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POR DENTRO DA FILOSOFIA DO PUNK
Por Renato Roschel
15/07/2005

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Capa da edição original do livro

A estreante editora paulista, Radical Livros, lançou o que se pode chamar de obra obrigatória para aqueles que têm algum interesse na cena punk, seja ela paulista, londrina, norte-americana ou de qualquer outro lugar.

O livro A Filosofia do Punk - Mais do que Barulho, escrito por Craig O`Hara, um punk dos EUA, foi lançado em 1992 naquele país, chega ao Brasil com uma edição cuidadosa e bem trabalhada, pois traz índice remissivo, glossário, bibliografia e discografia, os quais não existiam na edição original.

A revista Speculum entrevistou o autor do livro Craig O`Hara, e o que ele nos conta é que o movimento punk, nos dias de hoje, vai muito além de uma mera cena musical. Para O`Hara, a atual cena punk é um painel abrangente, cheio de grupos idiossincráticos, cada qual com sua forma de organização, suas crenças e convicções.

Speculum: Você acredita que o movimento punk seja possível em uma sociedade capitalista?
Craig O'Hara: Se isso não fosse possível nós não estaríamos aqui conversando. O movimento punk em um país capitalista como os EUA tem historicamente atuado de forma contrária a este sistema. Nós fazemos coisas que estão fora das práticas do mercado capitalista. Primeiramente, porque o punk é um movimento DIY (Dot it Yourself, "Faça Você Mesmo"), construído a partir de um pensamento crítico produzido por músicos, artistas, pessoas que se encaixam na ordem estabelecida, malucos e fãs que entendem a "cultura" capitalista como algo feito sempre a partir de um entediante e falso denominador comum. O capitalismo pode colocar um rosto alegre em um pedaço de merda e vendê-lo, porém a merda continuará sendo merda e continuará fedendo. Depois que a MTV tornou a música punk mais acessível, com bandas vendendo milhares de cds, o verdadeiro punk ficou cada vez mais underground. O capitalismo quer vender tudo, colocar um preço, um valor em tudo, até na vida humana. O punk é contra a mercantilização da vida e das criações humanas. Uma recente matéria de jornal informou que as famílias dos stockbrokers [corretores de ações] mortos no 11 de setembro _atentado que derrubou as torres do World Trade Center, em Nova York, em 2001_ (os "pequenos Eichmann‘s" da economia norte-americana) receberam milhões de dólares de indenização enquanto as famílias dos soldados norte-americanos mortos no Iraque recebem apenas $12.000 dólares.

S: Você poderia explicar o que é a filosofia do "Faça Você Mesmo" (DIY philosophy)"?
CO: O "Faça Você Mesmo" existe por duas razões: em primeiro lugar porque ninguém vai fazê-lo por você. Quando o punk começou a se desenvolver nos EUA, e também em São Paulo/ABC, com bandas como Olho Seco, Cólera, Ratos de Porão etc, não havia literalmente nenhuma outra saída para quem queria fazer música punk, divulgar seus Lps, tocar em casas de espetáculo senão fosse feito por conta própria. Não havia como fazer o jornalismo cultural da época dar a devida atenção à cena punk. Por isso tudo teve de ser feito com fazines e shows organizados e custeados pelos próprios punks, na rua se fosse preciso. Em segundo lugar, a postura do "Faça Você Mesmo" dá força ao movimento, pois quando você tira a bunda da cadeira e começa a fazer as coisas por sua própria conta, você percebe que não há nenhuma "fórmula mágica" para fazer o que as gravadoras, as revistas, os estilistas e os músicos fazem. Basta criar coragem e fazê-lo. Obviamente, esta postura acabou nos empurrando para além do movimento punk. Há caras aqui nos EUA que fazem até a sua própria cerveja; que participam de campanhas como Food Not Bombs (Comida não Bombas); que contribuem, como leitores ou mesmo produtores, para uma mídia alternativa; que lutam por uma educação que esteja além desta que as instituições de ensino oferecem, aprendendo assim coisas sobre saúde da mulher, movimento dos sem-teto, problemas com as drogas, ou seja, todos os tipos de problemas que as instituições oficiais de ensino e a mídia ignoram ou não tratam com profundidade.

S: E o que são os "grass roots"e como eles ocorrem?
CO: Nós somos os "grass roots" e nossa força está nos enfrentamentos que temos diariamente com os aparatos do Estado. Nós, os "grass roots", somos a maioria e estamos em todos os lugares. Lutamos contra a força desta mais pequena entre as pequenas minorias do mundo: a minoria rica que serve ao capitalismo e que tem em suas mãos o poder de destruir uma boa parte do planeta. Eles precisam de nós, mas nós não precisamos deles e, na verdade, nos viveríamos muito bem sem eles. Mudanças e movimentos ocorrem e estão ocorrendo todos os dias em todos os níveis e elas são nossa única saída. Elas não precisam de políticos profissionais para acontecer, elas precisam de pessoas dispostas a discutir os problemas em conjunto e trabalhar em conjunto para mudar a sociedade para melhor. Porém, as mudanças propostas pelos "grass roots" são sempre as mais difíceis porque os governos não querem que o povo seja seu próprio condutor, mas é só com os "grass roots" que a verdadeira mudança pode ocorrer. É como disse Joey Shithead da banda DOA: "debate menos ação igual a zero".

