se um viajante..." nos mostrar o caminho geral que a literatura assumiria a partir dali...um vidente, melhor, um marxista que baseado na realidade pôde demonstrar onde estamos inseridos...

 simone 06/05/2006 - 01:01:15 
 http://orkut
oi gente!! adorei este artigo... amo de paixao italo calvino tenho todosos livros !!vivo lendo relendo e querendo ter maisss!!bjs em todos.

 Claudia Sarro 24/11/2006 - 14:45:46 
Acabei de ler O Visconde Partido ao Meio.Ainda estou com as marcas do fio invisível que atravessou minha espinha dorsal, como a costura que uniu as duas metades do visconde, eu me sinto assim, bipartida entre a experiência de mim e a experiência de ter mergulhado nessa obra grandiosa e ter saído inteira, minhas duas metades unidas num grande vôo imaginativo.
Que presente inigualável ter passado Ítalo Calvino por nós.

 alice 10/12/2006 - 13:55:01 
Eu acabei de ler tambem o Visconde Partido ao meio mas ainda não consegui desvendar a metafora que Calvino tenta passar atraves dessa obra. Sera que alguem de vcs sabe! mas mesmo assim adorei o livro me fez pensar muito!!

 Sérgio Souza 02/02/2007 - 15:08:15 
Considero Calvino um dos maiores escritores do século passado. Seus trabalhos merecem estudos mais profundos, principalmente suas preocupações com a imaginação e com as possibilidades que a literatura apresenta para os processos imagéticos. Sou professor de Artes Visuais e tenho em Calvino elementos interessantes para a pesquisa nesse campo.

 TATY 18/05/2007 - 09:16:57 
OI..me ajudem..eu queria o resumo do livro ''Os amores dificeis'' mais nao acho..se tiverem por favor,,me ajudem!mandem meu email..bj

 Lia Benevides 27/05/2007 - 17:44:18 
o barão nas árvores é um livro surreal...inusitado,magnífico.Quando comecei a lê-lo fiquei imediatamnete intrigada,pensava que nao seria possível,mas tudo é possível,até aquele final tão poético,lindo!

 Anna Carollina 27/06/2007 - 19:25:52 
Oi... tentei ler o livro O vsiconde Partido ao meio... naum consegui entender nada,alguem pode me explicar por favor,vou ter uma prova sobre esse livro sexta feira

 Vanessa 28/07/2008 - 14:51:17 
Vou ler meu 1º livro do ítalo Calvino, O Barão nas Árvores!

 clara maria 17/02/2009 - 08:00:35 
Foi amor ódio recomendasse as cidades invisiveis


 guacira maciel 02/04/2009 - 18:15:18 
 http://www.gpoetica.blogspot.com
Acho a cabeça de Calvino, simplesmente fantástica! como sua obra...um misto de Dali , Borges, e o próprio Dom Quixote.

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