quinta-feira, 25 de junho de 2015

Henri Cartier-Bresson em SP

O evento, um dos principais destaques do Ano da França no Brasil, traz uma extensa programação composta por mostra de 133 fotografias do artista francês, lançamento do livro Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo, uma parceria entre as Edições SESCSP e a Cosac Naify, além da exposição paralela “Bressonianas”, com fotógrafos brasileiros influenciados por Cartier-Bresson, exibição de filmes e debates com pensadores e pesquisadores brasileiros e franceses.

“Tirar fotos é prender a respiração quando todas as faculdades convergem para a realidade fugaz. É organizar rigorosamente as formas visuais percebidas para expressar o seu significado. É pôr numa mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração”.
Henri Cartier-Bresson

Criador de um estilo inconfundível, aclamado como “o olho do século 20”, Henri Cartier-Bresson (1908-2004) deixou sua marca como um dos mais representativos fotógrafos humanistas da história pela forma como conseguiu mostrar enfaticamente a beleza dos gestos mais simples do homem, ao captar cenas de flagrantes pelas ruas do mundo. Cartier-Bresson começou a fotografar efetivamente em 1931 influenciado pelos surrealistas – “não pela pintura deles, mas pela percepção do subconsciente”, explica o coordenador geral do projeto Eder Chiodetto. Sua obra ainda hoje inspira gerações de novos fotógrafos e serve de parâmetro para fotodocumentaristas como os que atuam na Magnum, agência criada por Cartier-Bresson e Robert Capa, além de outros, em 1947.

A exposição Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo, nome retirado de livro homônimo, abriu no dia 17 de setembro e segue até 20 de dezembro.

A mostra de fotografias do artista francês, com curadoria do editor Robert Delpire, inclui imagens realizadas em 23 países durante mais de 50 anos, entre 1926 e 1979 e está organizada em dois espaços da unidade. No térreo, o coordenador do projeto Eder Chiodetto selecionou 40 imagens que enfatizam o caráter da street photography, caracterizados pelos flagrantes de rua onde o acaso, a poesia dos gestos cotidianos, a geometria se justapõem a uma visão surrealista da vida.Por meio desta atitude libertária, que Cartier-Bresson adotou a partir do momento que passou a ver o mundo através do visor de sua primeira câmera Leica, o artista desenvolveu uma maneira original de captar e expressar suas impressões sobre o visível, criando uma linguagem que ainda hoje é referência para muitos fotógrafos. “Tirar fotos é prender a respiração quando todas as faculdades convergem para a realidade fugaz. É organizar rigorosamente as formas visuais percebidas para expressar o seu significado. É pôr numa mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração”. Esta frase define como o fotógrafo percebia a vida através do visor.

No 2º andar, Chiodetto selecionou 93 fotos, das quais a maior parte está agrupada em dois núcleos: “Conflitos” e “Retratos”. No primeiro estão imagens de coberturas fotográficas em eventos históricos como o fim da Segunda Guerra Mundial – durante a qual HCB ficou anos preso num campo de concentração até conseguir fugir – a ascensão do comunismo na China e a morte de Gandhi na Índia, entre outros acontecimentos. Em “Retratos” o público poderá apreciar registros de personalidades, geralmente realizados quando o fotografado se distraia, como o pintor Matisse, o filósofo Roland Barthes e o escritor Truman
Capote, além de outras imagens captadas por ele em viagens pelo mundo. Para Eder Chiodetto “Cartier-Bresson fotografava com o instinto de um caçador que persegue obstinadamente sua presa, com um faro particular para capturar flagrantes. Sua busca incansável era pelo momento em que o universo em harmonia
conspira a favor do artista. Uma fração mínima de tempo em que forma e conteúdo atingem o limite da expressão entre as quatro linhas do retângulo do visor da câmera”.

OS FILMES

No espaço expositivo do térreo haverá a exibição do filme L’Aventure Moderne: Henri Cartier-Bresson [A Aventura Moderna: Henri Cartier-Bresson], em que o diretor Roger Kahane mostra em 29 minutos uma entrevista com o fotógrafo intercalada com cenas raras dele trabalhando em meio à multidão anônima de Paris.
Dirigido pela fotógrafa Sarah Moon, o curta H.C.B. Point d’interrogation? [H.C.B. Ponto de Interrogação?] exibe entrevista o artista em clima de intimidade. Em Contacts: Henri Cartier-Bresson [Contatos: Henri Cartier-Bresson] o editor Robert Delpire apresenta as folhas de contatos dos filmes do fotógrafo desvelando seu processo criterioso de edição. Os filmes terão áudio original em francês e legendas em português.

