
Alguns gêneros musicais tendem a se tornar referência durante uma época e depois se encolhem confortavelmente num nicho que garante sua sobrevivência. É assim com o heavy metal, que tem no Brasil um de seus maiores consumidores enquanto no resto do mundo é praticamente irrelevante. Também é assim com o gótico, de parca repercussão, mas com um séquito grande na Alemanha e leste europeu.
Então quando você pensa numa cantora que nasceu na Bielorrússia, fugiu ainda menina de seu país em pleno colapso da União Soviética para se refugiar na Alemanha, então, com certeza, você está pensando no cerne deste nicho.
Obviamente, o gótico é um estilo caracterizado por excessos, dramas e muita maquiagem. Então Leandra pode ser descrita como um exemplar típico da linhagem. A cantora, que esconde seu verdadeiro nome – faz poesia como Unza Glums e atende por Ophelia Dax quando toca com a banda Jesus on Extasy -, lançou Metamorphine, seu álbum de estreia em 2008, onde onze canções resgatam um jeito de fazer música que andava com crise de criatividade. Não que isso seja algo problemático, afinal ser criativo nunca foi um mérito específico do gótico. Mas Leandra, que lê Carlos Catañeda e Douglas Adams e é professora de piano, além de bem-humorada, conseguiu dar vida ao soturno gênero.
Mas de Leandra não espere a farofa Evanescence, nem Marilyn Manson. Seu jeito de ver o gótico – rótulo que recusa, aliás -, está mais para o Switchblade Symphony do que qualquer outra coisa. Isto é um alento e tanto. Entusiasmado com o disco, aproveitei para fazer uma entrevista com Leandra, via email. O resultado você confere abaixo.
Speculum: Leandra e Ophelia Dax. Qual é a sua verdadeira história?
Leandra: Minhas aparições públicas consistem nas duas (claro que minha vida privada tem muito mais personagens). Leandra é minha parte introvertida que absorve cada coisinha do mundo. A natureza é sua mais intensa inspiração. Ophelia Dax é minha extrovertida, meu rock n’ roll. Ela é vulgar e adora dançar em mesas em todas as festas. Mas a única coisa que elas tem em comum é viver como se não houvesse amanhã.
S: Lendo um pouco sobre você na internet, descobri que você teve uma formação clássica bem sólida em sua infância na Bielorrússia. Como foi isso?
L: Não olho para isso como uma “experiência”. Foi o que vivi. Mas devo dizer que a educação em toda União Soviética foi muito mais restrita e havia muita competição. Você era treinado para ter apenas um objetivo: sucesso e carreira. Não havia festas ou bebedeiras ou coisas do gênero até a formatura! Então os jovens não perdiam o foco e podiam se concentrar para atingir os objetivos. Na Alemanha não é tão restrito e tenho de me segurar durante as aulas. E alguns de meus estudantes realmente precisam ser tratados com muitas regras (risos).
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