E SE UM DISCO VIRASSE LITERATURA?
Por Redação
21/11/2006
“I put the grrr in swinger, baby!”, responderia o personagem Austin Powers. Seria como um pacto demoníaco, apostaria Screamin' Jay Hawkins. Mostraria como é uma visita à Louisianna, cantaria Muddy Waters. Jogaria um feitiço no leitor, repetiria Nick Cave.
Três acordes, variações de ritmo, letras mágicas, escalas sob medida, virtuosismo dos músicos, não importa. They got their mojo working. O disco perfeito exala um tipo de magia que não entra só pelos ouvidos, mas toma sua alma emprestada pelo tempo de algumas faixas. E o pacto de encruzilhada, aqui, é feito citando nomes da cultura pop.
Agora, esse feitiço poderoso transforma-se em literatura. Se um disco pudesse ser convertido em palavras, que história que ele contaria?
Com essa proposta surge a coleção MOJO BOOKS, lançada pela revista Speculum. Embebida em cultura pop, a coleção propôs um desafio a seus autores: extrair o mojo de um álbum musical e recontá-lo em ficção literária.
Narrativas variadas, com amores, brigas, violência — por vezes tristes como algumas canções ou com o ritmo ágil de um bom rock n´roll — estão espalhadas pela coleção.
A MOJO BOOKS tem edição mensal, totalmente gratuita, e foi criada para o ambiente digital — seus volumes podem ser baixados em formato PDF.
"A internet é um dos espaços mais valiosos para a cultura pop. Então, foi um caminho natural escolher esse suporte para veicular o projeto", diz Danilo Corci, organizador da MOJO BOOKS, sobre a escolha do formato para a coleção. “Além disso, sempre acreditei que um bom disco pode ser lido, em todos os detalhes, para além da óbvia alusão às letras. Com isso, fizemos a proposta e os autores aceitaram o desafio de tentar capturar o mojo desses álbuns trabalhá-lo para se transmutar em boa ficção pop. Cabe ao leitor nos dizer se foi ‘fisgado’ pelos acordes literários ou não. Esperamos que sim.”, prossegue.
Os primeiros quatro volumes serão lançados no próximo dia 2 de dezembro e trazem Technique, do New Order, revisto por Ricardo Giassetti, #1 Record, do Big Star, ficcionado por Luiz Cesar Pimentel, Black Celebration, do Depeche Mode, recriado por Danilo Corci e In It for the Money, do Supergrass, recontado por Delfin.
Para 2007, Doolittle, do Pixies, Grace, de Jeff Buckley, Thriller, de Michael Jackson, Dummy, do Portishead, Pet Sounds, do Beach Boys e The Velvet Underground & Nico são apenas alguns dos discos que mergulharão no caldeirão literatura pop. Sempre com muito mojo, é claro.
Sobre os autores do primeiro volume:
Danilo Corci é formado em Produção Editorial, pela ECA-USP. Trabalhou na Folha de S.Paulo. Criou e dirigiu as redações de conteúdo dos portais BrTurbo e Megazon. Atualmente é redator da Tribal Agência Digital e editor da revista Speculum.
Delfin é jornalista especializado em histórias em quadrinhos, já tendo escrito sobre o assunto para o jornal Correio Popular, as revistas Semana 3, Trip e Zero e os sites Universo HQ, Rapadura Açucarada, Mundo HQ e Cosmo Online. Também é jornalista cultural, roteirista e designer gráfico. É autor de dois livros: Kreuzwelträtsel Redux e Se eu tivesse um machado.
Luiz Cesar Pimentel trabalhou em alguns dos principais veículos de comunicação do país, como o jornal Folha de S. Paulo, revista Trip, Editora Abril e os portais StarMedia e Zip.Net. Criou e dirigiu as redações das revistas ZERO e Radar, além de escrever para Caros Amigos, Carta Capital, Superinteressante, Elle, Rolling Stone, Playboy e Fórum, entre outras. É pós-graduado em Jornalismo Internacional pela PUC-SP, realizou coberturas internacionais em mais de vinte países e é graduado em fotojornalismo.