MOSTRA BRESSONIANAS

Com curadoria de Eder Chiodetto, essa mostra paralela terá 42 imagens de sete fotógrafos brasileiros que assumem em suas obras a influência de Cartier-Bresson. São eles: Cristiano Mascaro, Carlos Moreira, Juan Esteves e Tuca Vieira de São Paulo, Flávio Damm, do Rio de Janeiro, Orlando Azevedo, de Curitiba e Marcelo Buainain, de Natal.“A paixão pelo prosaico e pela fugacidade da vida são marcas profundas da obra bressoniana. Sua investigação não buscava a obtenção de fotografias grandiosas, mas sim, a descoberta da beleza e da delicadeza dos pequenos gestos cotidianos, reveladores da face humana”, define o
curador da mostra Eder Chiodetto, que partiu desta premissa para conceber Bressonianas, que ocupará o espaço expositivo do 3º andar. Uma extensão desta mostra paralela estará exposta na galeria externa do SESC Santana.

O LIVRO

O Livro Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo é a síntese do trabalho deste homem que revolucionou a fotografia. Publicado em 1979, o livro traz 155 fotos selecionadas pelo autor em conjunto com o editor Robert Delpire para representar sua extensa produção. Nele, Cartier-Bresson agrupou as imagens em seis módulos, de forma inesperada e surpreendente. Se em livros anteriores, como Les Danses à Bali (1954), D’une Chine à l’autre (1954) e Vive La France (1970), sua obra era apresentada em recortes temáticos específicos, nesta obra ele abre espaço para a reflexão do leitor, convidado a estabelecer relações inéditas e pessoais sobre as fotos.

O livro Henri Cartier-Bresson:Fotógrafo é uma co-edição das Edições SESCSP e a Cosac Naify e seu lançamento aconteceu no dia 16 de setembro, no SESC Pinheiros. Não por coincidência, a exposição e o livro levam o mesmo nome, pois as 133 fotos que compõem a mostra estão na publicação das Edições SESCSP e Cosac Naify.

PROGRAMAÇÃO INTEGRADA

Uma programação integrada reúne os fotógrafos da mostra Bressonianas, pesquisadores e escritores com o intuito de levantar questões acerca do fotojornalismo contemporâneo. Serão oficinas, bate-papo, relatos, saraus e cursos. Confira a programação completa.

I. O RETRATO

Retratos urbanos
A fotografia e a cidade são os temas principais dessa conversa com o fotógrafo. Com Cristiano Mascaro.
06/11, sexta, às 20h.
Auditório.

II. FOTOJORNALISMO

Fotojornalismo: realidades construídas e ficções documentais Bate-papo com Eder Chiodetto, organizador da exposição e ex-editor do jornal Folha de S.Paulo.
Eder problematiza o atual estágio da fotografia na imprensa sob diversos aspectos, tais como a imposição de um olhar hegemônico, mitos e verdades sobre a manipulação na era da fotografia digital.
27/11, 20h, sexta.
Sala de Leitura/Auditório

Relatos do Submundo: Encontros da Madrugada
Fotojornalistas que batem o cartão após a meia-noite, contam sua experiência de fotografar a cidade durante a madrugada. Durante a conversa, eles mostram algumas imagens que marcaram suas carreiras.Com os fotojornalistas Apu Gones, Flavio Florido, Lawrence Bodner
23/10, sexta, 20h
Sala de Leitura

III. MOMENTOS DE INDECISÃO

A construção da imagem na arte ocidental
Mini-curso sobre os processos históricos de construção de imagem: da pintura ao desenvolvimento da fotografia. Pretende desenvolver uma leitura crítica do universo imagético produzido pela arte ocidental a partir do Renascimento, até o século XIX, momento em que esse gênero se expande da linguagem pictórica
para a fotográfica. Com a professora de história da arte Paula Palhares.
10, 12, 17, 19/11, terça e quinta, das 20h às 22h.
Sala de Oficinas

IV. URBANIDADE

Saída Fotográfica: Av. Paulista
Os participantes da oficina encontram-se no SESC Pinheiros e saem para fotografar o entorno da Av. Paulista. Com o fotógrafo Daniel Kfouri.
24/10, sábado, 10h30.
Internet Livre

Saída Fotográfica: Elevado Costa e Silva
Os participantes da oficina encontram-se no SESC Pinheiros e saem para fotografar a região do Minhocão. Com o fotógrafo Sérgio Barzaghi.
31/10, sábado, 11h
Internet Livre

