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MÚSICA PARA OS OLHOS
Por Marcelo Costa
28/04/2007

Divulgação

Em um momento tão particular da (outrora) chamada música popular brasileira, em que o que toca nas rádios (falidas) é tudo aquilo que os donos de gravadora acham que é o que povo deve ouvir (e comprar), e não o que o povo quer (e merece) ouvir, vive nos cinemas um dos documentários mais tocantes de todos os tempos sobre uma personalidade musical deste país: "Cartola - Música Para os Olhos", de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, um filme que faz o coração sentir saudade de uma época que ele nem sabia que tinha saudade.

"Cartola - Música Para os Olhos" é muito mais do que um documentário, e se posiciona a frente de parceiros recentes do gênero – como os belos "Paulinho da Viola – Meu Tempo é Hoje" e "Vinicius" – por amplificar sua narrativa e abraçar todo um país, ao invés de se concentrar apenas no território musical do documentado. A premissa pode soar exagerada ao ser colocada desta forma, pois abraçar um país como o Brasil é lidar com culturas diferentes e divergentes, mas Lírio Ferreira e Hilton Lacerda retornam no tempo, e esse retorno busca nossas raízes (as minhas, as suas e a do cara deitado no chão ali na esquina) como poucos filmes ousaram buscar.

Para conseguir este intento, os diretores trabalham duas ferramentas de cinema com sublime destreza: a edição e o roteiro. Da primeira ferramenta caem no colo do espectador cenas de um Brasil que poucos conheceram (e se lembram). Imagens de arquivo de entrevistas do compositor Cartola, cenas de filmes ("Rio 40 Graus", "Terra em Transe" e muitos outros), imagens raras de pessoas e situações famosas de época (como o presidente Getúlio Vargas recebendo autoridades estrangeiras no Palácio do Catete) e momentos musicais de emocionar, como Nara Leão interpretando "O Sol Nascerá", um dos "hinos" de Cartola, ou o próprio mostrando para Beth Carvalho uma música nova, "As Rosas Não Falam".

A seleção de cenas e imagens que abrilhanta "Cartola - Música Para os Olhos" é valorizada pelo roteiro, que deixa de lado o "bê-á-bá" idiotizante do cinema hollywoodiano que sempre opta por explicar tudo ao espectador, mesmo as situações óbvias do filme. Em "Cartola - Música Para os Olhos" o roteiro leva o espectador para dentro da história. Não há explicações. Cada cena que surge na tela está inteiramente ligada ao textual do que está sendo contado (ou omitido) pelo roteiro. Nos primeiros minutos essa opção sugere estranhamento, mas no decorrer do filme ganha o espectador de forma arrebatadora.

Por fim, é até possível fazer algo sensacional tendo como objeto de pesquisa um tema irrelevante. Não é o caso de "Cartola - Música Para os Olhos". A história de Angenor de Oliveira, só ela, é de emocionar o mais cético mortal. Cartola é mais um daqueles gênios que nascem abençoados com o dom inexplicável de tornar a vida das outras pessoas mais bela. Ele completou somente o curso primário e passou a vida trabalhando em bicos como pedreiro, pintor de paredes, lavador de carros, vigia de prédios e contínuo de repartição pública. O que o fez famoso, no entanto, foi seu dom para escrever sambas magistrais. Estes sambas se envolvem com a própria história cultural do Brasil. E tudo isso ganha tradução neste documentário belíssimo, que se fosse preciso ser traduzido apenas em uma palavra, seria lirismo.



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