ULTRA-SOM
Por Ricardo Giassetti
27/04/2006
Na época ainda não havia a violação de privacidade conhecida como ultra-som. Saber o sexo da criança era impensável, o que criava um dilema terrível na hora do enxoval: azul ou rosa? A opção amarelo-mingau era a saída mais óbvia. Hoje, os antigos magnatas da indústria das roupas amarelo-mingau mal conseguem manter uma parcela ridícula do mercado e pagam altas somas a mercenários para molestar a família do inventor, Ian Donald, e seus herdeiros.
Poeticamente, o útero é um lugar sagrado onde o calor da mãe e a escuridão são o último refúgio da sanidade humana. Ali, o feto se alimenta diretamente do amor da mãe, afogado no líquido amniótico e dando umas pancadinhas no casco para saber se ainda tem gente viva do lado de fora.
O diálogo que se segue deve ter acontecido em algum dia do primeiro semestre de 1971. O casal já tinha três filhas. O pai insistiu que a mulher desse outra chance aos seus espermatozóides Y, afinal ele tinha prometido ao seu próprio pai perpetuar o nome.
"Se nascer menino é o nome do seu pai, tudo bem" disse a mãe. "Mas e se for menina?"
"Nem me fale." respondeu o pai sem tirar os olhos do jornal.
"Se for menina vai chamar Patrícia," decidiu a mãe enquanto enxaguava o sabão da xícara.
"Você que sabe. Você viu o que Rivelino falou ontem do Pelé?"
E assim Ricardo veio ao mundo, carregando o mesmo nome do seu avô. O fardo não era fácil. Toda a família esperava ansiosa o tal Ricardinho. Quando nasceu e foi confirmado que era macho, o pai organizou uma festa de reinauguração da chácara, que doravante ficaria conhecida como 'Rica-Ricardo'. O avô pegou o bebê no colo e sentenciou: "Este será o futuro prefeito da cidade!" O ego do avô só seria superado pelo do neto, anos depois. No decorrer dos próximos três meses o planeta Terra se mostrou pequeno demais para dois Ricardos Giassettis e extinguiu o mais velho. Obviamente que toda a expectativa criada acerca do rebento não poderia ser alcançada em apenas uma vida. Ricardo Giassetti é hoje uma decepção para inúmeros familiares.
Mas o que aconteceu com a Patrícia? Para onde ela foi? Estaria feliz agora? Nesse caso, segundo o gato de Schrodinger, ela tinha chances de existir até o médico avistar meu bingolim. Patrícia, isso tudo é culpa da indeterminância quântica e do paradoxo do observador, não minha. Gosto de pensar que em um dos zilhões de mundos paralelos, há uma Terra onde absolutamente todos os gametas que perderam na nossa realidade venceram a derradeira corrida ao óvulo lá. Lá eu seria Patrícia, uma mulher independente e bem sucedida, livre das expectativas colocadas sobre o pobre Ricardo.
Como a maioria dos homens diz, em desespero auto-afirmativo de potência sexual: "se eu nascesse mulher, seria uma biscate." É um medo quase homófobo que aflige os héteros. Sinceramente acho que eu teria uma fase biscate na adolescência. Mas na fase adulta o relógio biológico teria apitado e a tal Paty Galinha já estaria com o facho em fogo brando, dois filhos e algumas pós-graduações esquecidas na gaveta.
Talvez imaginar como seria nascer e crescer com outro sexo mereça um exercício. Na Terra X as coisas seriam bem diferentes. Georgina W. Bush não seria presidente dos Estados Unidos e poderia imergir tranqüila e anonimamente em seu alcoolismo crônico; Ernesta Hemingway não teria se matado; e Luísa Inácia da Silva não teria barba, claro. Ou, ir mais longe e imaginar um capitalismo matriarcal, onde todos emprestam dinheiro e nunca mais querem receber de volta, como fazem as mães. Em uma realidade onde a mulher toma o lugar do homem, certas torturas seriam um colírio.
A Primeira Guerra Mundial teria adiantado o advento da televisão, eletrodoméstico essencial para transmitir as famosas lutas na lama entre alemãs e francesinhas. A corrida para o Oeste teria sido um festival de seios branquinhos balançando ao sabor dos solavancos dos carroções e galopes. Os conflitos no Oriente médio seriam resolvidos entre um puxão de burca e um amasso no laquê. Teríamos um exército de amazonas, as paradas militares voltariam a ser a festa cívica mais esperada do ano. Jogos de futebol com as pernas mais depiladas de que se tem notícia explodiriam a audiência, mas ainda assim o esporte nacional brasileiro seria o sumô. Enquanto isso, em casa, os homens fariam churrascos sangrentos com os vizinhos no lugar do chá das cinco. Ah, a utopia.
Me dei ao trabalho de fazer uma rápida pesquisa sobre como outras pessoas teriam se chamado caso nascessem com outro sexo. Minha namorada seria o Samir. Meu melhor amigo, Elaine. Um famoso dj seria a Mariluci, meu editor seria a Simone e eu teria três irmãos mais velhos chamados Ricardo.