V. NARRATIVAS BRESSONIANAS

Fotografias literárias
Criação de pequenos contos, poemas e histórias a partir de saídas fotográficas. Com o escritor Samir Mesquita e o fotógrafo Eduardo Muylaert
16, 17 e 18/10, sexta às 20h, sábado e domingo às 11h.
Internet Livre

Sarau Fotográfico
Os escritores Fabrício Carpinejar e Marcelino Freire escolhem trabalhos de Cartier-Bresson e outros fotógrafos, criam poesias e recitam obras conhecidas.
29/10, quinta, 20h.
Sala de Leitura

Crônicas Fotográficas
Com exercícios de percepção e interpretação de imagens, a proposta da oficina é trabalhar a construção de crônicas a partir de fotografias levadas pelos participantes.Com orientação do escritor Fabrício Carpinejar
30/10, sexta, 20h.
Sala de Leitura

Histórias de Elevador
O momento de indecisão no elevador.
Por Samir Mesquita.
De setembro a dezembro, em elevador da Ala Paes Leme

O projeto Henri Cartier-Bresson é destaque do Ano da França no Brasil, que acontece de abril a novembro de 2009, em diversas cidades brasileiras, com o objetivo de estreitar laços entre os dois países. Em São Paulo, o SESC traz uma programação abrangente com espetáculos, shows, palestras e debates nas mais diferentes áreas.

EXPOSIÇÃO
HENRI CARTIER-BRESSON – FOTÓGRAFO
Área de exposições, Térreo e Sala de oficinas, 2º andar
Visitação de 17 de setembro a 20 de dezembro 2009
Ter a sex, das 10h30 às 21h30 | sab, dom e fer, das 10h30 às 18h30
MOSTRA BRESSONIANAS
Área de exposições – 3º andar
Visitação de 17 de setembro a 20 de dezembro 2009
Ter a sex, das 10h30 às 21h30 | sab, dom e fer, das 10h30 às 18h30

Gênesis de Crumb é lançado em SP

Robert Crumb, mestre dos quadrinhos underground e autor de Flitz, the cat, está de volta com um livro que já está sendo falado no mundo todo. Com lançamento mundial para outubro, Gênesis será publicado no Brasil pela Conrad Editora e retrata a primeira parte da Bíblia para a linguagem de quadrinhos mantendo o texto original. Para isso, Crumb foi fundo em suas pesquisas e reproduz aqui, o mais fiel texto bíblico disponível nas livrarias brasileiras. Apesar de nenhum acréscimo, o livro não tem censura, ao contrário do que acontece em várias edições no mercado brasileiro. Existem também algumas cenas de nudez, mas Crumb teve o cuidado de desenhá-las com base na tradicional iconografia cristã, ou seja, ninguém verá no livro o que já não se vê em quadros e murais das paredes do Vaticano.

Ilustrar o Gênesis é um desafio que atraiu muitos artistas do passado como Michelangelo, Dürer, Rembrandt, Chagall e Ilustrar o Gênesis é um desafio que atraiu muitos artistas do passado como Michelangelo, Dürer, Rembrandt, Chagall e outros. Algumas bíblias em forma de quadrinhos chegaram a ser produzidas antes, mas nunca pela mão de um verdadeiro mestre do gênero. Um autor no auge de seu talento cujo trabalho tem sido uma investigação infinita a respeito das diversas camadas secretas que formam o ser humano.

Nesta obra, Robert Crumb põe o Gênesis sob o foco de sua arte, os quadrinhos, e conduz o gênero ao seu mais alto nível, com firmeza, fervor e liberdade – marcas características suas. Sem tirar nada do texto original e também sem incluir esta adaptação sem interpretação se distancia tanto do fanatismo religioso quanto da blasfêmia. A Sagrada Escritura permaneceu intacta e foi enriquecida graças à detalhada e épica adaptação gráfica. Foi dada uma rigorosa e precisa atenção ao detalhe histórico para que surgisse algo convincente e autêntico.

Neste livro, Adão e Eva, Caim, Noé, Abraão, Sara, Isaac, Raquel e a multidão de seus descendentes adquirem fisionomias, peso e uma verdade carnal que fazem com que eles nos surjam como pessoas próximas, os modelos nos quais se funda toda a humanidade. Fortalecido pelo tema da obra, Crumb produz sua magnum opus, um romance gráfico sem equivalentes, ao mesmo tempo íntimo e panorâmico, profundo, belo e inspirador.

