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O futuro da música instrumental

out
6

Se você quer saber o que vai acontecer com a música instrumental no futuro então ouça TYFT e Big Air. Ambos estão entre o que há de mais criativo e novo no cenário musical europeu. Ouvi-los é dar um passo à frente, em direção à música das próximas décadas.

TYFT é um trio liderado pelo guitarrista islandês Hilmar Jensson. É uma verdadeira paulada sonora. Apesar de ótimos, eles ainda são desconhecidos por boa parte da grande mídia, principalmente fora da Europa. Isso mesmo depois do disco Meg Nem Sa, de 2006, ter sido aclamado pela crítica especializada como um dos melhores trabalhos de jazz rock desta década. Para quem é surpreendido pelo som da banda (como eu fui), o TYTF acaba demostrando que a música não tem limites e sempre vai ser capaz de se transformar em algo inovador, difícil de nomear.

Formado por Hilmar Jensson nas guitarras e na programação dos sons eletrônicos, Jim Black na bateria e o multi-instrumentista Andrew D’Angelo, o TYFT é um som novo que está no imenso espaço existente entre o jazz e o rock. Difícil de enquadrar, ótimo de ouvir.

O pessoal do TYFT toca junto desde os tempos de escola de música, em Berklee, nos Estados Unidos. Apesar de se conhecerem há tanto tempo, o grupo só se formou recentemente. Mais experientes, os músicos foram então capazes de levar muitas inovações para as composições. Jensson, que não é um guitarrista muito chegado ao uso de acordes, é um fera em criar riffs e usa um laptop para gerar sons enquanto a banda toca.

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O pop irlandês do Dark Room Notes

set
20

Não há muitas dúvidas que a Irlanda é um país cheio de nuances, onde a predominância do verde parece refletir numa produção cultural criativa e sem medo de riscos. É de lá que, ultimamente, várias bandas dos mais variados estilos tem despontando e chamado bastante a atenção.

Um dos casos mais recentes é o Dark Room Notes. Formado em Galway, em 2004, por Ronan Gaughan, Ruari Ferrie, Ruairi Cavanagh – mais tarde substituído por Arran Murphy – e Darragh Shanahan, a banda faz o que pouca gente ainda acharia possível ser feito em pleno anos 00: um synthpop da melhor qualidade.

Depois da formação e de alguns anos se preparando, em 2007 lançaram o EP “Dead star program”, chamando a atenção na cena local. Mas com We love you dark matter, de 2009, finalmente capturaram a atenção ampla, em especial na Europa continental.

As canções do álbum, em especial “Love like nicotine”, parecem prontas para tocar em clubes e agitar qualquer alma perdida no lugar. Por usarem e abusarem de sintetizadores e vocais empostados, estão sendo comparados ao Interpol e, claro, ao Joy Division. Nada poderia ser mais distante. O Dark Room Notes está muito mais para Gary Numan do que para o jeito soturno. E isso é ótimo, não se engane.

Para saber um pouco mais da banda, conversei, via e-mail, com Ruairi Ferrie. A entrevista você lê abaixo.

Speculum: Como vocês começaram?
Ruairi Ferrie: Éramos adolescentes e tínhamos uma banda de grunge, o que não durou muito. Descobrimos que os sintetizadores faziam sons muito mais interessantes do que guitarras. E que os computadores faziam um som ainda melhor. Eu e Ronan nos juntamos com Arran há cinco anos para formar a banda e Darragh está com a gente há três. O resto é história.

A entrevista completa você lê aqui.

A lenda de Seasick Steve

set
13

A vida de Steve Gene Wold, também conhecido por Seasick Steve, é a história de um sem-teto com final feliz. Olhando de longe, parece até um quadro do sempre péssimo Programa do Gugu, mas não é. Hoje, Seasick, que já sobreviveu comendo restos de comida que ele encontrava em latas de lixo, é um dos nomes mais badalados da música no Reino Unido. E você, meu caro leitor, pode imaginar que o caminho de Steve até aqui deve ter sido difícil. E foi. Esse veterano do blues só gravou seu primeiro CD, Dog House Music, em 2006, quando já contava sessenta e poucos anos na cacunda. Porém, agora, tudo mudou. Suas participações em programas de TV, documentários e shows na Europa são cada vez mais constantes. O segredo? Uma história pra lá de interessante contada por uma figura singular que, apesar de ainda não se encaixar, hoje faz parte do badalado mundo pop. Tudo isso embalado pela capacidade musical pra lá de sensacional que Seasick possui.

A incomum trajetória do hoje famoso Steve começa quando, com apenas 14 anos de idade, ele decide fugir de casa. Na verdade, Seasick deixou de morar com sua família depois que seu padastro o atirou pela janela durante uma das costumeiras surras que ocorriam no ambiente familiar completamente destroçado que existia em sua casa. Depois da fuga, Seasick perambulou pelas ruas do interior da Califórnia. Virou sem-teto. Circulou por inúmeros estados norte-americanos. O próprio Steve afirma que nesse tempo ele era um hobo, espécie de andarilho que viaja de trem sem pagar, não tem casa e aceita qualquer tipo de trabalho braçal para arrumar um trocado.

Muitos anos, dezenas de cidades, alguns continentes e muitas prisões por vadiagem depois, Steve se mudou para a Noruega em 2001. Lá, esse homem que vive fora do tempo e do universo alucinado das celebridades, apesar de nos últimos anos sempre ter estado dentro dele, começou a se apresentar em casas noturnas. Seus instrumentos inusitados ― uma guitarra com apenas três cordas e um outro que se parece com uma espécie de monocorde, ou algo do tipo, que ele chama de one string diddley bo’ ―, aliados a sua excelente capacidade de interpretação, o transformaram em sucesso da noite para o dia.

