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A BIOGRAFIA DE SATÃ
Por Henrique Marques-Samyn
09/11/2008
Quando falamos sobre Satã, de que exatamente estamos tratando? Seríamos capazes de precisar os traços da figura que se oculta sob esse nome – e, mais ainda: seríamos capazes de relacionar as fontes das quais extraímos aqueles traços? Publicado pela editora Globo, o livro de Henry Ansgar Kelly Satã: uma biografia tem como meta explorar essa questão, através de um profundo exame de como a identidade de seu polêmico biografado emergiu no texto bíblico e foi sendo construída ao longo da história até a contemporaneidade. A tarefa é desafiadora; não obstante, Kelly tem as credenciais necessárias para enfrentá-la: professor emérito da Universidade da Califórnia em Los Angeles, pesquisa o assunto há mais de quatro décadas e já assinou sobre o assunto diversos livros e artigos publicados em respeitados periódicos no campo teológico.
Se Kelly tinha toda a experiência e as qualificações para escrever um trabalho destinado ao público acadêmico, fez no entanto a opção de enfocar um público mais amplo, o que encerrava dois sérios riscos: de um lado, o perigo da simplificação, risco especialmente alto em se tratando de uma pesquisa sobre assunto tão vasto, o que indubitavelmente desagradaria ao leitores mais exigentes; de outro lado, havia a possibilidade de que o trabalho resultasse demasiado hermético para o leitor médio. Afortunadamente o autor soube encontrar a exata medida, criando um livro que, embora em momento algum abandone o rigor acadêmico, é escrito em linguagem acessível e não raro bem-humorada. Kelly é bastante econômico com relação a notas de rodapé (são pouco mais de setenta em um livro de mais de trezentas e cinqüenta páginas) e, quando trata de assuntos especialmente polêmicos entre os especialistas, apresenta a discussão de forma clara e sucinta, sem deter-se mais do que o necessário em pormenores acadêmicos; assim, a leitura do livro mantém-se leve e agradável, sem que no entanto aqueles que desejem aprofundar-se deixem de conhecer os principais aspectos de cada questão.
"Satã: uma biografia" é dividido em cinco partes. A primeira parte, denominada "O background hebreu", examina o Antigo Testamento, onde a palavra ‘satã’ é um substantivo comum que significa ‘adversário’, aplicando-se a seres humanos e, em apenas três casos, a figuras supra-humanas ou angelicais: o Anjo de Javé que aparece perante Balaão e sua jumenta é "um satã", assim como o Filho de Deus que age contra Jó porta-se como um satã. São os responsáveis pela tradução do texto para grego – a Septuaginta – os primeiros a manifestar a crença de que um dos Anjos de Deus tinha efetivamente o nome de Satã: eles traduzem o termo hebraico por ho Diabolos, ou seja, empregam o artigo: "um diabo" torna-se "o Diabo"; "um satã" torna-se "o Satã" .
A segunda parte do livro tem por título "O Novo Testamento: o surgimento do Satã". Os quatro capítulos que a compõem analisam as epístolas paulinas; os quatro evangelhos; as epístolas atribuídas a Paulo, mas cuja autoria é contestada; e o Apocalipse de João, o Divino. Nesse âmbito neotestamentário, deparamo-nos com a designação ho Satanas, ‘o Satanás’, forma grega para o aramaico Satanah, ao lado da já mencionada forma ho Diabolos, ‘o Diabo’; contudo, aqui já percebemos importantes transformações na figura de Satã: sua principal função passa a ser testar a humanidade, causando enfermidades que são curadas com a expulsão, por Jesus, dos seres demoníacos que habitam nos doentes. No Apocalipse, Satã surge a princípio como um grande Dragão – não o dragão que conhecemos, quem tem asas e cospe fogo, mas um dragão consoante a representação da Antigüidade, ou seja, uma enorme serpente – , assumindo posteriormente uma forma angelical antropomórfica: originalmente autorizado a ser o Acusador da humanidade nos Céus, ele contudo se excede em suas acusações, estando por isso destinado a perder o seu lugar. Contudo, em todo o âmbito bíblico propriamente dito, não há referências a uma queda pré-mundana dos Anjos; não há quaisquer relações entre Satã e a Serpente do Éden; não há Anticristo, somente anticristos que são humanos e não estão relacionados diretamente a Satã; e não há qualquer Lúcifer rebelde – pelo contrário: Lúcifer, a Estrela da Manhã, é uma imagem associada com Jesus, o Messias.
