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GABRIEL JOSÉ GARCÍA MÁRQUEZ (1928 - )
Por Renato Roschel
03/03/2003

O colombiano Gabriel José García Márquez teve uma infância pobre e recheada de histórias que sua parteira, uma mulher com aguçado senso de humor, lhe contava. Todas elas tinham um elemento em comum: o vilão era sempre o ditador Juan Vicente Gómez.

Porém foram seus avós maternos, com quem morou durante uma parte da infância, devido à terrível situação financeira em que se encontravam seus pais - as pessoas que tiveram mais influência sobre o escritor.

Seu avô materno chamava-se Nicolás Ricardo Márquez Mejía, um coronel liberal, veterano da Guerra dos Mil Dias (1899-1903) - guerra civil ocorrida por causa da instituição do regime unitário, em 1886, pelo então presidente conservador, Rafael Nuñes-, que viveu em Aracataca - vila que ajudou fundar. O coronel era considerado um herói nacional por ter feito denúncias, em 1929, no Congresso colombiano, de massacres ocorridos em seu país. Homem interessante e complexo, tinha a fama de ser um excelente contador de histórias -cujo protagonista era sempre ele próprio. Entendia a guerra na qual lutou como soldado apenas como uma jovem e prazerosa aventura com armas. Outra história que gostava de narrar era a de um duelo do qual foi um dos protagonistas e no qual matara seu adversário.

O jovem Gárcia Márquez recebeu de avô-coronel suas primeiras lições, tiradas do dicionário. Também foi o Coronel quem o levou pela primeira vez ao circo, dia em que Gabriel conheceria, também pela primeira vez, um exótico bloco de gelo (tal episódio é rememorado nas páginas de "Cem Anos de Solidão").

A avó de Gárcia Márquez chamava-se Tranquilina Iguarán Cotes, uma mulher extremamente supersticiosa que o influenciou tanto quanto o seu avô. Tranquilina acreditava intensamente em crendices populares e teve a vida rodeada de histórias de fantasmas e premonições. Essa maneira de ver o mundo foi decisiva para o desenvolvimento estilístico do autor.

Os pais de García Márquez eram figuras estranhas ao jovem. Sua mãe, Luisa Santiaga Márquez Iguarán era uma moça espirituosa, que, "infelizmente", apaixonara-se por Gabriel Eligio García. Infelizmente pelo fato de Gabriel Eligio ser um homem completamente oposto ao que os pais de Luisa desejavam. Ele era um tipo conhecido como "La Horarasca", forma depreciativa de se chamar aqueles que chegaram à cidade após o massacre das Bananas (episódio ocorrido em 1928, no qual trabalhadores, que lutavam contra a empresa norte-americana United Fruit Company, foram massacrados pelo Exército da Colômbia). O termo "La Horarasca", título de um dos livros de García Márquez, traduzido no Brasil por "Folhas Mortas", significa algo como aquilo que as chuvas trazem, coisa sem valor algum, que se esvai com facilidade.

Gabriel Eligio também tinha fama de grande mulherengo - era pai de quatro filhos ilegítimos. Conquistou o coração de Luisa com serenatas, poemas, cartas de amor e telegramas. A contragosto, o coronel decidiu dar a mão de sua filha ao boêmio, na época um aluno de medicina prestes a se formar. García Márquez nasceu a 6 de março do ano de 1928, ano em que sua cidade, Aracataca, grande produtora de bananas, começava a entrar em uma grave crise devido a queda de preço do produto.

O pequeno Gabriel cresceu tímido e quieto, embalado pelas histórias de seu avô e as superstições de sua avó, numa casa em que, fora ele e seu avô, só havia mulheres. Mais tarde, todas as histórias escritas por García Márquez beberiam nas fontes de sua antiga moradia - histórias da guerra civil, do massacre das bananas, da viagem e do namoro de seus pais, as chegadas e partidas das formigas gigantes e as filhas ilegítimas de seu avô. Ele faria a seguinte declaração: "Eu sinto que tudo o que escrevi fala das experiências que tive quando vivi com meus avós."