Sobre Robert Crumb
Desde que lançou sua revista Zap Comix nas ruas de San Francisco, durante o chamado verão do amor de 1967, Robert Crumb é considerado o pai fundador dos quadrinhos underground. Vindo de publicações alternativas, Crumb rapidamente adquiriu fama mundial, influenciando tudo o que se produziu de importante nos quadrinhos ocidentais dos últimos quarenta anos. Sua lista de fãs inclui artistas tão diversos quanto Moebius, Angeli e Alan Moore. Hoje, inquestionavelmente, é o grande artista do gênero no planeta. Mais do que isso: para muitos, como o crítico Robert Hughes da revista Time, Crumb é o maior artista vivo, de qualquer gênero, no ocidente. Seu trabalho tem sido objeto de exposições em alguns dos principais museus do mundo e tem sido comparado ao de mestres da pintura, como Bosch e Bruegel.

Quando o jazz encontra o flamenco

Uma inusitada e sofisticada mistura de jazz e flamenco, sob comando do mais importante guitarrista brasileiro do gênero, balança as noites de quarta a sexta-feira na Enoteca Saint VinSaint, na Vila Nova Conceição

Reconhecido como o mais importante guitarrista flamenco do Brasil, Tito Gonzales, acompanhado de seu trio, está fazendo história nas noites de quarta a sexta na Enoteca Saint VinSaint, na Vila Nova Conceição. No palco, ao lado do baixista Marcio Bonefon e do acordeonista Luis Fernando, Tito envereda por um caminho para raros, mixando o melodioso sincopado do flamenco ao livre experimentalismo do jazz. O resultado é único – e combina com perfeição aos vinhos e guloseimas servidos na casa.

As performances do trio Flamenco Jazz Group acontecem a partir das 20 horas. O espetáculo, para sorte do apreciador dos bons vinhos e de boa música, conta por vezes até com canjas da sommelier Alexandra Corvo, que já foi bailarina profissional de flamenco em Madri, e tem a presença constante da também sommelier Lis Cereja, diretora da Saint VinSaint.

No repertório, ao lado de clássicos do flamenco e de composições de Tito Gonzales, rolam standards do jazz como Spain, de Chick Corea, Insensatez, de Tom Jobim, e Days Of Winne and Roses, consagrada por Henry Mancini.

Horror, sexo e melodrama para olhos treinados

Um jovem pintor, deprimido com o abandono da mulher, cata detritos que servirão de inspirção para seus quadros. Um dia, em uma de suas visitas regulares ao esgoto que polui o rio onde brincara na infância, encontra uma sereia doente, vítima de enormes feridas que começam a se espalhar sobre o seu corpo. Ele a leva para casa e decide cuidar dela, instalado-a em sua banheira. Em troca, pede apenas para pintá-la. A doença da sereia se agrava. Mas, agradecida pela dedicação do pintor, ela lhe oferece o pus colorido que jorra de suas feridas para que ele termine seus quadros. Quando, após longo sofrimento, a sereia finalmente morre, ele a esquarteja.

Essa história nada convencional faz parte de uma coleção japonesa intitulada Guinea Pig, compilação de vídeos realizados ao longo dos anos 80. Trata-se de uma série de filmes curtos que retratam violências das mais inimagináveis, geralmente contra mulheres. Criticada por ser um veículo para o pior da misoginia oriental, a série também ficou famosa porque alguns de seus episódios foram investigados sob suspeita de serem snuff movies, tal o realismo de diversas cenas. E não era para menos: os vídeos são também o resultado de um curso de maquiagem e efeitos especiais dos mais radicais. Nesse sentido, quanto mais sangue e vísceras apresentassem, melhor.

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Mas Mermaid in a Manhole (no original, Manhoru No Naka No Ningyo), de 1988, dirigido por Hideshi Hino, é um caso a parte. Esse filme ultrapassa de longe, em poesia e inventividade, os outros episódios da série, exibindo uma bela história que se abre às mais diversas interpretações – do surrealismo à memória da bomba atômica, passando pela grande quantidade de libelos ecológicos realizados no Japão, assim como pelas sempre exploradas histórias de corações partidos. Neste artigo, porém, não pretendo oferecer explicações para esse filme, pois grande parte de sua riqueza poética deriva da multiplicidade de possibilidades interpretativas. Que cada um escolha as suas. Minha intenção é defendê-lo como experiência estética legítima, procurando expor argumentos que superem os inúmeros preconceitos freqüentemente ligados a esse tipo de filme.

