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UM EXERCÍCIO ANTROPOFÁGICO
Por Danilo Corci
31/07/2008
Monaural, ou Mono, é o sistema de gravação e reprodução do som em que não é possível perceber as diferentes posições das fontes sonoras, ou seja, todo o som é transmitido por meio de um único canal, também chamado de monofônico.
Em tempos de pós-utopia, usando o termo afrescalhado, o chamado filtro cultural parece se padronizar cada vez mais, criando assim referências únicas sendo replicadas a exaustão por diversas bandas ao redor do mundo, numa espécie de monaural musical. A questão é tão séria que o respeitado jornal britânico The Independent deu ao assunto a capa de seu caderno cultural algumas semanas atrás.
Indo um pouco além, nessa era de comunicação digital, cada vez mais o papel do "álbum", com seu formato conhecido desde a década de 60, fica cada vez mais irrelevante. Com o cenário musical se dirigindo cada vez mais para o formato em looping do "one hit wonder" (usando a expressão aqui sem demérito algum). Porém, para isso acontecer, faltam os famosos "cojones" para alguma banda grande - o Radiohead quebrou o paradigma lançando seu álbum na internet, mas ninguém ainda desistiu do conceito 'disco' para investir em apenas singles e EPs, o que poderia dar às bandas uma flexibilidade de lançamento durante um ano todo, músicas novas sempre.
É importante pontuar tudo isso para falar do O power-trio paulistanos Monaural formado por Ayuso (guitarra), Gualter (baixo) & Herik (bateria), com já cinco anos de estrada, com uma demo e um EP na carreira. Como o próprio nome da banda já conta, o lance deles é fazer o filtro. E como se pede no mundo de hoje para uma banda ainda não muito conhecida, um single dá a agilidade que precisam. Agora resta saber se vão ter o outro elemento que falta nesta equação: o apoio hype.
Exercício de futurologia deixado de lado, o single Acaba logo com isso traz três canções para fazer o esquenta do disco que deve sair ainda em 2008. A faixa epônima que abre o trabalho é obviamente a candidata a música a ser divulgada. Já nos primeiros acordes o filtro está evidente: "Juicebox", dos Strokes. Claro que reduzir a canção a pura cópia da turma do brechó é uma estupidez. Ayuso solta sua raiva vocal numa canção de amor e abandono - "Acaba logo com isso é uma canção de amor/ acaba logo com isso eu não sou um bom ator", tudo pontuado pelo potente baixo de Gualter. O recado, ainda que soe datado, está dado. O Monaural clama por um rock n' roll que aconteceu lá fora alguns anos atrás, mas que efetivamente aqui no Brasil a coisa não decolou. Tática suicida?
Não necessariamente, se você ouvir "Mais um pecado", faixa instrumental, onde a banda exercita seu lado mais perfeccionista - e mais uma vez o baixo de Gualter se destaca. Mas "Discórdia" reafirma que a praia do Monaural está realmente em Nova York bebendo na lição sonora que o Yeah Yeah Yeahs ensinou enquanto Ayuso, outra vez com muita raiva, canta o "descer as escadas da discórdia/ cada degrau, uma derrota" e que é "o fardo em suas lembranças".
De fato, se você levar em consideração tudo o que foi dito para começar este texto, o Monaural pode ser encaixado como mais um exercício antropofágico brasileiro, agora no rock de ares dos anos 00. Mas você sempre pode preferir a abordagem prática: os caras fazem um rock que vale bem a pena ser ouvido e, pelo menos, dar a chance deles capturarem sua atenção. Isso não é nem um pouco difícil de acontecer.
Para saber uma pouco mais sobre a banda, visite www.myspace.com/monaural. O álbum de estréia, expurgo, está prometido para este segundo semestre de 2008.
| Gust
| 01/08/2008 - 16:52:49
| mané strokes e ye ye yes uma pora caralho...
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