Ricardo Giassetti é roteirista e jornalista. Escreve crônicas para a Speculum, matérias para as revista História e Grandes Guerras (Ed. Abril), e é autor de Down the river (Rio abaixo), publicado na antologia Gunned Down (Bang Bang, Devir Editora). O New Order tocou em sua última festa de aniversário. À meia-noite, Blue Monday.
Três perguntas para os autores
- Por que você escolheu esse disco?
Danilo Corci: Porque ele é, de certa maneira, um disco absurdamente histérico, quase uma declaração literária.
Delfin: Porque o Supergrass, com este disco, respondia à crítica que considerava o grupo como mais uma bandinha dispensável do Britpop. Tanto que, antes dele, Steven Spielberg queria que eles fossem os novos Monkees. Tudo por causa do megasucesso Alright. Hoje eles se mostram como os grandes sobreviventes do movimento pop inglês dos anos 90. Além do fato óbvio de que este disco é simplesmente do caralho.
Luiz Cesar Pimentel: Porque as pessoas deveriam conhecer esse disco.
Ricardo Giassetti: Technique foi o primeiro trabalho do New Order após o advento de Substance, o único disco perfeito conhecido pela raça humana. Technique também foi o primeiro lançamento do New Order depois que comecei a ouvir a banda. A experiência de comprar pela primeira vez um disco inédito da banda preferida é gratificante. Ouvi cada uma das faixas no meu próprio aparelho de som, longe do mundo exterior. E aprendi sozinho a gostar delas. É até provável que a visão do New Order como banda moldou algumas das minhas qualidades pessoais. Sua simpatia com o anonimato e sua generosidade para com a gravadora, são exemplos a serem seguidos. Além das drogas, claro.
- Como foi o processo de transformar música em literatura?
Danilo Corci: Simples e complicado. Mas, claro, para mim, o disco fala absolutamente tudo o que escrevi, em cada nuance, em cada detalhe. Se você prestar bem atenção poderá ver até os ecos de sons particulares de cada músicas escorrendo nas sentenças do livro.
Delfin: Estudar o disco, seus temas e sua estrutura foi o método que adotei. Queria que o leitor tivesse em mãos uma obra que mantivesse o mesmo espírito do disco, ao mesmo tempo em que não fosse uma repetição do mesmo. Por isso mesmo, todos os títulos foram vertidos para o português, bem como muitas situações são próprias. Assim, o disco se torna uma grande trilha sonora para o livro (e, claro, o livro se torna um belo libreto alternativo para este disco quase conceitual da banda). Atenção aos personagens: eles têm muito a ver com a história escondida por trás do disco e da trajetória do Supergrass.
Luiz Cesar Pimentel: Natural. Literatura boa flui como música, e vice-versa.
Ricardo Giassetti: Não foi difícil. A estrutura que usei no livro coloca paralelamente o dia de um cara e o setlist do disco. Da hora em que ele acorda até quando vai... ele não vai dormir, exatamente. A idéia de criar ficção tendo música como base já era uma velha companheira, que agora a Mojo ressuscitou.
- Com qual canção do álbum você falaria para o leitor iniciar seu conto?
Danilo Corci: Resposta fácil: Fly on the Windscreen. Se você ler o primeiro parágrafo, vai entender logo de cara.
Delfin: Certamente pela primeira, que dá título ao álbum (In it for the money). A experiência vale a pena de cabo a rabo. E, afinal, estamos todos nessa pela grana, não? Mas este livro você pode levar de graça. Desta vez.
Luiz Cesar Pimentel: Thirteen
Ricardo Giassetti: Com a Fine Time, a primeira do disco. E seguir em frente, capítulo a capítulo, com All the Way, depois Love Less, Round & Round até Dream Attack. O livro tem o mesmo tempo de leitura que o Technique.
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