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EROTISMO SEM ORNAMENTOS
Por Henrique Marques-Samyn
01/12/2008
Em geral, os poetas que se dedicam a temas pornográficos optam por empregar todo o seu repertório virtuosístico nessas criações, como se a riqueza formal assim exibida fosse um meio de enobrecer um conteúdo tido como “inferior” ou “indigno”; ou, por outro lado, uma maneira de o próprio autor sair incólume de sua incursão por aquele campo temático: se ousou tratar de uma matéria “suja”, foi a fim de demonstrar que ainda assim o seu talento não foi maculado, de modo que o seu valor como poeta permanece inalterado mesmo após a temerosa descida ao sórdido. Disso comumente resultam obras de notável valor estético, conquanto tendam para um certo artificialismo.
O que há de mais notável na “Erótica pornográfica” de J. J. Sobral (Setúbal: ErosPoética, 2007) é justamente sua recusa de todos esses expedientes. Não encontramos ali virtuosos sonetos, laboriosas composições ou demonstrações explícitas de erudição; pelo contrário, Sobral opta unicamente por uma forma de extração popular – quadras heptassilábicas – e não recorre, em momento algum, a quaisquer elementos que escapem ao seu essencial escopo: o ato sexual propriamente dito. Não há também as referências literárias, históricas ou artísticas tão comuns na poesia pornográfica; o que há é tão-somente um minucioso exame de tudo o que constitui a cópula, do ato em si aos seus atores. Sobral escreve com naturalidade, despojamento e leveza; não questiona ou problematiza: apenas compraz-se no ato mesmo de versejar sobre o sexo, algo aliás já anunciado na “Advertência” que abre a obra – por conta da extensão da poesia, aqui transcrevemos apenas algumas estrofes:
Mesmo antes do livro aberto É fácil adivinhar Do que fala ele ao certo Do que vai ele tratar
Não fala de passarinhos Nem fala de borboletas Nem dos ovos em seus ninhos Nem de flores violetas
(...)
É de sexo que se fala Seja a sério ou a brincar
Não obstante, é sem dúvida a forma poética escolhida por Sobral o que rende os melhores – embora também os piores – momentos da obra. Por um lado, disso resultam freqüentes momentos de prosaísmo, o que confere à obra certa irregularidade; contudo, o efeito geral é o de conferir à poesia um tom que, a par de uma dicção direta e isenta de metáforas, rende um texto cuja comicidade tem um forte tom popularizante. Veja-se, por exemplo, esta estrofe de “Os bissexuais”:
Há quem ache bem esquisito Gostar de homem e de mulher Mas quem tem tal requisito Mais tem por onde escolher
Ou estas de “O tarado”:
Por norma é mais a fama O proveito pouco tem Pouco se aguenta na cama Mas não o conta a ninguém
Muitas vezes o tarado Quer ele se gabe ou troce É só um pobre coitado Com ejaculação precoce
A dicção poética de J. J. Sobral evoca ocasionalmente as obras pornográficas de nosso Laurindo Rabelo, o “Poeta-Lagartixa”, ou as do português António Maria Eusébio, vulgo “Calafate” – o último, aliás, setubalense como o próprio Sobral. Esta “Erótica pornográfica” resulta, afinal, obra capaz de entreter e divertir; e que, enquanto minucioso exame das incontáveis formas de prazer carnal, é ao mesmo tempo uma espécie de bem-humorada crônica poética sobre os hábitos sexuais contemporâneos.
| manoel messias pereira
| 01/12/2008 - 00:41:59
| | http://www.pop.com.br | |
| è apenas uma ilusão crer que o poeta erotico, ou sensual, necessite alimentar-se de cenas com sexos explicito, e sim é apenas um sonho o sexo, e nada real, e eternizar o sonho com gosto de espermas na língua.
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| Bárbara Buarque
| 01/12/2008 - 12:04:49
| | http://www.barbarainlesbos.blogspot.com | |
| Tratar sexo como ele é na literatura não é novidade, basta ver os ainda hoje famosos catecismos do Zéfiro ou alguns dos contos do Bukowski. Às vezes, sexo é sublime, às vezes é animal, então nada existe de anti-natural em retratar o ato tanto por meio de metáforas como por descrições diretas do ato. Nesses sites de contos eróticos, às vezes - bem às vezes, infelizmente - é possível encontrar textos de valor literário, embora continuem bem safados.
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