Em 1991, a pesquisadora californiana Linda Williams lançou um texto intitulado Film Bodies: Gender, Genre and Excess, em que apresenta uma análise de outras obras cinematográficas que se revela oportuna no caso de Mermaid. Segundo Williams, sozinhas ou combinadas, altas doses de sexo, violência e emoção são geralmente diminuídas ou repudiadas por não terem outra lógica ou razão de existir a não ser seu próprio poder de excitação. Cenas de sexo gratuitas, violência gratuita, assim como emoções gratuitas, são freqüentemente descritas como fenômenos sensacionalistas na pornografia, no horror e no melodrama – gêneros aos quais o filme de Hideshi Hino se filia. O ensaio de Williams explora a noção de que há, sim, valor em pensar a respeito da forma, função e sistema de significados desses tais excessos gratuitos. Afinal, se parece que o sexo, a violência e as emoções são elementos fundamentais para o efeito sensacional destes filmes, a designação “gratuito” é, ela mesma, gratuita.

As fórmulas repetitivas dos filmes de gênero são freqüentemente definidas a partir do estilo clássico da narrativa cinematográfica, caracterizado por ser eficientemente centrado em uma ação orientada linearmente em direção ao desejo de um único protagonista, envolvendo uma ou duas linhas de ação e um único desfecho. Mas o estudo dos gêneros tem dificuldade para acomodar em sua teoria atributos como o espetáculo e a representação episódica, assim como os efeitos não motivados – excessos na narrativa clássica que nos fazem reconhecer a possibilidade de o excesso ser também um dos organizadores do sistema. Ainda que essas análises ainda estejam longe de atingir gêneros consagrados, há alguns em que esses excessos são muito claros: entre eles, a pornografia, o horror e o melodrama.

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Como demonstra Williams, a característica que liga esses três gêneros é o fato de serem o que chama de “gêneros de corpo”, isto é, espetáculos do corpo sujeito a uma intensa sensação ou emoção. No caso do filme de horror, trata-se do retrato da violência; no pornográfico, de um retrato do orgasmo; no melodramático, de um retrato do sofrimento. Visualmente, cada um desses êxtases corporais pode ser qualificado como uma convulsão incontrolável ou espasmo, não marcado por articulações altamente codificadas da linguagem, mas por inarticulados gemidos, gritos e lágrimas.

É claro que existem outros gêneros que também retratam sensações físicas muito intensas, como os thrillers, os musicais, as comédias. O que Williams propõe é que os gêneros que costumam ter um baixo status cultural não são simplesmente aqueles que registram efeitos nos corpos na tela, mas também nos corpos dos espectadores. Quando a química funciona, o espectador do filme pornográfico pode realmente ter um orgasmo, enquanto o espectador do filme de horror realmente se assusta, e o espectador do melodrama se dissolve em lágrimas. O sucesso desses gêneros se evidencia justamente na medida de uma resposta física. O corpo do espectador é tomado numa espécie de mimetização do corpo na tela – e, completa a autora, esse corpo freqüentemente é o de uma mulher.

De fato, assistindo aos êxtases corporais presentes nesses filmes, percebemos que, ainda que se voltem a públicos diferentes, quase todos pressupõem homens ativos e mulheres passivas que corporificam as sensações de prazer, medo e dor. Em outras palavras, no caso da mais tradicional pornografia heterossexual, das histórias de horror e dos melodramas, é quase sempre o corpo da mulher que perde o controle sobre as próprias sensações. É o que Foucault chama de saturação sexual do corpo da mulher, que as audiências recebem como poderosa sensação. Não por acaso Alfred Hitchcock dizia que as mulheres são as melhores vítimas. “Torture a mulher”, era o seu famoso lema.

Mas poque é tão natural aceitarmos essa centralização desse tipo de história no corpo da mulher? E por que, ao mesmo tempo, tais gêneros são vistos como inferiores? Os gêneros que a autora isola como espetáculos do corpo feminino sexualmente saturado são alvos de muitas críticas a respeito da vitimização das mulheres, e é mesmo inegável a existência de um componente sádico muito forte entre eles. Porém, diminuir sua importância é diminuir a importância cultural e social dos problemas que levantam. Falar sobre eles necessariamente nos remete à fantasia, e não ao realismo que muitas vezes lhes é cobrado.