García Márquez perdeu o avô quando tinha 8 anos e, ao mesmo tempo, sua avó começou a ficar cega. Nessa época conturbada, o pequeno Gabriel se mudou para a casa de seus pais em Sucre, onde Gabriel Eligio trabalhava como boticário. Logo após a mudança, ele começou a estudar numa escola de Barranquilla, cidade portuária na boca do rio Magdalena. Lá adquiriu a reputação de um garoto que escrevia poemas satíricos e desenhava cartuns. Tão sério e não dado aos esportes, ele era chamado por seus colegas de classe pelo apelido de "Viejo" (velho, em espanhol). Em 1940, aos 12 anos, García Márquez ganhou uma bolsa de estudos para uma escola secundária. A escola -o Liceu Nacional- ficava em Zipaquirá, a 48 km ao norte de Bogotá.

Exposto à capital colombiana pela primeira vez, ele a achou opressiva e triste. Esta experiência apenas confirmou sua identidade de"costeño" -tratamento dado às pessoas procedentes do interior do país. Na escola, Gabriel crescia completamente estimulado pelos seus estudos e, ao anoitecer, se oferecia para ler os livros em voz alta para os colegas de quarto. García Márquez, nessa época, escrevia mais para seu divertimento, porém, seus cartuns e textos líricos ajudam-no alcançar a reputação e "melhor" escritor da escola. Após a graduação, em 1946, aos 18 anos, ele se matriculou, para satisfazer a vontade de seus pais, como estudante de direito na Universidade Nacional de Bogotá.

Já no início do cátedra, o aluno García Márquez, enfadado com os estudos, preferiu perambular por Bogotá e passear de carro à freqüentar as aulas. Passou a andar com literatos socialistas, artistas famintos e amigos jornalistas.

Mas um dia, por causa de um pequeno livro que lhe foi emprestado por um amigo, sua vida mudou. Era uma cópia em espanhol de "A Metamorfose", de Franz Kafka, traduzido pelo argentino Jorge Luis Borges.

O livro produziu um efeito profundo em García Márquez, fazendo-o admirar aquela literatura que não seguia uma narrativa reta e desdobrava-se fora de um espaço tradicionalmente já demarcado. "Eu pensei comigo mesmo: eu não conheço ninguém que permitiu-se escrever coisas como aquelas. Se eu soubesse, eu teria começado a escrever há muito tempo", disse. Ele também afirmou que a "voz" de Kafka tinha o mesmo eco que a de sua avó: "Era como minha avó fazia ao contar-me suas histórias. De uma maneira totalmente natural em seu tom de voz, ela contava-me coisas terrivelmente selvagens".

Uma das coisas que ele compreendeu após ler Kafka, foi a de ter perdido muito tempo ao não ler toda a literatura que lhe fosse possível. Tornou-se então um leitor voraz, devorando qualquer livro que lhe caísse nas mãos. Ele também começou a escrever sua primeira história, "A Terceira Resignação", publicada em 1946 pelo jornal liberal de Bogotá "El Espectador", onde o editor, sempre que o via, saudava-o como "o novo gênio dos escritores colombianos!".

García Márquez entrou em um período fértil de produção e escreveu mais dez histórias para um jornal nos anos seguintes. Sendo um humanista egresso de uma família tipicamente liberal, García Márquez ficaria extremamente abalado quando, a 9 de abril de 1948, em Bogotá, Jorge Eliecer Gaitán, esquerdista do Partido Liberal, foi assassinado. A morte do líder político o levou a participar dos distúrbios do "el Bogotázo".

A universidade nacional de Bogotá ficou fechada após os distúrbios e Gabriel se mudou então para o norte do país, transferindo seu curso para a Universidade de Cartagena, onde a situação era mais pacífica. Num encontro casual com o médico e escritor Manuel Zapata Oliveira, foi convidado para ir até a redação do jornal "El Universal". E por lá ficou - passou a assinar uma coluna diária chamada "Punto y Aparte" no jornal de Cartagena.

Em janeiro de 1950 decidiu abandonar seus estudos de direito, passando a trabalhar exclusivamente nos seus livros e no jornal "El Heraldo", de Barranquilla, onde assinava uma coluna -"La Jirafa"-, com o pseudônimo de Septimus, sobre assuntos da atualidade. Seu conto "Un Dia Despues de Sabado", publicado no mesmo ano, ganharia o prêmio da Associação de Escritores e Artistas de Bogotá.

