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Deve sim

set
13

Em algum lugar do tempo e espaço, algum lugar remoto, no limite do frio e do quentinho, onde as coisas realmente devem ter um gosto de realidade mais doce. E descobri que este lugar não deve ser em Barcelona. Esta ficou num passado agora improvável.

De volta

ago
23

Férias acabando, algumas mudanças próximas de acontecer e firme e forte ouvindo bastante coisa nova – e boa. Breve volto a dar mais algumas dicas.

Fecha aspas

jun
26

Ele olhou para aquela enorme profusão de palavras jorradas com certa intensidade. Achou tudo ótimo. Era escrito o que havia sido dito.

Rasgou com displicência aquele manuscrito no amassado caderno quase no fim. Esticou o braço e colocou ao lado. Olhos viram com fluidez. Eram centenas de papéis espalhados. Sua retina capta pequenos fragmentos de cada uma das letras conjugadas que formam palavras.

A certeza vem em forma de ondas: nunca nada é novo. Juras e desejos: nunca nada é novo, estava tudo ali em fragmentos, um autoplágio disfarçado que era usado sem vergonha. Nunca nada é novo. Nem as vírgulas, usadas para dar um suposto novo sentido, eram um refúgio. Nunca nada é novo.

Por muito tempo fingiu ignorar que nunca nada é novo. Conseguiu se entrincheirar o suficiente para que as bombas de letras caíssem ao seu lado sem danos estruturais fortes.

Começou a contar e contar. Eram 1095 nunca nada é novo espalhados. E o número tende a crescer, sabe ele. A certeza de ser um enredo já gasto, que seria dosado e invertido, montado de jeito supostamente diferente, não lhe incomodava. Mas suspirou pensando que nunca nada é novo e que se desse ao trabalho, poderia montar sua história sem grandes surpresas. Afinal, nunca nada é novo.

Preto e branco

jun
17

“A praça estava lotada. Todos vieram para comemorar aquele dia glorioso, o aniversário da cidade, promessa de muitos fogos de artifícios, uma fogueira para esquentar o friozinho, muita alegria, músicas e danças.

Jeremias, o menino que todos sabiam que contava piadas ruins, olhava para os lados e a cada relance de olhar que gravava em sua retina, percebia, pouco a pouco, as coisas empalidecerem, numa fulgaz fuga das cores. Seus olhos começavam a se enquadrarem em tons de cinza. Até o brilhante cachorro rosa da senhora Gutierrez estava igualzinho a tudo o que via depois do desaparecimento: em preto e branco.

Todos tinham aquele tom monocromático. A cidade toda brincava com tons de cinza pode perceber Jeremias. Sua primeira reação era de fazer uma grande piada com aquilo, mas não conseguia achar as palavras corretas para conseguir formular algo engraçado.

Pedro Caballeros ouvindo Jeremias falar uma quantidade enorme de bobagens diz: “Garoto, se você não consegue encontrar inspiração, melhor ficar em silêncio” e logo em seguida ajusta a gravata azul que agora se mostrava em cinza escuro, algo que o deixava particularmente feliz.

Jeremias começou então a cantarolar baixinho.Enquanto todos comemoravam, ele escapuliu rapidamente e começou a pensar como algo assim poderia acontecer, como detalhes reais passam a aparecer, pequenas reentrâncias de verdades, mentiras, desejos e medos ficam gravados em mais escuros ou mais claros. Era bom saber tudo com mais realismo quando as cores finalmente ficam pálidas.”

Brincando com o mágico

abr
13

O caminho, esse, em quadros de variadas cores, se mostrava pequenas utilidades de diversas possibilidades. Havia cores demais para serem apontadas e funcionava tudo como uma interessante brincadeira de está comigo, comigo não está mais. Em passos resolutos de prever o futuro, o jovem movimentava-se encantado com aquela diversidade, vendo pequenos flashes e momentos embutidos em cada um deles. Haveria mesmo infinitas possibilidades? Quando mais olhava, mais brilhava seus olhinhos de fuinha pronto para devorar. Havia um cheiro de desafio no ar, desafio perigoso, daqueles que clamam por tapas doloridos, sinônimo de quem ainda não viu de tudo. Lá ou cá, o jovem só sabia de uma coisa, de frase feita de biscoito da sorte brinde: tome cuidado com o que deseja porque quando a hora chegar, você pode se perder porque vai ser mais do que você poderia imaginar. Sua pequena vida minúscula sabia disso, mas manteve o sorriso, como um anglófono sussurando eu te disse, eu te disse.

O infinito de cores o engolfava. Pulava os quadrados olhando cada detalhe, reflexos, espelhos que voltam seculares verdades. Em qual deles deveria mergulhar? Quem saberia, todos pareciam possíveis, tangíveis, mas, acima de tudo, fascinantes como uma compota de melado com mel. Andava mais um pouco, joelho amoleceu, virou pasta cozida com dose cavalar de calor. Escorreu, se ergueu. Mais dois passos, o treme-treme voltou. Ah? Segurou e continuou andando. Alegria de pobre bastardo. Logo ali, ali mesmo, o quadrado-cor tornou-se buraco que engolfou. Seja o que tivesse ali, o jovem continuava a sorrir porque já sabia.

- Eu te disse, falou o mágico.
- Não, não.
- Disse sim.
- Não, não.
- Coloridos mil.
- Não, não.
- Não?
- Não. Duas cores. Vermelho e rosa.
- Ah, quer decifrar?
- Não preciso, eu já sei.
- Sabe?
- Sei.
- Como?
- Não digo.
- Por quê?
- Porque não necessita, a graça está nisso, muitas vezes, mas nem sempre. Mas sabe aquela quietude? Ela diz mais do que se imagina e de lá vem vermelho e rosa. Se você procurar pequenas pistas, verá isso claramente.
- Arrá, você faz jogos de palavras e pensa que me engana, logo eu, o mágico?
- Não.
- Você gosta desta palavra.
- A negativa? Não.
- O mágico aqui sou eu, então vamos mudar isso.
- Agora eu digo sim, sempre.
- Quer desafio?
- Tsc, tsc, tsc. Você sempre fala demais. Eu já joguei com o demônio e ganhei.
- Mas ele virou borboleta.
- É, dá medo, não? Pobre medo eterno. Mas isso faz meus olhos brilharem.
- É pouco.
- É?
- Sim.
- Agora você me pegou…
- Por isso eu te desafio.
- Ok. Você já fez isso uma vez.
- Sim, mas teve frescura demais.
- Não.
- Teve sim, excesso de frescuras.
- Não, não e de novo não.
- Ah, prolixo e louco.
- Não, mágico.
- Vai encarar o desafio?
- Com os seus coloridos de vermelho e rosa?
- É.
- Eu gosto mesmo de mágicos. Por incrível que pareça, podemos passar uma vida toda sem conhecer um – talvez só pela televisão, cinema, mas daí num conta muito, né?
- Pare de divagações.
- Já parei.
- Então?
- Então é isso. Ah, só por dizer porque no final não faz diferença mesmo, você pode até tentar impedir, mas não vai conseguir. Eu costumo usar truques sujos de telecatch barato.
- Acho que já sei, mas eu sou mágico.
- Isso eu também sei. A propósito, me faz um favor?
- Talvez. Pode ser, vai.
- Então, eu já te falei eu te disse uma vez e você alegou excesso de frescura. Não me deixe dizer isso outra vez.