Mermaid in a Manhole, ainda que não apresente cenas de sexo explícito (o que seria impossível pelo fato de a mulher ser uma sereia), tem um componente inegavelmente erótico, e ainda sugere um estranho estupro que pode ter motivado a doença da sereia (ela está grávida de um bebê humano). É, também, um filme de horror em que a violência extrema e o sofrimento do corpo ocupam o centro das atenções. Finalmente, ao apresentar o amor devoto do pintor e o supremo sacrifício da seria, filia-se aos melodramas típicos de mulheres doentes, como Love Story, Laços de Ternura e tantos outros aos quais nos acostumamos desde a infância. Com isso, problematiza de maneira sintética toda essa discussão, além de nos lembrar o fato de que a questão não se restringe à cultura ocidental. O desprezo muitas vezes encontrado em críticas feitas a Mermaid in a Manhole (e a outros filmes semelhantes) se deve ao preconceito relativo às narrativas excessivas e às fantasias que elas representam. A dificuldade de apreciação artística de obras como essa denota, portanto, muitas vezes, a negação de nossos próprios desejos. Nesse sentido, acredito que, tanto como experiência estética quanto como objeto de discussão, o filme de Hideshi Hino merece, de todos, um olhar muito mais atento.

Eletronika 2009 celebra novas tendências musicais

Shows com atrações francesas, destaques da cena independente brasileira, filmes e debates integram a programação do evento que acontece na primeira semana de novembro
Belo Horizonte recebe em novembro mais uma edição do Eletronika, evento que apresenta ao público brasileiro grupos nacionais e internacionais que flertam com o gênero eletrônico. Além da música, o festival traz em sua programação, que vai do dia 05 a 07 de novembro, outros eventos como sessões de filmes, oficinas e uma série de debates reflexivos sobre a música brasileira.
O festival integra o Vivo Lab, um dos eixos da política cultural da Vivo, e possui parte de sua programação aberta ao público. Através das leis estadual e federal de incentivo à cultura, a Usiminas e a Vivo patronicam o Eletronika 2009 que também faz parte das ações do Ano da França no Brasil, conta com apoio da CEMIG (Companhia Elétrica de MG) e do FAD (Festival de Arte Digital de MG) e é afiliado da ABRAFIN – Associação Brasileira de Festivais Independentes.
Celebrando o Ano da França no Brasil, o Eletronika traz em sua programação de shows quatro atrações internacionais de destaque: Birdy Nam Nam, Anoraak, Minitel Rose e Rubin Steiner. Do cenário brasileiro, o festival selecionou grupos expoentes nos palcos nacionais como Black Drawing Chalks (GO), Copacabana Club (PR) e Garotas Suecas (SP). Em meio às atrações que são da capital mineira, destaca-se a presença no evento do Dead Lover’s Twisted Heart e a Virna Lisi, célebre banda de rock independente dos anos 90, que volta aos palcos após mais de 10 anos sem fazer shows ao vivo.
O Eletronika 2009 concentra a maior parte de sua programação no Espaço 104, galpão revitalizado na área central de Belo Horizonte, que vai abrigar durante os dias de evento as atividades multimídia do festival como as oficinas de áudio e vídeo, debates, sessões de cinema e apresentações musicais ao vivo com interação do público e instalações audiovisuais. Após o término da programação no Espaço 104, o festival se estende pela madrugada em dois dias de festas nas principais casas noturnas da cidade com o Eletronika Club, levando shows e discotecagens para Velvet Club, A Obra e Deputamadre, que encerra a noite com o N.A.S.A., projeto do produtor brasileiro Zé Gonzalez com o norte americano Sam Spiegal.
Histórico – Eletronika é um evento que apresenta novas tendências musicais e compartilha semelhanças e experiências sonoras com outros festivais internacionais como o espanhol Sonár e o francês TransMusicales. Realizado pela Malab Produções, o Eletronika surgiu em dezembro de 1999 e trouxe à Belo Horizonte em suas edições já realizadas até agora diversos nomes de respeito em um contexto nacional e internacional.
Tortoise, Tom Zé, Stereolab, Asian Dub Foundation, Nação Zumbi, DJ Marlboro, Mogwai, Instituto, Stereo Total, LCD Soundsystem, Battles, Mallu Magalhães e Fernanda Takai foram só alguns dos nomes que fizeram parte da história do evento, que já foi realizado em diferentes espaços da capital mineira, estando aberto às novidades que surgem por aí.

Fragmento de perfeição no mundo pop


Verão em Londres. Os relógios marcam mais de 30 graus, e como lembrou um jornal vespertino destes distribuídos gratuitamente na porta do metrô, nem assim os motoristas desligaram o aquecimento dos “double decker bus”, aqueles famosos ônibus vermelhos de dois andares que povoam o imaginário gringo e uma canção dos Smiths. A empresa que controla o transporte público londrino acusou um problema nos geradores, e assim se fez a sauna.

Como diria Joe Strummer, Londres ferve, e não só por causa do calor do tão aguardado verão e dos problemáticos aquecedores dos ônibus. Há um motivo especial: uma das bandas britânicas mais importantes das duas últimas décadas está quebrando um silêncio de seis anos e 55 mil pessoas marcham para rever o mito ao vivo em dois dias de shows no Hyde Park, um dos maiores parques da cidade.

