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ONDE BRILHAM OS OLHOS DE FERNANDA
Por Valdir Antonelli
13/12/2007
Um disco que era para ser lançado apenas no ano que vem, mas que, devido à veiculação das canções nos desfiles do estilista Ronaldo Fraga – que também homenageou Nara Leão em sua última coleção e Fernanda cantou em alguns desfiles –, saiu agora em dezembro. Sorte dos fãs de Fernanda Takai e Nara Leão, afinal Onde brilhem os olhos teus, homenagem de Fernanda à Nara, pode ser considerado um dos grandes discos de 2007. Mas se você não suporta a voz doce da vocalista do Pato Fu, então esqueça, melhor passar longe.
Idéia de Nelson Motta, que propôs o trabalho à Fernanda no ano passado, Onde brilhem os olhos teus parece mais uma brincadeira entre amigos do que uma proposta realmente séria, por isso não deve acrescentar nada à carreira da vocalista e também não faz jus aos trabalhos de Nara Leão. Deixando qualquer comparação de lado, encontramos uma Fernanda se divertindo no estúdio ao resgatar canções que, direta ou indiretamente, influenciaram a carreira do Pato Fu. O fato das canções não serem fiéis às originais dão uma cara de recém tiradas de uma árvore, frescas, mas sem cair no saudosismo ligado à bossa nova ou com o risco de soarem datadas.
A própria cantora afirmou em entrevistas que não queria apenas regravar as músicas, mas sim dar uma cara própria às composições, tanto que o disco lembra muito o Pato Fu, como se a banda, de longe, resolvesse dar uma de deus-ex-machina na produção, pois é um tanto difícil imaginar a mesma gravando uma canção como a linda e singela “Canta, Maria”, perfeita na voz de Fernanda, ou a marchinha “Ta-hi”, que se transformou em balada, com direito a órgão de igreja e apenas 53 segundos de duração – mais Pato Fu impossível.
Em vários momentos a ode ao banquinho e violão dá lugar às guitarras do tropicalismo – que Nara também ajudou a divulgar –, em “Lindonéia”, e ao pop de “Com açúcar, com afeto”. Em outros instantes, Fernanda preferiu manter uma leve proximidade com o original, como na sombria “Luz negra”, com cara de tango argentino, em “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, com leve tempero eletrônico, ou em “Odeon”, uma das versões mais próximas ao que estávamos acostumados a ouvir na voz de Nara, ainda que mostre arranjos de piano e bateria ligados ao jazz.
Fernanda diz que ouviu todos os discos de Nara Leão e escolheu estas treze canções de uma lista com quarenta – a lista foi enviada por Nelson Motta e trazia canções importantes da carreira de Nara e também outras que o produtor acreditava serem perfeitas para a voz da vocalista do Pato Fu. Como resultado, temos várias músicas que poderiam entrar no repertório do Pato Fu, principalmente “Seja o meu céu”, e outras que mostram Fernanda como uma excelente vocalista e que pode sobreviver como cantora sem sua banda principal.
Totalmente caseiro, Fernanda gravou no estúdio que mantém em sua casa com ajuda do marido, John Ulhôa, responsável pela produção e por tocar a maioria dos instrumentos usados – em algumas músicas, o tecladista Lulu Camargo, também do Pato Fu, participou e em “Insensatez”, que contou com Roberto Menescal nas guitarras. Onde brilhem os olhos teus é um pequeno presente para os fãs do Pato Fu, mas é tão doce que é bem capaz que agrade às viúvas da bossa nova.
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