Posts Tagged ‘poesia’

Retrato

out
28

“Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?”

Cecília Meireles

Das pequenas descobertas: Edmundo de Bettencourt

jan
28

Horas

Gelava o tempo branco do relógio.
Fundiu-se um dia o mostrador
aberto para dentro
num foco por onde as horas negras fugiram enlouquecidas!
Lá para longe na faixa rósea da distância
recuaram ante o incessante alarido dos sinos
e logo regressaram
desesperadamente procurando em vão
o maquinismo do relógio.

Via-se o dia fechado de silêncio
num quadrado de luz amarelada
e de novo preso o pé do jovem
quando ia para sair.

O poeta português Edmundo de Bettencourt (1899 – 1973) foi um dos que sofreram da síndrome de bartleby, ou seja, lançou alguma coisa e depois nunca mais escreveu. Hoje dei um pequena fuçada no material de Poemas surdos e, como esse acima, é espetacular. Googa ai pra ler mais coisa.

Tédio

set
20

Passo pálida e triste. Oiço dizer:
“Que branca que ela é! Parece morta!”
E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
Não tenho um gesto, ou um olhar sequer…

Que diga o mundo e a gente o que quiser!
- O que é que isso me faz? O que me importa?…
O frio que trago dentro gela e corta
Tudo que é sonho e graça na mulher!

O que é que me importa?! Essa tristeza
É menos dor intensa que frieza,
É um tédio profundo de viver!

E é tudo sempre o mesmo, eternamente…
O mesmo lago plácido, dormente…
E os dias, sempre os mesmos, a correr…

Florbela Espanca

I Hear an Army, James Joyce

set
15

I Hear an Army

I hear an army charging upon the land,
And the thunder of horses plunging; foam about their knees:
Arrogant, in black armour,behind them stand,
Disdaining the reins, with fluttering whips, the Charioteers.

They cry into the night their battle name:
I moan in sleep when I hear afar their whirling laughter.
They cleave the gloom of dreams, a blinding flame,
Clanging, clanging upon the heart as upon an anvil.

They come shaking in triumph their long grey hair:
They come out of the sea and run shouting by the shore.
My heart, have you no wisdom thus to despair?
My love, my love, my love, why have you left me alone?

James Joyce

Tradução livre:
Ouço um exército

Ouço um exército atacando sobre a terra,
e o trovão das patadas dos cavalos; espumando até os joelhos:
Arrogantes, em armaduras negras, atrás deles estão,
Desdenhando reinos, com chicotes vibrantes, os Condutores.

Eles bradam na noite o nome de sua batalha:
Eu gemo no sono quando ouço suas risadas em turbilhão à distância.
Eles transpassam as trevas dos sonhos, uma chama cega,
Martelando, martelando no coração como numa bigorna.

Eles vêm balançando em triunfo seus longos cabelos cinzas:
Eles saem do mar e correm gritando pela praia.
Meu coração, você não tem sabedoria para se desesperar?
Meu amor, meu amor, meu amor, por que me deixastes sozinho?

SONETO 760 DA BOLSA ESCROTAL

set
14

Estranho monstro informe, esse Mercado!
A mídia já cunhou-lhe cada termo
que indica quando é são e quando enfermo,
se vai ter um chilique ou sente enfado.

“Eufórico” se diz se está agitado.
“Nervoso” se acha a Bolsa um local ermo.
Jamais tal exagero há de fazer-mo
simpático ou, no mínimo, chegado.

Estou cagando e andando se ele oscila
no “humor”, se anda “otimista” ou se “reage”
ao peido dum magnata ou se outro estrila!

Que foda-se o monstrengo e alguém se engaje
a sério contra o bicho e que repila
seu jogo, mais sacana que um Bocage!

Glauco Matoso