O metrô está lotado e mais parece um desfile de semana de moda com camisetas de bandas de rock, cores de cabelo e trajes de verão. As duas estações de metrô que atendem ao parque estão com as catracas abertas visando evitar a muvuca que um número tão grande de pessoas juntas no mesmo lugar possa causar. Coisa de quem já vem fazendo eventos desse porte já faz mais de 40 anos.

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A fila no caixa eletrônico da estação é enorme. Fãs compram de tudo: água, suco, batatinhas. Cambistas correm pra lá e pra cá oferecendo por 150 libras os ingressos que custavam 50 nos revendedores oficiais, e que haviam se esgotado semanas antes do show. Uma menina de cabelo amarelo, saia xadrez e tatuagem descolada chora um desconto, e consegue pegar um par de ingressos por 200 libras (cerca de 600 e poucos reais). Todos sorriem.

Os dois shows no Hyde Park eram para ser os primeiros da volta do Blur, mas eles saíram fazendo pequenos apresentações de aquecimento para 200 pessoas e aceitaram o convite do badalado e enorme Glastonbury, para fechar uma das noites do festival. Isso não impediu que os mais de 110 mil ingressos evaporassem e, no dia do show, as bilheterias só atendem credenciamentos e convidados, mas por 100 libras se dá um jeitinho.

A entrada para o local do show é de fácil acesso e não tem filas. São quase 14h, e o roteiro promete apresentações de uns tais de Golden Silvers mais Crystal Castles e Foals. A banca de camisetas oficiais fatura uma nota e as filas para beber a cerveja dinamarquesa Tuborg e três variantes de sidra – a moda do momento em festivais de rock na Europa – crescem. O sol está lá no alto e os termômetros marcam 32 graus.

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Os Golden Silvers abrem o dia e vão embora deixando a certeza de que precisam amadurecer muito. O Crystal Castles foi bem mais interessante, apesar da jovem vocalista Alice Glass exagerar no cliche e na pose. Ela parece (ou faz o possível para parecer) uma Amy Winehouse de terceira categoria, mas tem presença de palco. Desfila sua meia-calça desfiada, se joga na galera e diverte. A temperatura continua subindo.

No intervalo, pequena pausa para pesquisar um prato de comida decente. A opção escolhida é um hambúrguer caprichado com um pouquinho de salada e muito catchup. Me sinto em um festival no Brasil, mas volto a realidade na hora da sobremesa: um belo sorvete de chocolate que se mantém congelado debaixo do sol de quase 35 graus. Hora de abastecer de cerveja e encarar o Foals, que foi elogiado no Planeta Terra 2008, mas que pareceu deslocado no Hyde Park. Melhor procurar uma sombra.

São quase sete da noite – com sol a pino – quando o Blur dá as caras. Seis anos no mundo pop são uma eternidade, mas parece que o quarteto sobreviveu bem ao tempo. Eles começam com “She’s So High” e emendam de cara “Girls and Boys” sem pausa pra falação. O local vira uma festa daquelas em que você não acredita estar presente. O repertório é generoso com hits e o público canta tudo.

Damon Albarn sorri olhando a multidão de pessoas, oferece “Beetlebum” ao sol e relembra que o local já presenciou uma passeata de dois milhões de pessoas contra a guerra do Iraque. “E vocês viram o que aconteceu”, provoca. Em outro momento, conta que morou um bom tempo perto do Hyde Park, e que foi em suas idas e vindas ao local que surgiu a idéia para “Parklife”, a canção, que traz ao palco Phil Daniels (o ator do filme Quadrophenia) para uma versão simplesmente arrasadora da música.

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Há espaço para canções de todos os álbuns da banda. “There’s No Other Way” da estréia com Leisure (1991); “Chemical World”, “Sunday Sunday”, “Advert”, “Popscene” e “Oily Water” de Modern Life Is Rubbish (1993); metade das 16 faixas do aclamado Parklife (1994); “Country House” de The Great Escape (1995); “Death of a Party” de Blur (1997); “Trimm Trabb” e as encantadoras (e os grandes momentos da noite) “Coffee & TV” e “Tender” de 13 (1999); e apenas “Out of Time” (com Albarn solando ao violão) de Think Thank (2003) num total de 25 músicas.

