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06/04/2006

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As meninas que hoje estão perto dos 30 anos devem se lembrar da loucura que era ganhar uma matriochka (bonequinha russa), daquelas de madeira, que você vai abrindo e tirando outras de dentro, até encontrar uma bem pequenininha, quase do tamanho de uma unha. No fim dos anos 70 e começo dos 80 era bem difícil trazer coisas de fora do Brasil e eu nunca consegui ganhar a minha. É daí que vem o fascínio com que recebi a notícia de que a continuação do adorável Albergue Espanhol (2002) iria se chamar Bonecas Russas. A espera pela nova fita foi equivalente à da infância: exibida na Mostra do Rio no ano passado, chega aos cinemas paulistas mais de meio ano depois. Mas vale à pena, acredite!

Também perto dos 30 anos estão os personagens do primeiro filme, que já não moram juntos em Barcelona. De volta a Paris, Xavier (Romain Duris) tenta vencer como escritor e, enquanto não encontra a história perfeita para o seu romance definitivo, encara roteiros de telefilmes melosos e reportagens insípidas como free-lancer. Ele ainda é muito amigo da ex-namorada Martine (Audrey Tatou) que, por sua vez, continua insuportavelmente chata. Outra amizade dos tempos de intercâmbio também permanece: a de Isabelle (Cécile De France), que está ainda mais sedutora e cheia de namoradas e com quem o protagonista vai voltar a dividir a casa. Eles chegaram àquela idade fatídica em que cada passo é marcado pela autocensura e pela incômoda desconfiança de ter se transformado em fracasso.

Quando tudo está perto de desmoronar, a salvação parte de um encontro com aquele que seria o último a ser procurado: William (Kevin Bishop), o irmão da inglesa Wendy, que vivia de atormentar a todos com suas piadinhas preconceituosas e estereótipos sobre estrangeiros. À caminho de São Petersburgo, é ele quem irá reconectar os antigos amigos — colocando alguns para trabalhar juntos e levando todos, meses depois, para seu casamento com uma bailarina russa.

O reencontro pega cada personagem no meio de mais uma busca. Agora não mais a de quem se quer ser, mas sim a do que se quer conquistar – no amor ou no trabalho. Para o diretor Cédric Klapisch, essa longa jornada à procura de si mesmo e da cara-metade equivale à das garotinhas que, uma após a outra, abrem suas matriochkas na ansiedade de encontrar a última, a definitiva, a que é ao mesmo tempo tão pequena e tão perfeita.
 
Albergue Espanhol se dizia um “filme sobre decolagem”. Talvez por isso boa parte das pessoas vá preferi-lo a este segundo, que seria o equivalente ao período de um vôo que é marcado pelo que os comandantes costumam anunciar como “velocidade de cruzeiro”. Nesse estágio já não existe mais a excitação que acelera a cada minuto e que culmina com a saída do chão. Ao atingir a velocidade de cruzeiro, alcança-se também o trecho da vida em que rareiam os efeitos especiais. É difícil, em meio à briga para fazer emplacar um trabalho e às dúvidas quanto à sua capacidade de encontrar o grande amor, se sentir mais feliz e interessante do que no ano vivido na Espanha, numa casa lotada de amigos bacanas e com o futuro inteiro pela frente.

O mérito de Bonecas Russas, no entanto, é provar que, ainda que a maioria de nós ainda viva preso a uma lógica dos tempos de criança — projetando o auge da própria felicidade para um ponto no futuro que parece distante, mas não muito —, também existem aqueles que se negam a tentar abrir a bonequinha para ver se existe uma outra dentro. Simplesmente porque ali, naquele momento, ela é perfeitinha demais para que nos livremos dela.



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  Comentários
 eduardo 10/04/2006 - 10:45:48 
 http://dudu.oliva.blog.uol.com.br
Eu viO ALBERGUE ESPANHOl, achei interessante. Fala sobre juventude sem ser bobo.


 Bonadio 10/04/2006 - 17:32:28 
O texto é excelente. Mas o seu final não. é meio ilegível. o que, afinal, quer dizer este último parágrafo?

 Camie Guimaraes 10/04/2006 - 17:57:10 
Oi Bonadio,
Quis dizer que, apesar de o filme passar a maior parte do tempo mostrando personagens que acreditam que a felicidade está no amor que eles ainda não viveram / no romance que ainda irão escrever (como crianças que têm certeza de que a felicidade suprema virá quando chegarem à primeira série, e depois à quinta, e depois à faculdade...), no final ele mostra que também existe um momento em que essa busca deixa de fazer sentido, simplesmente porque se encontra alguém que – mesmo imperfeito – é bom demais para ser “testado”. Aludindo (meio mal, admito) à metafóra da matriochka, entendo que seria equivalente a dar de cara com uma bonequinha de que se goste muito e, por essa razão, desistir de tentar abri-la para ver se existem outras dentro. É se dar por satisfeito com o que tem nas mãos e aprender a conviver com um defeitinho aqui e outro ali que ela venha a ter...
Espero que tenha conseguido esclarecer. Abs,

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