Na década de 50 García Márquez, o Gabo, como era conhecido entre amigos, começou a fazer parte de um grupo literário chamado "el grupo de Barranquilla", e, por causa da influência desse grupo, passou a ler os trabalhos de Hemingway, Joyce, Woolf e principalmente Faulkner. Ele também começou a estudar os clássicos, achando inspiração em "Édipo Rei", de Sófocles.

Após uma viagem à sua cidade natal em 1952, depois de anos de ausência, García Márquez escreveu seu primeiro romance, "Folhas Mortas". A obra, inicialmente rejeitada pela editora que recebeu o manuscrito, virou um sucesso quando publicada, em 1955. É neste livro que pela primeira vez aparece a cidade fictícia de "Macondo", local imaginário onde criariam vida os personagens de seu mais famoso trabalho literário: "Cem Anos de Solidão"."Macondo" - palavra que significa "banana" em língua banto- era o nome dado às plantações de Aracataca, onde García Márquez brincava quando criança. Com uma trama esquematizada a partir de "Antígona", de Sófocles, e vivida em um ambiente de cidade mística, o livro é escrito de um só fôlego pelo autor.

Em 1953, García Márquez abandonou seu trabalho no "El Heraldo" e mudou-se para Guajira a fim de vender enciclopédias na rua; após essa experiência, não muito bem sucedida financeiramente, fez outras viagens, trabalhou em algumas histórias e finalmente noivou com Mercedes Barcha. Em 1954, voltou para Bogotá e arrumou um trabalho no jornal "El Espectador", como escritor de contos e crítico de cinema, desistira definitivamente da venda de enciclopédias.

Em 1955, acontece algo que o recoloca no caminho da literatura e o deixa temporariamente exilado. Nesse ano, o Caldas, um pequeno destroyer da marinha colombiana, naufraga ao regressar para Cartagena. Desse naufrágio sobrevive apenas um tripulante, Luis Alejandro Velasco, que ficara por dez dias em um bote. Quando Velasco foi encontrado, torna-se um herói nacional, pois o governo colombiano o utiliza como peça de propaganda, para encobrir os crimes cometidos pela Marinha.

Velasco chegou a fazer discursos para a população colombiana. Porém, após algum tempo, decidiu contar a verdade sobre o naufrágio. O navio carregava uma carga ilegal e naufragou por incompetência e negligência, não por causa de uma tempestade, como afirmara. Ao fazer uma visita à redação do "El Espectador", Velasco oferece a sua história. García Márquez escreve então, como "ghost-writer", o folhetim "A Verdadeira História da Minha Aventura", por Luis Alejandro Velasco. O caso deixou o governo colombiano encolerado, que imediatamente expulsou o sobrevivente da Marinha.

Diante desse clima, os editores de García Márquez, preocupados com uma possível perseguição do governo, mandam-no para a Itália, para cobrir a doença do papa Pio 12. A seguir, dão-lhe o cargo de correspondente em Roma e Paris. Foi também nesse período o lançamento de "Folhas Mortas", em Bogotá. Ele só retornou à Colômbia em 1958.

No período em que ficou na Europa, estudou cinema em Roma e embarcou em um tour pelos países do bloco comunista. Em Paris, ficou sabendo que o governo do ditador Pinilla havia fechado o "El Espectador". Na cidade, influenciado pelas leituras de Hemingway, ele redigiu "Ninguém Escreve ao Coronel", uma parte do "Este Pueblo de Mierda" e "A Má Hora (O Veneno da Madrugada)". Depois de algum tempo em Londres, em seguida passou a morar na Venezuela, destino da maioria dos exilados colombianos na época.

Em 1959, García Márquez passou a trabalhar para a agência cubana de notícias La Prensa, que o enviaria para Havana e Nova York, onde trabalhou até 1961. Durante o restante da década de 60, o escritor foi para a Cidade do México, onde atuou como jornalista, roteirista e publicitário. Os livros "Os Funerais da Mamãe Grande" e "A Má Hora" (que conquistou o Concurso Literário Esso da Colômbia, em 1961) são publicados em 1962.

Foi em 1967, durante sua estada no México, que García Márquez escreveu "Cem Anos de Solidão", obra que recriou a ficção latino-americana - ou ao menos marcou-a decisivamente - com o chamado "realismo fantástico". No livro, ele reconta a história de Macondo e seus fundadores, a família Buendía. É também uma história do seu país, a Colômbia, em que seus mitos, crenças, e fenômenos mágicos têm uma relação cotidiana e comum com a vida das pessoas, onde o real e o irreal são luz e sombra de uma mesma imagem.