Damon Albarn e Graham Coxon sorriem um para o outro em vários momentos da apresentação, mas não trocam uma palavra, um abraço, um elogio sequer. Há certa distância entre os dois, e isso felizmente não atrapalha o show, que é impecável no que diz respeito à parte instrumental, com Alex James (baixo) e Dave Rowntree (bateria) construindo o terreno para que o guitarrista desfile riffs portentosos e o vocalista entretenha a audiência.

Já no bis, o vocalista comenta sorrindo e exibindo sua prótese de ouro no maxiliar superior: “Sou um sortudo por ficar tanto tempo parado e voltar para isso”. Uma batida desajeitada na caixa da bateria faz o público enlouquecer, e ‘uhus’ são ouvidos aqui e ali até o riff violento de “Song 2″ flutuar na atmosfera como serra elétrica cortando o ar. No alto, o céu azul sem nenhuma nuvem está mais escuro, e uma lua branca sobe às costas do palco. O show termina em um segundo bis com Albarn desejando “Enjoy the summer” ao final de “The Universal”. Perfeito.

A saída não poderia ter sido mais tranqüila, e logo um ônibus encosta, superlota, e segue seu caminho noite adentro. O show deixa de ser presente e se transforma em objeto, afinal, assim que a banda colocou os ingressos à venda, um email ofertava ao comprador do ticket o áudio da noite – em MP3 de 320k – por 10 libras ou 15 libras o CD físico duplo (28 se você quisesse os dois shows). Assim nasceu All The People – Blur Live at Hyde Park, CD/MP3 que permanece à venda na Blur Store (http://blur.sandbag.uk.com), e será comercializado apenas ali.

Foram dois shows especiais, e embora o futuro da banda seja incerto, o Blur cumpriu seu dever naqueles dois dias de julho: divertiu 110 mil pessoas com um show impecável cujo registro em áudio (ótimo, mas um pouco abafado em alguns momentos devido à correria da mixagem) não traz todo o calor do verão londrino, o gosto da pilsen dinamarquesa, e nem o sabor das batatas fritas gordurosas afogadas em catchup, mas dá uma pequena idéia do que aconteceu no Hyde Park e deixa a certeza de que momentos assim são raros fragmentos de perfeição na imperfeição do mundo pop. Esse foi. Agora aguardemos o próximo.




Bad Lieutenant é a continuação do New Order



É impossível ouvir a banda Bad Lieutenant, novo projeto de Bernard Sumner e não compará-lo ao New Order[bb], afinal é a voz de Sumner que chama atenção desde o primeiro momento. Para ajudar, o último trabalho do New Order seguiu por uma linha muito parecida com a que temos em Never Cry Another Tear, nome do álbum de estréia do Bad Lieutenant.

Ou seja, é possível até mesmo fazer uma analogia, claro, guardando muito bem as proporções, entre o fim do Joy Division[bb] e o nascimento do New Order. Como o New Order morreu há poucos meses, nada mais natural considerar o Bad Lieutenant como seu filho direto.

Se lembrarmos do bom último disco da banda de Manchester, Waiting for the Sirens’ Call, perceberemos que essa estréia nada mais que é que uma continuação do que eles estavam fazendo em 2005. As viúvas do New Order torcerão o nariz, como fizeram há quatro anos, mas quem curtiu a guinada “roqueira” feita pela banda, sairá bem feliz com o novo projeto.

O disco abre com a já conhecida “Sink or Swin”, com seu riff simples e direto, com direito a um belo trabalho vocal de Sumner, e da ótima linha de baixo, criada por Alex James, do Blur[bb] – um dos convidados especiais deste disco. Em “Twist of Fate” e “Summer Days On Holliday”, o grupo embarca no oitentismo e acaba soando como uma cópia pálida do Tears For Fears

O clima mezzo 80, mezzo 90 predomina durante todo o trabalho e isso implica em todas as virtudes e defeitos do pop inglês nestas duas décadas. Então é fácil encontrarmos semelhanças com bandas como o Oasis e Blur – principalmente na voz de Jake Evans, que divide os vocais com Sumner.

E esse talvez seja o maior pecado deste Never Cry Another Tear. Se tivesse sido lançado há dez anos poderia ser considerado revolucionário, mas agora, em 2009, pode ser apenas considerado como um resgate de boas lembranças musicais, ainda assim traz boas canções, como a balada “Runaway” e “Runnig Out Of the Luck”, cantadas respectivamente por Evans e Sumner.

Agora, deixando o lado “critico chato” de lado, o disco é bom, e se transforma em um bom passatempo para aquelas horas que você vai ficar preso no trânsito sob a chuva. Resta agora aguardarmos o primeiro trabalho do Freebass, nova banda de Peter Hook, para sabermos quem vai largar o osso do New Order primeiro.