WILL EISNER (1917 - 2005)
Por Dark Marcos
07/01/2005
William Erwing Eisner nasceu em 06 de março de 1917, em Nova York . Filho de imigrantes judeus, cresceu juntamente de seu irmão e irmã nas vizinhanças do Bronx e Brooklyn , naquela cidade. Vizinhança essa que não só mostrava bem a pobreza do local, mas onde o martelo da crise econômica causada pela Grande Depressão foi bem cruel. O jovem Will , no entanto, nunca foi de cruzar os braços diante das dificuldades (na verdade, dava a impressão que nem mesmo se importava com elas), indo logo cedo vender jornais nas esquinas de Wall Street para ajudar sua família.
Depois de estudar em escolas nas imediações de seu local de nascimento, continuou na DeWitt Clinton High School , onde começara a desenvolver seus interesses (e talento) por obras literárias e artísticas. Foi lá também que conheceu seu grande amigo que se tornaria uma lenda tão importante quanto ele: Bob Kane , futuramente conhecido por ser um dos criadores do personagem Batman . Juntos, já se aventuravam pelo mundo editorial publicando o jornal da escola.
Para Eisner , já estava mais do que claro que as artes eram o alvo de sua vocação. Cursou em seguida a New York Art Students League e começou a fazer ilustrações para uma agência publicitária.
Em 1936 entraria finalmente para o mundo dos quadrinhos. Foi quando conheceu Samuel Jerry Iger , que lhe deu a chance de desenhar para a revista Wow . Eisner não só era um talento escrevendo e desenhando, mas tinha grandes idéias em relação aos projetos que lidava. Mostrava seu talento nas aventuras do Capitão Scott Dalton ... assinando como Eisner . Mostrava seu talento nas aventuras de piratas conhecidas como The Flame ... assinando como Erwin (seu nome do meio). Mostrava seu talento nas aventuras do agente secreto Harry Karry ... assinando como Bill Rensie (Bill , assim como Will , é uma espécie de apelido para William e Rensie é Eisner ao contrário). Qual a intenção disso? Dar a impressão de que o local em que trabalhava era maior do que se imaginava, parecendo que haviam mais desenhistas no local. Parece picaretagem, mas o mérito maior estava no fato de que apenas Eisner , assinando como vários desenhistas, dava conta sozinho dos prazos e da carga de trabalho.
Essa competência toda levou Iger a chamar Eisner para ser seu sócio em um novo estúdio, fundado em 1937, no qual eram produzidas histórias para várias editoras. Para se ter uma idéia da importância desse pequeno grande estúdio, por lá passaram nomes, até então desconhecidos, que teriam grande importância para o desenvolvimento da indústria de quadrinhos: Bob Kane , Lou Fine e Jack Kirby , só para citar o começo de tudo.
Era uma época áurea para os quadrinhos. O Super Homem acabava de ser criado e revistas em quadrinhos, mesmo em tempo de crise, pareciam ser um negócio a prosperar. Eisner não se contentava em ser mais um a perceber isso. Sempre quis ir além. Conseguiu convencer seu sócio a exportar os quadrinhos produzidos pelo estúdio para países da Europa e da América Latina . Nem é preciso citar que a idéia, para a época, era por demais ousada. Mas acabou dando certo (e muitos lucros) com a ajuda de Joshua Powers . Nesse pacote, Eisner fez sucesso na Europa com o Gavião dos Mares , uma aventura ao estilo dos filmes de piratas estrelados por Errol Flyn que, inclusive, era publicada na revista americana Features Funnies .
Em 1938, no primeiro número da revista Jumbo Comics , Eisner criaria Sheena , a Rainha das Selvas , aproveitando o sucesso de Tarzan (afinal era uma versão feminina deste). Ainda não havia perdido a mania de assinar como outro desenhista, sendo que aqui seu nome aparece como Mort Meskin .
Ainda criaria personagens como Sr Místico , K51 (espionagem para a revista Red Dexter ), Muss'Em Up Donovan (um personagem ao estilo justiceiro para a Funny Pages ), The Brother Three (para a Amazing Mystery Funnies ), Black Ace (para a Feature Comics ), o western Wild Tex Martin e, um de seus personagens que até os dias de hoje fazem sucesso, Falcão Negro - uma espécie de GI Joe daquela época, publicado na revista Military Comics , desenhado por Chuck Cuidera .
Em 1939 fez trabalhos para Gill Fox , para ao qual criou Wonder Man para a revista Wonder Comics . Começava seu flerte também com a editora Quality onde criaria o diminuto super herói Doll Man .
Entre 1939 e 1940, Eisner partiria definitivamente para a Quality , deixando a sociedade com Iger , que partiu para a Fiction House . Levando alguns de seus companheiros de estúdio para essa nova empreitada, criou personagens que se tornaram lendas como Black Condor (em parceria com Lou Fine , para a revista Crack Comics ), o personagem Tio Sam para a National Comics , The Ray (para a Smash Comics ) além de Lady Luck e levar seu personagem Senhor Místico (Mister Mystic , no original) para a nova editora.
Entre 1940 e 1941 criaria o personagem que seria meio que sinônimo de seus trabalhos (e, bem verdade, era como se fosse um alter ego de Eisner ): The Spirit . O personagem surgiu para ser publicado em uma revista dominical, que saía dentro de um jornal. Como não era uma revista do personagem, mas sim uma espécie de seção dentro dela, Eisner resolveu o problema de dar-lhe uma capa com uma solução peculiar. A primeira página de cada aventura do herói sempre mesclava o logotipo (ou o nome) do personagem a uma situação que estivesse ocorrendo ou mesmo servindo como cenário para a história. Isso acabou por se tornar uma das características mais belas e criativas já conseguidas com uma história em quadrinhos.