A terceira parte, de título "Satã e Adão", é bastante curta: visa demonstrar como os primeiros Padres da Igreja estabeleceram uma relação entre a Serpente do Éden e Satã. Os principais responsáveis por essa tarefa foram Justino e Tertuliano, sendo esse último aliás quem inaugura a relação entre Lúcifer e Satã. O próprio Lúcifer é o objeto da quarta parte, "A ascensão do Lúcifer decaído", que analisa como Orígenes estabelece para Satã uma história de orgulho e rebelião contra Deus. As idéias de Orígenes serão desenvolvidas na tradição cristã, originando o que Henry Kelly denomina "Nova biografia do Diabo", que pode ser assim sintetizada: Satã era um rebelde contra Deus que provocou o pecado em Adão e Eva, tornando-se desde então inimigo da humanidade; assim, aqueles demônios que nos Evangelhos se apossavam dos homens passam a ser considerados anjos que foram expulsos do Paraíso ao lado de Lúcifer. Também nesta parte são analisadas as teorias medievais sobre Satã e suas representações artísticas pré-modernas, marcadas pela misoginia – a Serpente do Éden em particular tendia a ser representada com cabeça e, por vezes, corpo de mulher – e pelo etnocentrismo – a forma "natural" dos demônios assemelhava-se à dos etíopes, ou seja, africanos negros.
Finalmente, a quinta e última parte do livro, de título "Satã no mundo moderno", tem como objeto as etapas mais recentes da biografia de Satã. Kelly trata de alguns questionamentos teológicos contemporâneos; das idéias do protestante Friedrich Schleiermacher, um dos principais críticos da representação de Satã como rebelde contra Deus e tentador de Adão e Eva; e concede algum espaço às discussões em torno do exorcismo, prática que vem reencontrado seu espaço em alguns círculos religiosos na atualidade.
Sobre a tradução do volume, vale observar que apresenta alguns deslizes que poderiam ser corrigidos por uma revisão mais cuidadosa. Na Introdução, por exemplo, o que deveria ser traduzido como "a tese de Orígenes de Alexandria" (no original, "the thesis of Origen of Alexandria") é traduzido como "a tese da Origem de Alexandria" (p. 17), o que prejudica a compreensão do trecho. Um outro (curioso) equívoco é a ocorrência, a certa altura, de ‘Judasus’ (sic) onde deveria constar ‘judeus’ (p. 43); não obstante, o termo ‘Judasus’ aparece no índice remissivo com várias indicações de páginas onde, evidentemente, não consta.
A despeito desses pequenos equívocos, que poderão ser corrigidos em uma eventual nova edição, a publicação de "Satã: uma biografia" possibilita o acesso a uma valiosa obra tanto para teólogos e estudiosos quanto para os que têm algum interesse pelo assunto. Inegavelmente, as representações satânicas são parte da experiência humana há mais de dois milênios; não obstante, isso não significa que sejamos capazes de dizer o que há nelas de legítimo e o que é mero produto de "propaganda negativa", para falar como Henry Kelly. De resto, um dos principais méritos da obra, como reitera o autor, é fornecer-nos informações suficientes para descontruir a figura de Satã, mera abstração à qual tantos atribuem o mal que há no mundo; assim, temos condições de refletir sobre esse mal não como algo produzido por qualquer representação abstrata, mas nascido da ação concreta dos próprios seres humanos.
| manoel Messias Pereira
| 10/11/2008 - 19:19:36
| | http://www.pop.com.br | |
| A figura de Satã, está no livro de Job, significa o acusador, tinha a função de percorrer o reino e fiscalizar tudo o que estava sendo feito de mal. Em base política de Aquemenida, é o arrecadador de impostos. O governo é o grande Satã.Seja ele do PT ou PSDB e os demonios pequenos o PTB PP e outros
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| Enio Costa Souza
| 11/11/2008 - 18:06:11
| Não quero -e nem posso-, dimunuir os méritos da obra em questão, mas, me parece que o livro trata o termo Satã com base apenas na etimologia da palavra, não levando em consideração o contexto em que ela foi empregada através dos tempos. Mesmo que se tenha diferentes sentidos para a palavra, devemos considerar à que ela nos remete em primeira instância. Quando chamamos um menino de diabo, não estamos falando de uma personificação do Mal, e sim de atos travessos ou maldosos que a palavra 'diabo' traduz fácil e instantâneamente.
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