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A bielorrusa Leandra

ago
30

Alguns gêneros musicais tendem a se tornar referência durante uma época e depois se encolhem confortavelmente num nicho que garante sua sobrevivência. É assim com o heavy metal, que tem no Brasil um de seus maiores consumidores enquanto no resto do mundo é praticamente irrelevante. Também é assim com o gótico, de parca repercussão, mas com um séquito grande na Alemanha e leste europeu.

Então quando você pensa numa cantora que nasceu na Bielorrússia, fugiu ainda menina de seu país em pleno colapso da União Soviética para se refugiar na Alemanha, então, com certeza, você está pensando no cerne deste nicho.

Obviamente, o gótico é um estilo caracterizado por excessos, dramas e muita maquiagem. Então Leandra pode ser descrita como um exemplar típico da linhagem. A cantora, que esconde seu verdadeiro nome – faz poesia como Unza Glums e atende por Ophelia Dax quando toca com a banda Jesus on Extasy -, lançou Metamorphine, seu álbum de estreia em 2008, onde onze canções resgatam um jeito de fazer música que andava com crise de criatividade. Não que isso seja algo problemático, afinal ser criativo nunca foi um mérito específico do gótico. Mas Leandra, que lê Carlos Catañeda e Douglas Adams e é professora de piano, além de bem-humorada, conseguiu dar vida ao soturno gênero.

Mas de Leandra não espere a farofa Evanescence, nem Marilyn Manson. Seu jeito de ver o gótico – rótulo que recusa, aliás -, está mais para o Switchblade Symphony do que qualquer outra coisa. Isto é um alento e tanto. Entusiasmado com o disco, aproveitei para fazer uma entrevista com Leandra, via email. O resultado você confere abaixo.

Speculum: Leandra e Ophelia Dax. Qual é a sua verdadeira história?
Leandra: Minhas aparições públicas consistem nas duas (claro que minha vida privada tem muito mais personagens). Leandra é minha parte introvertida que absorve cada coisinha do mundo. A natureza é sua mais intensa inspiração. Ophelia Dax é minha extrovertida, meu rock n’ roll. Ela é vulgar e adora dançar em mesas em todas as festas. Mas a única coisa que elas tem em comum é viver como se não houvesse amanhã.

S: Lendo um pouco sobre você na internet, descobri que você teve uma formação clássica bem sólida em sua infância na Bielorrússia. Como foi isso?
L: Não olho para isso como uma “experiência”. Foi o que vivi. Mas devo dizer que a educação em toda União Soviética foi muito mais restrita e havia muita competição. Você era treinado para ter apenas um objetivo: sucesso e carreira. Não havia festas ou bebedeiras ou coisas do gênero até a formatura! Então os jovens não perdiam o foco e podiam se concentrar para atingir os objetivos. Na Alemanha não é tão restrito e tenho de me segurar durante as aulas. E alguns de meus estudantes realmente precisam ser tratados com muitas regras (risos).

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God is an Astronaut

ago
9

A Irlanda é mesmo uma ilha extremamente peculiar. Terra de grandes literatos, nos últimos trinta anos tornou-se também terra da música, basta citar o U2 como se não o maior, um dos maiores expoentes musicais das últimas décadas.

Além disso, a Irlanda também tem um cenário fervilhantes de novas bandas, dos mais variados estilo, que vai do farofa dos Corrs, ao indie populacho do Cranberries ao synthpop do Dark Room Notes. Um caldeirão de estilos que sempre resulta em hits ou em boas canções. Mas na terra de James Joyce também há um caso peculiar: o God is an Astronaut.

Formado há sete anos pelos irmãos Torsten e Niels Kinsella, o God is an Astronaut é uma banda totalmente instrumental, mas não imagine rock progressivo ou devaneios de guitarra. A banda faz um instrumental de melancolia pura.

A música do God is an Astronaut é pura poesia para quem se atreve a mergulhar nos acordes de qualquer um dos quatro discos já lançados: The end of the beginning (2002), All is violent, all is bright (2005, a obra-prima), Far from refuge (2007) e God is an Astronaut (2008). Canções como “Suicide by star”, de All is violent…, por exemplo, é uma amostra de como um sentimentalismo barato pode ser transposto para a música de maneira inteligente e tocante. Para os poucos que conhecem a banda aqui no Brasil, mergulhar nesta discografia é quase a descoberta de um pote de ouro – e falar disso de uma banda de rock essencialmente instrumental é muito difícil.

Para tentar entender um pouco mais a banda, fiz um bate-papo via email com Niels. O resultado você lê abaixo:

Speculum: Sete anos de carreira e quatro álbuns depois. O que mudou na banda durante este tempo?
Neils Kinsella: Para ser sincero, são oito anos tocando juntos, mas cada um fazia isso há muito tempo. Eu e o Torsten desde 1994. Em 2002 quando lançamos The end of the beginning, nós entendíamos que aquele era nosso ato final no mundo da música, o nosso adeus. Queríamos apenas terminar com um lançamento que estávamos orgulhosos, sem expectativa alguma. Mas funcionou… Hoje a banda continua a mesma, com a mesma prioridade de lançar músicas que amamos e a única coisa que mudou foi que ficamos mais espertos com alguns círculos deste mundo da música.

Entrevista completa aqui.