S: Os Sex Pistols diziam: "não há futuro". Na sua opinião, há um futuro?
CO: Claro que há um futuro! Sempre haverá esperança e a necessidade não apenas para um "futuro", mas para um futuro melhor. Porém, o futuro (e o presente) que nos oferecem são determinados por regras, por militares, por policiais (homens ou mulheres) e por uma espécie de cultura da passividade. Contudo, isso não é o suficiente para fazer com que os otimistas desistam, encolham ou aceitem tudo passivamente, como se estivessem se auto-sedando. O futuro pode ser diferente. E isso que propõem eventos como o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre (RS). Manifestações de desempregados, recusa a produtos geneticamente alterados, esforços para criar uma mídia alternativa e produzir entretenimento e estruturas sociais que estimulem a criatividade e a cooperação entre as pessoas.

S: Por que um movimento que, segundo seu livro, está ligado à luta pelos direitos das mulheres, dos gays e é contrário a qualquer tipo de racismo é tido por boa parte da mídia como racista, violento e homofóbico? O que causa esta confusão? O movimento punk é violento?
CO: Eu não penso o punk como um movimento violento. Talvez o visual diferente, a música rápida e alta, a raiva e o sarcasmo das letras e a honestidade nua e crua do punk sejam coisas com as quais a mídia do ‘politicamente correto‘ tenha dificuldade em lidar. O punk nunca foi um lugar para pessoas bem comportadas e de moral puritana. Se você pega uma postura radicalmente contrária ao governo, aos racistas, aos policiais, às autoridades em geral, soma isso à ácida crítica que os punks fazem à maçante cultura pop e coloca ainda a volúpia da mídia em retratar o movimento como algo raivoso e assustador, pode ser que isso cause a errada impressão de que nós sejamos violentos. Para aqueles que, de certa forma, defendem a cultura de massa e o status quo que nos empurram goela abaixo, os punks, com a sua honestidade e a sua rejeição às autoridades, representam certamente uma ameaça.



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  Comentários
 Rodrigo pereira 22/07/2005 - 10:21:33 
muito interessante esse livro, ainda mais pq a literatura punk no Brasil, infelizmente é muito escassa, acredito que não há muito interesse das editoras, mas, como sempre foi, o punk nunca procurou a mídia, muito pelo contrário, se hj o punk é conhecido no mundo todo, foi justamente a mídia que procurou, apesar das deturpações etc...
Bem, tenho um projeto de um livro, q espero lançar no ano que vem. É um documentário sobre o movimento punk de SP, seria como o mate-me por favor versão brasileira, onde vão constar vários depoimentos de punks do começo dos anos 80 até o movimento de hj...é um projeto sério e detalhado...estamos providenciando depoimentos até de jello Biafra, Nina Hagen e punks da Finlândia para comentarem sobre o punk de SP...Se puderem, mandem contato para mim...o livro vai ser escrito por mim e meu irmão gêmeo, dois punks sempre engajados no movimento...agora vamos trabalhar pra que esse projeto esteja em suas mãos....Rodrigo....

 reginaldo almeida 14/01/2006 - 23:24:43 
bom saber que escreveram um livro sobre o Punk com este título.Tenho 36 anos e sou punk desde os 15 e ja cheguei a pensar que não fazia mais sentido ser Punk com o movimento tão enfraquecido,depois dos anos 80,mas fui percebendo que o punk ,muito mais que um ´movimento cultural/musical é uma filosofia de vida.Punk é punk,com ou sem movimento. A filosofia PUNK vive e sera sempre atual. QUANTO AOS PUNKS QUE DESISTIRAM : F O D A M - S E !!!

 Elizeu Maoel da Cunha 13/10/2006 - 13:19:29 
 http://pop
Vai mais além do que cultura a funcionabilidfade ideológica e cultural do punk. Tudo aquilo que aprendemos fica fora de um contraste social já rebuscado, não é apenas o faça você mesmo que conta e sim também a visão dimensionada de mundo. Na Inglaterra foram filhos de operários insatisfeitos com a vida miseravel de seus pais e a invasão de estrsngeiros em seu pais tanto que quando o movimento punk se tornou tolerante com os mesmos deixando a xenofobia de lado, formou-se o contra movimento punk chamado de movimento skinheade,. isso vai além de meia duzia de intelectuais, sexpistols ou mesmo Malcom Mac Lare, Vai além da coisa da cultra pop, e ainda além de nossa van filosofia punk e porrada, e muita atitude no inicio inconsequente e hoje modista.


 alexandre 28/11/2008 - 21:25:30 
é isso ai punk não é violencia mais atitude

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