DISPAROS DO FRONT DA CULTURA POP
Por Danilo Corci
21/09/2005
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Parsons: texto implacável |
Você já ouviu falar em Tony Parsons? Além de um escritor de relativo sucesso comercial na Inglaterra, ele também tem um posto cativo no Daily Mirror, um dos tablóides mais vendidos na terra da Rainha - sim, aquele que acabou de publicar as fotos da modelo Kate Moss cheirando pó em uma festa em Nova York.
Com livros como Pai e Filho e Marido e Mulher, ambos da editora GMT, Parsons mostra seu lado de ficcionista. Mas é com Disparos do Front da Cultura Pop (editora Barracuda, 360 págs, R$ 39, em média), que a verdadeira face do autor é desvelada.
Disparo na agulha
Trata-se de uma compilação de seus melhores textos jornalísticos de 1976 a 1994, época em que militava nas redações de jornais como New Music Express, revistas como Elle e Vogue. 55 textos dividem-se em cinco seções - Música, Amor e Sexo, Polêmica, Viagens e Cultura. Nelas, uma amostragem da cultura pop das últimas três décadas.
Parsons, além de tudo, é um dos mais importantes jornalistas musicais de todos os tempos - em especial da era da indústria cultural como uma máquina de fazer modas. Por isso, qualquer aprendiz de repórter ou crítico musical deve debruçar-se metodicamente sobre este livro.
Porém, não pense que se trata de uma obra para público específico. Longe disto. A primeira seção - Música - é uma deliciosa incursão ao universo das canções e das pessoas que as fazem. Impossível não sentir um arrepio ao ler as entrevistas que Parsons fez com o The Clash enquanto esperavam um trem em Londres. Ou a cobertura da apresentação do Sex Pistols no dia da Rainha, que acabou em pancadaria, no melhor estilo punk rock. Mais. A imperdível entrevista com David Bowie, que revela sua homossexualidade no período de Ziggy Stardust e os motivos de seus olhos terem colorações distintas. Todas são reportagens com tino de fã e execução profissional. Afinal, que pensar de alguém que dispara na agulha para George Michael, em época de estrelato gigante, se ele realmente era um cretino ou não?
Explosão onírica
Apesar de negar, Parsons é um legítimo filho do jornalismo gonzo - mais para Tom Wolfe do que para Hunter S. Thompson. As demais quatro seções do livro provam isto. E é justamente ai que o livro perde um pouco do vigor. No cenário Amor e Sexo, chega a ser constrangedora alguma defesa de idéia. Em Polêmicas, o lado envelhecido do autor dá suas caras - como seu rosário antitatuagem, por exemplo. Em Viagens e na também ótima Cultura, aquele jornalista musical parece emergir da poeira novamente, em especial na matéria sobre Laranja Mecânica, o que dá um fecho satírico ao livro.
Mesmo que as demais seções não acompanhem a explosão onírica de Música, Disparos do Front da Cultura Pop vale cada centavo do seu preço. Em um país onde o jornalismo musical é pautado pela camaradagem absoluta, ler textos de Parsons, mesmo que com quase trinta anos de defasagem, é algo que cai como uma bomba para os apreciadores do bom rock n' roll - e música pop.