Em 1968, em companhia de Mario Vargas Llosa, García Márquez produziu um volume de crítica literária, "O Romance na América Latina". Depois, os dois escritores viraram adversários ideologicamente irreconciliáveis. Em 1972, ele transformou um pequeno episódio do livro "Cem Anos de Solidão" em mais um livro, "A Incrível e Triste História de Cândida Eréndira e Sua Avó Desalmada". Outra coletânea do autor foi publicada no mesmo ano, sob o título de "Os Olhos do Cão Azul". No ano seguinte, Gabriel se muda para Barcelona, na Espanha. Em 1973, publica o livro "O Outuno do Patriarca", uma sátira aos ditadores militares da América Latina, escrita em um estilo em que se percebe a influência de Faulkner no trabalho do autor.

"Crônica de uma Morte Anunciada", publicado em 1981, é um livro no qual García Márquez examina eventos que envolvem um assassinato em nome da "honra" em uma cidade latino-americana. É publicada também a primeira compilação de artigos seus publicados em jornal, com o título de "Textos Costeños". No mesmo ano, ele começa a ter problemas para ingressar na Colômbia e nos EUA, por seu posicionamento político pró-Cuba.

Em 1982 - mesmo ano em que teve sua entrada vetada nos EUA e em que publicou o livro "O Cheiro da Goiaba" -, García Márquez recebeu o Nobel de Literatura. Isso o tornou um dos escritores mais influentes de seu tempo, e provocou o interesse mundial pela literatura latino-americana. Ele foi o quarto escritor da América Latina a receber o prêmio da Academia Sueca. Antes dele ganharam a chilena Gabriela Mistral (1945), o guatemalteco Miguel Angel Asturias (1967) -que afirmou, em 1971, à revista espanhola "Triunfo", que García Márquez plagiara "A Busca do Absoluto", de Balzac, em seu "Cem Anos de Solidão" - e o também chileno Pablo Neruda (1967).

A publicação da história do marinheiro Luiz Carlos Velasco e seu naufrágio é publicada em forma de livro sob o título de "Relato de um Náufrago", finalmente assinada por seu verdadeiro autor. O romance seguinte de García Marquez foi "Amor nos Tempos do Cólera", de 1985, livro que faz uma meditação a respeito do amor romântico e da fidelidade. Depois veio "El General en su Laberinto", uma ficção publicada em 1986 a respeito do libertador Simón Bolivar em seus últimos dias de vida. Nesta obra o realismo fantástico do autor tem como pano-de-fundo a sociedade colonial do Vice-Reinado da Colômbia no século 18.

García Márquez foi um dos maiores defensores do regime cubano e amigo pessoal de Fidel Castro. Polemista ardoroso, meteu-se em uma série de brigas com críticos dos regimes comunistas, entre eles Vargas Llosa, que o chamou de "cortesão de Fidel" em 1986. Em 1994, Gabriel demonstrou mais um vez ser um grande polemista quando afirmou que "pelos notáveis artistas e intelectuais que possui, a Argentina não merece o governo que tem". Recebeu uma resposta do então presidente da Argentina, Carlos Menen, na mesma moeda:"que vá viver em Cuba com esse senhor (Fidel Castro), se não se incomoda por um homem estar há 36 anos no governo". No mesmo ano ele lança o livro "Doze Contos Peregrinos", que narra experiências de latino-americanos na Europa.

No livro "Do Amor e Outros Demônios", publicado em 1995, o autor conta a história da filha única de um marquês colombiano, adolescente, que cresceu entre escravos e orixás, e sua relação com um padre espanhol, incumbido de exorcizar demônios que a teriam possuído. Gabriel García foi escolhido, no dia 2 de maio de 1996, o maior escritor vivo, numa enquete feita pela revista suíça "L''Hebdo" junto a dezoito críticos literários de todo o mundo. A última obra publicada de García Márquez é "Notícia de um Sequestro", de 1997. O livro narra vários casos de jornalistas e mulheres de políticos mortos por narcotraficantes na Colômbia, em 1990.



Fontes:
Grande Enciclopédia Larousse Cultural; editora Nova Cultural; 1998

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