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GIZ BRANCO DE PJ
Por Marcelo Costa
20/11/2007
A grande maioria das pessoas odeia mudanças em seu dia-a-dia. Estão de certa forma atoladas na rotina diária que se alguém tirar o cinzeiro do lugar de costume e colocar no lugar um copo de gasolina, é capaz que a pessoa jogue as cinzas de cigarro no mesmo lugar sem notar nenhuma mudança. E depois beba o líquido – se ele já não tiver jogado tudo pelos ares – sem saber o que aquele copo estava fazendo ali. Na música pop, a palavra mudar é quase uma ofensa. Por mais contraditório que pareça ser, fãs não pagam para que o artista seja criativo, mas sim para que ele não ouse sair um milímetro que seja daquilo que eles aprenderam a admirar. O culto ao mais do mesmo.
Em seu oitavo disco numa carreira marcada pela atemporalidade, Polly Jean Harvey coloca o rock e os sons de guitarra distorcida - tão característicos de sua persona pop - em uma redoma de vidro para voltar no tempo, mais precisamente para 1861, ano em que o pintor James Abbott McNeill Whistler desenhou o quadro The white girl, inspiração da capa deste White chalk. Com esse retorno, PJ deixou no futuro os sons de guitarra, baixo e bateria trocando os por harpa, banjo e gaita, mas quem comanda a usina de melodias do álbum é o piano (aliás, tema de outro quadro de Whistler, At the piano, em que uma mulher de roupas negras toca uma canção para uma garotinha toda de branco).
A busca de PJ Harvey pelo isolamento no passado é explicitada em diversas letras de White chalk que valorizam a solidão e o silêncio (ao contrário de Uh uhu her, em que ela dava sinais de esperar o verão). Em “Dear darkness” (com backings de John Parish, parceiro e um dos produtores do álbum ao lado de Flood e PJ) ela faz uma declaração de amor para a escuridão: “Cara escuridão, você não vai me cobrir novamente? Fui sua amiga durante anos, você não vai fazer isso para mim, caríssima escuridão, proteger-me do sol?”. Em “Before departure” ela escreve uma carta de despedida: “Adeus meus caros amigos, perdoem a minha franqueza e lembrem-se de mim na primavera”.
Nesta volta ao passado PJ reencontra sua mãe, e pede em “Grow grow grow”: “Mãe, me ensine a crescer”; em “To talk to you” ela tenta falar com o avô; em “Silence”, por sua vez, ela se liberta da família, do trabalho e de si mesma; em “The piano” diz que ninguém a escuta enquanto repete que se perdeu de Deus; em “Devil” avisa que o Diabo está divagando em sua alma; “When under ether”, primeiro single do disco, é sobre uma pessoa em coma: “a mente está viva, mas sem consciência de nada, ela quer sobreviver”; em “Mountain” ela já não está sentindo nada em sua alma, e faz uma pequena profecia: “A primeira árvore não irá dar flores / A segunda não irá crescer / A terceira quase cairá / Uma vez que você me traiu… assim”.
A atmosfera do disco é densa, sombria, renascentista. Polly Jean Harvey canta muito, mas rasga a voz em poucas passagens. A bateria também é rara em um álbum que não deve e nem pode ser consumido como se fosse um produto fast-pop-food (como acontece com grande parte do Novo Rock, que satisfaz o desejo por alguns milésimos de segundo até serem descartados e trocados por algo mais novo… e praticamente igual), mas requer atenção e calma. “Broken harp” soa como um resumo da obra com PJ cantando a capella nos primeiros segundos: “Por favor, não me censure / Minha vida tornou-se vazia / Eu não sei realmente o que aconteceu / Prestei atenção a sua decepção / E estou sendo mal interpretada / Mas vos perdôo”. As almas pequenas – que passam a vida remoendo pequenas certezas – podem dormir em paz. A deusa Polly Jean Harvey os perdoa. Amém.
| juliana
| 23/11/2007 - 11:07:08
| when under ether é sobre uma mulher abortando, tema que se repete em white chalk, que é a faixa que dá nome ao cd.
Em to talk to you ela busca a avó, não ao avô.
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