Os cenários de The Spirit tinham muito dos filmes noir da época, mesclados com lembranças da infância pobre de Eisner no Bronx . O personagem era Denny Colt , um justiceiro que se vestia com roupas comuns, tendo como único detalhe super heróico uma minúscula máscara que lhe cobria os olhos. E só! Não haviam parafernálias que o ajudassem e nem mesmo um veículo especial com o qual patrulhava a cidade (como comparação a um Batman , por exemplo). Sua base, curiosamente, ficava dentro de um cemitério onde ainda tinha assistência do garotinho negro conhecido como Ebony White . Era formado por histórias curtas (menos de 10 páginas) onde muitas vezes o herói era um mero coadjuvante da aventura, dando-se sempre mais atenção para a trama que se desenrolava.
Mesmo sendo convocado para a guerra (até meio que por "culpa" de seu talento, aproveitado no exército como ilustrador de histórias para soldados), Eisner não se desligou totalmente de The Spirit . De longe, conseguiu publicar as aventuras do personagem graças aos amigos Jules Feiffer , Lou Fine , Andre LeBlanc , Jack Cole e Wally Wood . Sua participação na Segunda Grande Guerra ainda traria frutos em outras duas guerras: a da Coréia e a do Vietnã , publicando revistas didáticas como Army Motors e P.S. Magazine . Mas, ao voltar da guerra, retomou o traço com The Spirit , continuando até 1952.
Na década de 50, começaria a publicar quadrinhos educacionais e storyboards, o que culminaria com a criação da American Visual Corporation . Fase essa que duraria por cerca de duas décadas. Também faria muitas ilustrações publicitárias, tendo como clientes empresas e associações renomadas como a General Motors e a Socidade de Dentistas nos Estados Unidos .
Entre as décadas de 70 e 80, Eisner ainda se dedicaria a lecionar muitas de suas técnicas na Escola de Arte Visual de New York . Esse período lhe renderia estudos teóricos seríssimos sobre a nona arte. Estudos que foram reunidos em livros como Quadrinhos e Arte Sequencial e Graphic Storytelling and Visual Narrative .
Ainda na década de 70, começaria uma fase que deixaria os quadrinhos de apelo mais comercial de lado. Na verdade, transitaria por um estilo que dava mais seriedade, elevando cada vez mais os quadrinhos a um status de arte (narrativa e visual). Suas obras se tornaram tão importantes como qualquer grande livro da literatura, e se tornariam best-sellers vendidos até os dias de hoje.
Em 1978, apresentou o projeto de quatro contos em quadrinhos conhecido como Um Contrato Com Deus . Apesar dos relutantes editores da época (importante observar que NÃO ERAM editores de quadrinhos) ficarem com um pé atrás em relação aquele material, Eisner conseguiu provar que aquilo não era uma simples históría em quadrinhos. Era um livro como qualquer outro, só que com histórias contadas através de imagens também. Uma espécie de novela gráfica. E foi assim que este termo (graphic novel, em inglês) se tornou comum na história dos quadrinhos, principalmente quando demonstravam obras mais autorais e luxuosas como aquela.
Desde então, Eisner publicou apenas graphic novels, muitas vezes com inspiração em sua experiência de vida. Além de um Contrato com Deus , vimos também Um Sinal do Espaço (única obra colorida de sua carreira, sendo a cor providenciada por Andre LeBlanc ), O Edifício , The Dreamer , o autobiográfico Ao Coração da Tempestade , O Último Dia no Vietnã , Invisible People , Dropsie Avenue , O Nome do Jogo , entre outros, muitos deles publicados pela editora Kitchen Sink .
Entre suas últimas idéias, estava a produção de storyboards para serem adaptadas para a televisão. Infelizmente, esse intento não foi alcançado da forma como Eisner queria, mas o trabalho não foi totalmente perdido. Foi dessa produção que surgiram álbuns como O Cavaleiro Andante (baseado em Dom Quixote , de Cervantes ), A Baleia Branca (baseado em Moby Dick , de Herman Melville ), A Princesa e O Sapo e Sundiata (baseado em uma lenda africana).
Eisner ainda teve tempo, em vida, mais especificamente a partir de 1988, de ver uma espécie de Oscar dos quadrinhos ser criada para premiação de profissionais da área, tendo esse prêmio o seu nome: Eisner Awards . Só não teve a mesma sorte de ver sua última obra publicada, The Plot , onde retrata a perseguição do povo judeu na Rússia. Povo tão bem retratado e tão presente em sua vida quanto seus cenários urbanos.
Mais do que ninguém, o velho e bom Eisner provou que uma imagem vale mais do que mil palavras. Um gesto vale mais do que mil imagens. Uma história contada com o coração vale mais do que mil gestos. Mas uma história de vida como a de sua carreira é algo incomparável.
Em 03 de janeiro de 2005, William Erwing Eisner , carinhosamente conhecido como Will Eisner , aos 87 anos, veio a falecer, em decorrência de uma operação que havia feito no coração. Coração este que trazia um carinho especial (sem nenhum traço de hipocrisia ou politicagem) pelo Brasil.
Declarou certa vez que detestava desenhar a máscarazinha do personagem The Spirit . Um mero detalhe para qualquer leitor (ou não leitor) de quadrinhos. Mas suas obras eram assim. Cheias de detalhes da vida que não notávamos no mundo real. Mas estão lá, deixando sua marca especial mesmo depois que a última página é virada. Assim como foi sua vida...